Para mais informações sobre as peças participantes da temporada de teatro no CET:
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14 de novembro de 2011
13 de novembro de 2011
Diário de um Processo (13) - Teatro-cordel
Os meses de setembro e outubro foram dedicados pela trupe da peça "A Seca da Alma" a trabalhos diversos. Entre as atividades diretamente ligadas à preparação da peça, destacamos o treinamento semanal de corpo com a atriz Adriana Barja.
Também neste período houve a mudança do nome do grupo, que passou a se chamar Cia Mundo Teatral, e uma mudança no elenco, com a saída da Anne Karoline (que vai estudar e cantar em terras paulistanas) e a entrada do Diego.
Em consequência destas mudanças, foram feitas alterações na divisão dos textos da peça.
Ainda estamos (sempre!?!) em processo.
O maior desafio ainda é o de sempre: trazer as imagens da seca (e da história) para o público. Continuamos pedindo aos atores que visualizem as (muitas) imagens presentes no texto.
Depois de vários meses de trabalho, chegamos enfim a uma proposta clara quanto aos personagens:
- O pai
- A mãe
- A vizinha-comadre
- O violeiro
Também temos agora um modelo padrão para os cartazes e material de divulgação da peça, com a criação de uma xilogravura especificamente para "A Seca da Alma", feita pelo jovem Aron dos Santos, de Taubaté (também parceiro de criação de capas dos Cordéis Joseenses).
Além de trabalhar na história da peça propriamente dita, seguimos nossa pesquisa contínua de notícias ligadas ao tema da peça (migração), com dois objetivos principais:
1) manter sempre atualizada a seção inicial (teatro-jornal);
2) estabelecer, cada vez mais, pontes entre os relatos orais/literários/históricos e nossa realidade atual.
Nesse momento de "efervescência criativa" (a próxima apresentação do grupo está marcada para 19/11), uma notícia publicada hoje no jornal O Vale chama a atenção para o fato de que, no século XXI, a cidade de São José dos Campos continua sendo campeã regional em número de migrantes. De fato, esta parece ser uma característica fundamental de São José, que justifica e amplia o sentido de nosso trabalho na peça.
A respeito da matéria publicada na imprensa, enviei ao jornal o seguinte comentário, que proponho aos atores que seja incluído no início da peça:
" Nos últimos 20 anos, quase 90 mil pessoas migraram para São José dos Campos, ajudando a construir a identidade joseense neste início de século XXI. Grande parte veio do Nordeste. São migrantes - e são joseenses. E cada uma dessas pessoas merece o nosso respeito e o nosso agradecimento - não importa o bairro onde moram. "
* para saber mais sobre nosso processo de criação em "A Seca da Alma", digite "processo" ou "Seca da Alma" na caixa de pesquisa à esquerda, no alto do blog.
(continua)
12 de novembro de 2011
"A Seca da Alma" - Dia 19/11, às 20h
Após um bom período, já estava na hora de voltar: "A Seca da Alma" terá nova apresentação no próximo dia 19/11, às 20h, no Centro de Estudos Teatrais (CET), Parque da Cidade, em São José dos Campos.
O trabalho utiliza a poesia - e, em particular, a métrica do cordel - para falar sobre a dura vida das pessoas atingidas pela seca no sertão.
A trupe resolveu alterar o nome: agora o grupo se chama Cia Mundo Teatral.
Compareçam!
21 de setembro de 2011
Matéria da TV sobre o Cine Teatro (Vanguarda News, set/2011)
Prezados,
Esta semana a TV Vanguarda colocou no ar a matéria feita sobre o Cine Teatro Benedito Alves, incluindo declarações de alguns dos (muitos) envolvidos na luta pela recuperação deste espaço cultural da nossa cidade - lembramos que essa é uma luta de todos nós enquanto cidadãos joseenses.
Na matéria, a prefeitura garante que, com apoio da iniciativa privada, o teatro será entregue (de volta) à população até o meio do ano que vem. Segue a ligação para o vídeo:
| Celso, Jacqueline e Paulo, em frente ao Cine Teatro |
A parte final da matéria apresenta um trecho do poema "A Seca da Alma", em que menciono os políticos que pensam no povo só quando chega a eleição...
tanto bate até que fura:
A Seca d´Alma é tão dura
quanto a Seca do Sertão"
Em seguida a jornalista conclui dizendo que "tá dado o recado" e que a TV vai cobrar o cumprimento da promessa de "teatro funcionando até o meio de 2012".
