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5 de dezembro de 2017

Em Nome da Cidadania

(a propósito da apreciação de projeto referente à proposta de "escola sem partido" em São José dos Campos)

     Sou homem, branco, católico, classe média, heterossexual; nunca passei fome e sempre tive onde morar. Sou maioria? Não: combinadas, essas características formam um subgrupo da sociedade – o subgrupo dos privilegiados, ou seja, dos que acessam as melhores opções de trabalho, independentemente de mérito. Mas, nesse contexto de vantagem competitiva (na verdade, injustiça estrutural), por que tantos com perfil assim mostram tanta dificuldade em abrir espaço para os demais? Impor uma visão de mundo oriunda de privilégios seria uma injustiça flagrante.
     Sou homem – nessa condição, reconheço o machismo da sociedade atual; é um tipo de injustiça que deve envergonhar a todos e precisa ser superado, em nome de uma convivência mais harmoniosa.
     Sou branco – assim, preciso saber do ponto de vista dos negros, secularmente oprimidos no Brasil. Mais que falar, preciso ouvir, para que superemos as diferenças ainda existentes.
     Sou católico – por isso, é importante que minha filha tenha acesso à Umbanda, ao Espiritismo, ao Budismo e às outras religiões na escola, para aprender a respeitar a diversidade.
     Sou de classe média – preciso então estar atento às demandas sociais, para ajudar o país a superar a desigualdade.
     Sou heterossexual – mas seria um monstro se desrespeitasse o direito de todo e qualquer indivíduo para viver sua sexualidade da forma que lhe for mais conveniente.
    Ao condenar uma opção diferente das minhas, estaria violando a própria noção de humanidade. Como pai, devo respeitar a autoridade dos professores, que devem trabalhar com plena liberdade. Como professor, preciso garantir que alunos jamais reproduzam as injustiças de que estamos fartos. Como cidadão, exijo o direito à diversidade.
     Por isso, pela cidadania, sou contra a “escola sem partido”.

Paulo Roxo Barja

24 de agosto de 2014

As Duas Portas (crônica)


Outro dia fui levar minha filha a um encontro com colegas de escola. Não conhecia o endereço, mas imaginei que fosse na região “mais nobre” da cidade. Esse “mais nobre” vai assim mesmo, entre parênteses, por se tratar de expressão questionável, já que utilizada como eufemismo para outra expressão, menos elegante: “mais cara”.
Enfim: era lá mesmo. Estacionei e, ao me aproximar da entrada, a surpresa: havia duas rampas diferentes conduzindo a duas portas diferentes. