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2 de novembro de 2018

INSÔNIA


Quem me faz perder o sono
Não são os meus inimigos.
São os meus amigos.

Passo a noite insone
Preocupado, atônito
Pelos meus amigos.

Saio pelas ruas
Buscando esperança
Para meus amigos.

Madrugada. Frio.
Na esquina, o fuzil.
Cadê meus amigos?

Recuso-me a ir
Para outro país
Sem os meus amigos.

Minha casa é bunker,
Trincheira, aparelho
Para os meus amigos.

Jamais tranco a porta.
Pode ser que cheguem
À noite, os amigos.

Faremos silêncio
Nesse tempo tenso
De poucos amigos.

O café amargo.
O abraço largo.
Abraço de amigos.

O lirismo existe
E sei que resiste
Pelos meus amigos.

Ao Deus que nos vê
Peço apenas isso:
Ampare-os. Proteja-os.

Se eu for preso, faça
Com que esqueça o nome
Desses meus amigos.

Eu nada direi.
Que meu sangue aqueça
O dos meus amigos.

Leiam Brecht por mim
E ouçam muito Chico,
Queridos amigos.

Pratiquem Boal,
exercitem Freire,
Orgulhem-me, amigos.

Canções de protesto
Mas de Amor também.
Viva meus amigos!

O amanhã virá.
Que os encontre bem.
São os meus amigos.

(Paulo Roxo Barja)

29 de junho de 2014

plenitude


não se pode limitar a plenitude

a plenitude
não é o indivíduo
a plenitude
vive em toda parte

há plenitude
(paradoxo doido)
em cada ponto
- mas ela é o todo

P.R.Barja

11 de julho de 2013

Sementes


Às 6h15, acordo semeando sonhos, novas ilusões para os novos homens de cada dia. Sementes. Muitas não frutificarão, cortadas pela foice frequentemente violenta do cotidiano. Outras secarão, ou serão contaminadas por desilusão já nas primeiras 24h. Mas, aqui e ali, num canteiro despreocupado, algumas sementes vão vicejar. Superando a impossibilidade, vão se desenvolver. Dia a dia, silenciosamente no início, vão ganhar força. E há de nascer ao menos um poema. 
Um poema cuja simples vontade de nascer será mais bela que os próprios versos.

P.R.Barja

Soneto Camoneano (ou não)


"Paixão é fogo que arde sem se ver",
disse o grande poeta lusitano.
Mas ele cometeu algum engano,
percebam (sei que vão compreender):

Quem é - levante a mão - que nunca ardeu
no fogo da paixão com testemunhas?
Quem nunca suspirou, roeu as unhas
ou confessou amar? Sim, também eu!

Pois cada gesto assim é evidência
que todos podem ver, entre outras mil
- paixão é renda fina, transparência...

Pois é: Camões foi mestre na poesia,
porém, no Amor... não sei, mas desconfio
que ardeu também, em plena luz do dia!

P.R.Barja

6 de março de 2013

Para o MEVITEVENDO

(um presente modesto a quem tanto nos presenteia)

 
ME-VI-TE-VENDO no palco:
só não morri por um triz!
...
Suspense? Mais que cinema
- vivendo, me vi feliz.

Conheci o Senhor Z,
que se sentia tão só...
Nunca foi mau de verdade
- confesso: fiquei com dó.

Mas, quando a gente está triste
de não poder ver o sol,
a Vida vence, resiste
nas asas do rouxinol.

O canto da liberdade
nem todo mundo conhece.
E, só por não conhecer,
muita gente inda padece.

E tem que ser livre o canto,
para poder se expressar:
para manter seu encanto,
fazer sorrir e sonhar.

Pra quem é um pobre Fulano,
só tenho que agradecer:
depois que caiu o pano,
quis contar, quis escrever!

Que essa verdade prospere,
e esse trabalho também.
Que o rouxinol nos inspire,
agora e sempre. Amém!

 (Paulo R. Barja)