Nós também vamos cobrar o cumprimento dessa promessa!
9 de setembro de 2011
Diário de um Processo (12) - Teatro-cordel
(...)
FILMES - A pesquisa sobre filmes ligados ao nosso universo de interesse para este trabalho permitiu encontrar muitos filmes interessantes - a ideia é ver (e/ou rever) aos poucos.
O primeiro filme a circular no grupo foi O Céu de Suely (de Karim Ainouz). Achei que era importante "abrir a série" com um filme recente, pra estimular cada um de nós a construir a ponte entre a primeira metade do século XX e os dias atuais.
Embora tenhamos feito uma lista de muitos filmes interessantes para assistir, dá para destacar, até o momento, dois trabalhos em particular:
- Cabra Marcado para Morrer (de Eduardo Coutinho; a história de como o filme levou mais de 20 anos pra ficar pronto é tão importante quanto o filme em si)
- Morte e Vida Severina (aí tem tudo: o texto do João Cabral, a realidade visual e a verdade do José Dumont)
TEATRO-JORNAL - Em agosto, começamos a nos aproximar mais claramente da idéia de Teatro-jornal: passei a comprar regularmente um jornal local pra gente discutir as notícias. A ideia é inserir, na parte inicial da performance teatral A Seca da Alma, a apresentação (após análise crítica) de notícias recentes que consideremos relevantes para reflexão. E foi nesse estágio que pintaram mais duas apresentações:
1) na abertura da programação do Teatro em Processo, proposto por Wangy Alves para ocorrer a cada última quinta-feira do mês, no Centro de Estudos Teatrais (CET) do Parque da Cidade;
2) na programação da Semana da Psicologia, realizada na UNIP.
Na apresentação do CET, abrimos com a notícia da possível entrega do Cine-Teatro Benedito Alves à iniciativa privada (ver mais material sobre isso aqui no blog). O grupo parecia intimidado, talvez pela presença de professores de teatro. Mas o debate foi produtivo. Mais uma vez recebemos a sugestão de valorizar a parte musical, que cativa o público. Ok!
No dia seguinte, na UNIP, a apresentação foi muito melhor (e para público bem maior, também). Como sempre, numa análise crítica do vídeo, dias depois, identificamos muitos pontos a melhorar. De todo modo... dois fatores contribuíram para a evolução da apresentação, creio:
1) voltamos a abrir A Seca da Alma com música;
2) a notícia escolhida para apresentação crítica foi a do aumento (de quase 60%) dos vereadores joseenses; acabou "nascendo" na hora um discurso de indignação que culminou com a leitura dos nomes dos vereadores que perpetraram a aprovação do aumento.
O primeiro filme a circular no grupo foi O Céu de Suely (de Karim Ainouz). Achei que era importante "abrir a série" com um filme recente, pra estimular cada um de nós a construir a ponte entre a primeira metade do século XX e os dias atuais.
Embora tenhamos feito uma lista de muitos filmes interessantes para assistir, dá para destacar, até o momento, dois trabalhos em particular:
- Cabra Marcado para Morrer (de Eduardo Coutinho; a história de como o filme levou mais de 20 anos pra ficar pronto é tão importante quanto o filme em si)
- Morte e Vida Severina (aí tem tudo: o texto do João Cabral, a realidade visual e a verdade do José Dumont)
TEATRO-JORNAL - Em agosto, começamos a nos aproximar mais claramente da idéia de Teatro-jornal: passei a comprar regularmente um jornal local pra gente discutir as notícias. A ideia é inserir, na parte inicial da performance teatral A Seca da Alma, a apresentação (após análise crítica) de notícias recentes que consideremos relevantes para reflexão. E foi nesse estágio que pintaram mais duas apresentações:
1) na abertura da programação do Teatro em Processo, proposto por Wangy Alves para ocorrer a cada última quinta-feira do mês, no Centro de Estudos Teatrais (CET) do Parque da Cidade;
2) na programação da Semana da Psicologia, realizada na UNIP.
Na apresentação do CET, abrimos com a notícia da possível entrega do Cine-Teatro Benedito Alves à iniciativa privada (ver mais material sobre isso aqui no blog). O grupo parecia intimidado, talvez pela presença de professores de teatro. Mas o debate foi produtivo. Mais uma vez recebemos a sugestão de valorizar a parte musical, que cativa o público. Ok!
No dia seguinte, na UNIP, a apresentação foi muito melhor (e para público bem maior, também). Como sempre, numa análise crítica do vídeo, dias depois, identificamos muitos pontos a melhorar. De todo modo... dois fatores contribuíram para a evolução da apresentação, creio:
1) voltamos a abrir A Seca da Alma com música;
2) a notícia escolhida para apresentação crítica foi a do aumento (de quase 60%) dos vereadores joseenses; acabou "nascendo" na hora um discurso de indignação que culminou com a leitura dos nomes dos vereadores que perpetraram a aprovação do aumento.
Trecho final de "A Seca da Alma", na versão de 26/08/11
Dias depois, postamos no YouTube os primeiros vídeos da performance (abertura e final dessa apresentação na UNIP), pelos quais recebemos uma mensagem animadora de Valdecy Alves:
"O pior do Poder Legislativo é que legisla mal, nada fiscaliza... HÁ UMA CERTA PROSTITUIÇÃO POLÍTICA PRATICADA PELA MAIORIA DOS MEMBROS DO PARLAMENTO A NÍVEL MUNICIPAL, ESTADUAL E FEDERAL...
Caldeirão foi uma alternativa de pessoas sofridas terem supridos os direitos fundamentais negados pelo Estado... uma busca da solução através da fé... comunismo antigo... mas destruíram Caldeirão... NADA FAZEM! NEM DEIXAM FAZER!
É preciso aprender com a história... vocês estão ensinando a compreender a história... para compreender-se! Para alterar destinos! E com a arte!
Caldeirão foi uma alternativa de pessoas sofridas terem supridos os direitos fundamentais negados pelo Estado... uma busca da solução através da fé... comunismo antigo... mas destruíram Caldeirão... NADA FAZEM! NEM DEIXAM FAZER!
É preciso aprender com a história... vocês estão ensinando a compreender a história... para compreender-se! Para alterar destinos! E com a arte!
Parabéns a todos os envolvidos no projeto.
Porque a arte fala ao sentimento... o sentimento humaniza a razão...
Com a indignação nascida, é possível reescrever a história das novas gerações... pois repetir erros históricos faz de um povo inteiro imbecil e de uma nação inteira um bando de idiotas incapazes de viver da forma menos pior possível.
A PIOR SECA É A DE HOMENS DE VERDADE E DE HUMANISMO!"
Porque a arte fala ao sentimento... o sentimento humaniza a razão...
Com a indignação nascida, é possível reescrever a história das novas gerações... pois repetir erros históricos faz de um povo inteiro imbecil e de uma nação inteira um bando de idiotas incapazes de viver da forma menos pior possível.
A PIOR SECA É A DE HOMENS DE VERDADE E DE HUMANISMO!"
- Valdecy Alves
(continua)
6 de setembro de 2011
A Vida é a Arte do Encontro (Festivale 2011)
A coisa mais bonita e importante da Vida são esses momentos fantásticos de encontro e compartilhamento: arte, afeto e generosidade, nessa busca pela construção de um mundo melhor. Foi uma grande alegria receber a Cia Buraco d´Oráculo e a peça "Ser Tão Ser" aqui em São José dos Campos. Disse muito pra gente, nós que estamos estudando pra fazer essa ponte entre a Seca da Alma e a Seca do Sertão. E, pra lidar com isso, só mesmo convocando a Palavra e a Música, o Verso e a Voz...
| Irmanados: contra a Seca da Alma, ARTE NA RUA! |
| Na Rodoviária Velha de São José, arando novos Campos para a Arte |
Que BOM poder encontrar, falar poesia e cantar junto com Edmilson Santini, Santos Chagas e o pessoal do Buraco D´Oráculo!
| Cantando para celebrar o tempo-espaço público do encontro |
Com direito a cantar "Asa Branca" na Rodoviária Velha, bem em frente ao Banhado - área de proteção ambiental de São José dos Campos para a qual estamos chamando a atenção através da poesia de cordel.
| Parceria que flui, natural... Edmilson e Santos Chagas não se viam há "uns 20 anos". O melhor da Arte é permitir esses (re)encontros. Coisa pra ser celebrada mesmo. |
A Vida é (mesmo) maior do que a arte. E na Vida, como na Arte, acredito no afeto como força revolucionária.
| "Eu te asseguro: não chore não, viu?" |
A Vida é (mesmo) a arte do encontro, já dizia o poeta - e isso é verdade.
| RJ, SJC e Curitiba: Edmilson Santini, Paulo Barja e Santos Chagas |
Poder receber Edmilson e Santos Chagas - e interagir com esses caras - é uma das maiores alegrias que esta cidade podia ter dado a esse cordelista feliz.
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31 de agosto de 2011
Diário de um processo (11) - Teatro-cordel
(...)
Quebro conscientemente a ordem cronológica deste "Diário de Processo" para divulgar o primeiro vídeo da "Seca da Alma" que postamos no YouTube:
O vídeo é só do começo da peça (tal como apresentada em 26/08/2011), mas traz um exemplo do tipo de trabalho que queremos fazer, inserindo o "teatro-jornal" na apresentação, para estimular o pensamento crítico.
Viva Augusto Boal!
29 de agosto de 2011
Diário de um processo (10) - Teatro-cordel
(...)
Logo após a apresentação do final de julho, finalizei um prólogo para a peça, divulgado em duas partes no blog Cordéis Joseenses:
Ainda em agosto, avançaram nossos papos sobre teatro-jornal. Chegamos à conclusão de que seria bom começar a experimentar essa metodologia em apresentações, principalmente em espaços públicos.
http://www.cordeisjoseenses.blogspot.com/2011/07/teatro-cordel-prologo-parte-i.html
http://www.cordeisjoseenses.blogspot.com/2011/08/teatro-cordel-prologo-parte-ii.html
http://www.cordeisjoseenses.blogspot.com/2011/08/teatro-cordel-prologo-parte-ii.html
Ainda em agosto, avançaram nossos papos sobre teatro-jornal. Chegamos à conclusão de que seria bom começar a experimentar essa metodologia em apresentações, principalmente em espaços públicos.
Também avançamos na pesquisa sobre filmes ligados ao nosso universo de interesse para este trabalho...
(continua)
(continua)
27 de agosto de 2011
Diário de um processo (9) - Teatro-cordel
(...)
Na Mostra Urbana de Teatro do Espaço Cultural Flávio Craveiro, foram experimentadas diversas mudanças em relação à estreia:
i) As notícias/dados do IBGE passaram para o início da apresentação (antes ficavam no encerramento);
ii) Escrevi mais um trecho de narrativa em cordel para a parte final da apresentação, falando da viagem que muitos fizeram para "o Sul" (aí compreendidos todos os Estados que ficam "ao Sul do Nordeste");
iii) Para trabalhar a naturalidade da narrativa, sugerimos às moças a realização de atividades ligadas à vida no campo, durante a narração. Mari e Sílvia propuseram trabalhar com milho e mandioca (culturas muito significativas no sertão);
A recepção foi boa, dizem (pena que não pude estar presente, por conta da cirurgia). Mas, claro: de lá pra cá, várias outras ideias vieram ganhando corpo...
O grupo gostou da ideia de manter a performance "A Seca da Alma" no repertório, para apresentações curtas, enquanto continuamos os estudos para a criação de uma peça teatral mais longa, onde poderemos aprofundar a abordagem dos temas de interesse - história do Brasil (a que não aparece nos livros), migração e preconceito, entre outros.
Na sequência dos estudos, bom deixar registrada a relevância dos papos com Antonio Carlos Guimarães, sociólogo e professor da Univap, abordando temas como as diferentes visões da História do Brasil. Um exemplo particularmente relevante para a gente é o da Revolução de 1932, que (falando muito simplificadamente aqui) em São Paulo é muitas vezes apresentada como uma revolução “libertária”, contra ditadura e coronelismos. Enquanto isso, a visão nordestina sobre o mesmo fato histórico é bastante diferente: o movimento paulista é visto como um movimento que visa a retomada dos privilégios da oligarquia paulista, sempre aferrada ao poder. Sobre esse tema específico, encontramos um pequeno tesouro no livro “História do Brasil em Cordel”, de Mark Currain (EDUSP, 2001). O livro é interessante por ter sido escrito por um historiador norte-americano, que por sua origem está naturalmente desvinculado de uma eventual visão “nortista” ou “sulista” do Brasil (escrevo assim lembrando que os próprios brasileiros adotaram por muito tempo essa divisão simplista Norte/Sul, incluindo todo o Nordeste no primeiro e todo o Sudeste no segundo).
Na Mostra Urbana de Teatro do Espaço Cultural Flávio Craveiro, foram experimentadas diversas mudanças em relação à estreia:
i) As notícias/dados do IBGE passaram para o início da apresentação (antes ficavam no encerramento);
ii) Escrevi mais um trecho de narrativa em cordel para a parte final da apresentação, falando da viagem que muitos fizeram para "o Sul" (aí compreendidos todos os Estados que ficam "ao Sul do Nordeste");
iii) Para trabalhar a naturalidade da narrativa, sugerimos às moças a realização de atividades ligadas à vida no campo, durante a narração. Mari e Sílvia propuseram trabalhar com milho e mandioca (culturas muito significativas no sertão);
A recepção foi boa, dizem (pena que não pude estar presente, por conta da cirurgia). Mas, claro: de lá pra cá, várias outras ideias vieram ganhando corpo...
Na sequência dos estudos, bom deixar registrada a relevância dos papos com Antonio Carlos Guimarães, sociólogo e professor da Univap, abordando temas como as diferentes visões da História do Brasil. Um exemplo particularmente relevante para a gente é o da Revolução de 1932, que (falando muito simplificadamente aqui) em São Paulo é muitas vezes apresentada como uma revolução “libertária”, contra ditadura e coronelismos. Enquanto isso, a visão nordestina sobre o mesmo fato histórico é bastante diferente: o movimento paulista é visto como um movimento que visa a retomada dos privilégios da oligarquia paulista, sempre aferrada ao poder. Sobre esse tema específico, encontramos um pequeno tesouro no livro “História do Brasil em Cordel”, de Mark Currain (EDUSP, 2001). O livro é interessante por ter sido escrito por um historiador norte-americano, que por sua origem está naturalmente desvinculado de uma eventual visão “nortista” ou “sulista” do Brasil (escrevo assim lembrando que os próprios brasileiros adotaram por muito tempo essa divisão simplista Norte/Sul, incluindo todo o Nordeste no primeiro e todo o Sudeste no segundo).
(continua)
25 de agosto de 2011
Abertura das "Noites em Processo"
| Debate após a estreia do trabalho, lá mesmo no CET (jun/2011) |
Desde que foi trabalhar no Centro de Estudos Teatrais (CET), Wangy Alves está movimentando o espaço de uma forma bonita, incentivando a interação de artistas locais, estudantes e demais interessados na criação artística. Só por isso, já merece nosso aplauso e consideração - o trabalho dele na Cia Velhus Novatus também se depura e evolui com o tempo, vale a pena acompanhar.
Hoje à noite (20h) ocorre a abertura da programação Noites em Processo, lá no CET, com a apresentação da performance teatral A Seca da Alma, que estamos conduzindo com a Cia Independente de Teatro:
Todos estão convidados!
3 de agosto de 2011
Diário de um processo (7) - Teatro-cordel
IMAGENS
Das fotos abaixo, a primeira foi capa da National Geographic em 1984 e levou McCurry a obter reconhecimento internacional. Nem todos sabem, porém, que ele voltou ao Afeganistão em 2001, em busca da mesma garota - e a encontrou. Observem a força ainda presente nos olhos e, por outro lado, as duras marcas do tempo no rosto dela.
Por fim, temos a foto de um ícone brasileiro em momento particularmente difícil: Caetano Veloso, durante o exílio em Londres (1970). Caetano encerra esse disco cantando provavelmente a versão mais rasgadamente pungente de Asa Branca - na opinião do próprio autor da música, Luiz Gonzaga. Ao ver a capa do disco, Gonzaga diz ter percebido imediatamente a identificação de Caetano com a letra de Humberto Teixeira para a melodia tradicional nordestina:
"Eu te asseguro: não chores não, viu
(continua)
Além das (maravilhosas) fotos do Sebastião Salgado, vamos aos poucos juntando outras referências visuais para o trabalho - ligadas, em geral, à ideia da diáspora a que tantos trabalhadores são obrigados. Abaixo, apresentamos algumas dessas imagens que nos marcaram. A primeira é uma foto de 1929, em que a mãe americana é obrigada a encarar a dura realidade da crise - ela sofre, mas mantém a dignidade e não esquece sua função de protetora dos filhos.
![]() |
| Mãe emigrante (Dorothy Lange, 1929) |
Das fotos abaixo, a primeira foi capa da National Geographic em 1984 e levou McCurry a obter reconhecimento internacional. Nem todos sabem, porém, que ele voltou ao Afeganistão em 2001, em busca da mesma garota - e a encontrou. Observem a força ainda presente nos olhos e, por outro lado, as duras marcas do tempo no rosto dela.
![]() |
| Garota/mulher afegã (McCurry, 1984/2001) |
Por fim, temos a foto de um ícone brasileiro em momento particularmente difícil: Caetano Veloso, durante o exílio em Londres (1970). Caetano encerra esse disco cantando provavelmente a versão mais rasgadamente pungente de Asa Branca - na opinião do próprio autor da música, Luiz Gonzaga. Ao ver a capa do disco, Gonzaga diz ter percebido imediatamente a identificação de Caetano com a letra de Humberto Teixeira para a melodia tradicional nordestina:
"Eu te asseguro: não chores não, viu
que eu voltarei, viu, pro meu sertão"
(continua)
31 de julho de 2011
Diário de um processo (6) - Teatro-cordel
(...)
(continua)
A expressão "bonito pra chover" (tirada do Dicionário de Piauiês) era luminosa - daquelas poucas palavras que dizem muito -, e sua presença se impunha no texto. Pensei em compor um tema musical para a primeira parte da peça - um momento "de respiro", em que se cantasse essa frase com a alegria daqueles que sabem a importância da chuva para a plantação.
A essa altura, já havia surgido uma segunda música para a peça - falando dos nordestinos que vieram para SP e tiveram (têm) que encarar o preconceito em determinadas situações:
Nordeste paulista
P.R.Barja
Vim pra São Paulo
Tô aqui há muitos anos
Não estava nos meus planos
Eu só vim pra trabalhar
Fiquei aqui
Trabalhando noite e dia
Mas é grande a agonia
A saudade é de matar
Fazemos verso
Temos cantoria e festa
Somos tudo gente honesta
Que aprecia um arraial
São Paulo é hoje
Uma terra também nossa
Mas se a gente escuta troça
Fica triste, é natural
Esse país de todos
É mais de alguns que do povo
Junto a gente fica forte
E um dia vai ser feliz de novo
Mas havia algo talvez até mais importante do que o texto e as músicas, para o trabalho do grupo: a necessidade de trazer imagens para o trabalho dos atores (sugestão, por sinal, dada pelo Atul na estreia da "Seca da Alma". Imagens que nem precisariam ser da seca propriamente dita, mas que serviriam como base para a interpretação em diferentes momentos. Começamos então a pesquisar e montar um pequeno banco de imagens. Na semana seguinte, fui até Santos resgatar (na casa dos pais) um livro que, imaginei, poderia ser útil. Assim que comecei a folhear "Terra", do Sebastião Salgado, tive certeza de que ali estava outra referência fundamental para o nosso trabalho.
(continua)
Diário de um processo (5) - Teatro-cordel
![]() |
| "A Seca da Alma", um registro do início da trajetória |
LEITURAS
Retomamos a busca das notícias e encontramos, já no mês de julho:
- Censo 2010 revela que a região do Vale do Paraíba abriga 21 mil famílias de miseráveis;
- No Banhado de São José dos Campos, moradores protestam contra a retirada a que estão sendo forçados em nome da modernização (e da "limpeza" que dá voto)
A cada leitura, a cada notícia, vai se fortalecendo na gente a vontade de levar o trabalho e essas questões para a rua, para os cidadãos, evitando ficar naquela zona confortável das apresentações "de artista pra artista". Por isso, estabelecemos a meta de levar o trabalho também (e principalmente) para espaços públicos "não-teatrais". Praça e rua também, claro, mas sem limitar o trabalho a "teatro de rua". Uma ideia começou a bater forte: e se a gente pudesse levar a apresentação para igrejas...? Acho que ainda faremos isso.
Além dos jornais, outras leituras... a principal: a biografia de Luís Gonzaga escrita pela jornalista francesa Dominique Dreyfus. Começamos a ler e discutir trechos em nossas reuniões, pois a vinda dele (e, depois, da família) para o RJ coincidia em muitos aspectos com a história que se delineia aos poucos em nossa dramaturgia.
Sobre a Seca de 32, os textos do Valdecy Alves ajudavam. E havia dois outros temas a pesquisar, para ambientar a dramaturgia: Lampião e Padre Cícero. Em ambos os casos, uma fonte importante de pesquisa foram os cordéis. Sobre Lampião, são tantos folhetos que seria injusto citar algum. Mas, no caso do Padre Cícero, não há como deixar de destacar o folheto de cordel "A Vida do Padre Cícero", de Manoel Monteiro, pela visão crítica, ferina mesmo (além da qualidade da poesia). Uma grande alegria: o folheto havia sido enviado para mim pelo próprio autor (tido hoje como o maior cordelista vivo do Brasil), junto com uma carta datilografada, extremamente gentil - daquelas escritas por gente que não precisa mais provar nada a ninguém. Obrigado, mestre!
Em paralelo, comecei uma pesquisa sobre linguagem e expressões que poderiam ser aproveitadas no texto da peça. Além da leitura contínua de folhetos de cordel variados, pesquisei nessa etapa a obra de Câmara Cascudo "Locuções Tradicionais no Brasil" (ed.Itatiaia, 1986). Apesar de extensa e bem cuidada, a obra de Cascudo não forneceu material que se pudesse aproveitar diretamente no texto da peça. Era preciso encontrar algo mais regional... aí me lembrei do presente que eu havia recebido da Méssia, de Teresina:
- Cunha, P. J. Grande Enciclopedia Internacional de Piaiuês (ed. Oficina da Palavra, 4a.ed., 2009) Encontrei nesse livro uma verdadeira pérola...
(continua)
29 de julho de 2011
Diário de um processo (4) - Teatro-cordel
(...)
3) "O impacto da fala de vocês no debate é maior do que o próprio trabalho em si..."
Diariamente, os jornais mostram que a história do desterro é secular e atual, repetindo-se, com particularidades locais, no aqui-agora. Durante as leituras, a palavra "diáspora" começou a se impor como tradução desse deslocamento humano impelido por circunstâncias diversas.
Em meio a esse mar de ideias e informações, no dia 26/06 ocorreu a estreia da "Seca da Alma", com aproximadamente 23 minutos nesta primeira versão. O auditório do CET, no Parque da Cidade de São José dos Campos, estava lotado, com o público composto em boa parte por outros participantes da Mostra Joseense de Cultura.
Nesse primeiro dia, com o embrião do trabalho, o mais marcante para nós foi que o debate gerado a partir da peça durou mais de uma hora (!), para uma apresentação de pouco mais de 20 minutos (!!) - em meio às diversas críticas recebidas, isso para nós pareceu um sinal de que valeria a pena dar sequência ao trabalho. Registramos aqui as diversas observações recebidas da crítica nesse momento, acompanhadas de pequenos comentários a respeito:
1) “Isso não é propriamente uma peça de teatro...”
- Verdade! Essa observação evidenciou, até pra gente mesmo, que não era uma preocupação nossa formatar o trabalho nos moldes convencionais de uma peça de teatro.
2) "Já que vocês falam do Nordeste, por que os atores não usam sotaque nordestino?"
- Essa era uma pergunta inevitável... e se liga a diversos pontos:
i) a proposta de não seguir uma formatação convencional trazia justamente, para nós, uma liberdade de escolha quanto ao uso ou não de sotaque;
ii) como o objetivo é mais chamar a atenção para o relato do que para a forma, achamos que seria melhor falar com naturalidade mesmo, até para garantir maior comunicação;
iii) numa proposta (objetivo futuro) de teatro narrativo, o sotaque também não se coloca para nós como questão fundamental;
iv) optamos por não forçar um sotaque, pra evitar cair em situações como as de produções globais (com carioca-nordestino ou coisa parecida);
v) por fim, uma (eventual, futura) opção por interpretação com sotaque teria que vir após um longo trabalho de preparação, pra não ficar "mais ou menos" - precisaria de tempo de trabalho especificamente para atingir este objetivo;
3) "O impacto da fala de vocês no debate é maior do que o próprio trabalho em si..."
- Claro que isso não é algo confortável de se ouvir - mostra a necessidade de se trabalhar para levar simultaneamente maior naturalidade e vigor para a interpretação;
4) “O que significa essa leitura, fria (e talvez excessiva), de dados e notícias?”
- Essa foi uma primeira opção estética, apenas. A ideia era apresentar os dados de modo "jornalístico" buscando assim provocar uma eventual reação emocional no público, sem que os atores "guiassem" as pessoas para a indignação ou qualquer outro tipo de reação - mas essa foi uma colocação importantíssima, pois estávamos abertos a discutir outras possibilidades quanto a isto;
5) "Quem de fato está contando essa história?"
5) "Quem de fato está contando essa história?"
- Pergunta pertinente do Atul Trivedi, que também lançou luz sobre o trabalho. Apontava um rumo para os próximos passos: descobrir quem eram esses narradores.
Uma observação importante: mesmo num início de processo, logo após a estreia havia tantos agradecimentos a fazer que acho melhor começar a registrar "oficialmente" por aqui, ainda que já correndo o risco de esquecer alguns nomes:
- aos avaliadores e ao público da Mostra Joseense, pelos comentários;
- ao pessoal do Espaço Cultural Vicentina Aranha, pela cessão do espaço para reuniões e ensaior;
- ao Arievaldo e ao Klévisson, pelas dicas cordelísticas;
- ao Valdecy Alves, pelo material de estudo;
- ao Wangy Alves, pelo acolhimento;
- a todos, pela generosidade.
(continua)
(continua)
6 de julho de 2011
Diário de um processo (1) - Teatro-cordel
Escrevo aqui guiado pela vontade de compartilhar e deixar registrado um processo de trabalho que está sendo iniciado com a Cia Independente de Teatro. Meio difícil de definir - vamos chamar de "teatro-cordel". Está no início mas já se configura como um processo (internamente, ao menos) revelador e instigante. Nestes primeiros escritos vou tentar dar um panorama da história até agora; mais pra frente, a ideia é fazer uma espécie de diário de criação.
O ponto de partida
Na última semana de abril, recebi um telefonema do Osni (que eu não conhecia até então). Era sobre uma proposta de trabalho com literatura de cordel, queriam que eu visse e "desse uma força".
Fui. Num teatro escondido, quase abandonado, ouvi o trio (Silvia Galter e Mariana Alpino estavam com ele) recitar o poema "A Morte de Nanã", do Patativa do Assaré - que, diga-se de passagem, não é exatamente um cordelista, né Arievaldo? Na ocasião, entendi que a ideia era ajudar a organizar uma espécie de performance poética e musical que pudesse ser levada a diversos ambientes.
Dei uns toques quanto à leitura/declamação, os aspectos rítmicos, a divisão de frases, momentos de pausa etc. Foi um primeiro contato agradável.
Logo em seguida, fui viajar. Duas semanas depois, o poema estava melhor e começamos a trabalhar nas músicas que o grupo propunha apresentar. À medida que o repertório ia se definindo (a música do Almir Sater acabou saindo), clareava-se na gente a magnitude do tema central: a seca no Nordeste.
Tchekhov em BH
Tchekhov em BH
Em seguida, fui com Adriana, Bebel e amigos para BH. Acampamos na casa (melhor ainda: na biblioteca!) da Inês e do Eduardo (Grupo Galpão). Vimos a montagem do Galpão para Tio Vânia, do Tchekhov. Belíssimo trabalho! Algumas coisas ficaram "martelando" na minha cabeça... a principal: bons textos são atemporais. Porque trazem, ainda que naturalmente inseridas num determinado contexto histórico, questões grandes, fundamentais ainda hoje.
Falar de opressão bem que poderia ser algo ultrapassado... mas não é.
Carcará e as estatísticas
De volta a SJC, as reuniões semanais continuavam. Começamos a pesquisar mais sobre a Seca de 1932 no Ceará. Neste ponto, veio à tona uma referência básica e fundamental: Bethânia cantando Carcará, na década de 60, e "recitando" brilhantemente as estatísticas da migração. Aí surgiu uma ideia de pesquisa: vamos investigar as estatísticas ATUAIS do Nordeste brasileiro, em termos de problemas como o analfabetismo e a mortalidade infantil? Fomos. E aí começou a batalha da edição das notícias (e das estatísticas do IBGE), para que pudéssemos inserir no trabalho alguns destes resultados. Começava a ganhar corpo aí a vontade de falar da vida dos nossos irmãos nordestinos para o pessoal daqui.
(continua)
29 de junho de 2011
Teatro-cordel, uma trilha que se inicia
Estreou esta semana, dentro da Mostra Joseense de Cultura, o espetáculo "A Seca da Alma", da Cia Independente de Teatro. Trata-se da nossa incursão inicial no que estamos chamando de "teatro-cordel". Foi apenas uma primeira versão do trabalho, há muito o que melhorar... mas estamos felizes nessa estrada!
| "Não vai nos assustar / o bico do carcará" |
| Súplica |
| Notícias atuais, problemas seculares |
| O grupo, durante o debate no CET |
Agradeço aos queridos Anne, Mariana, Osni e Silvia pela parceria que tanto tem me inspirado. Vamos em frente, meu povo!
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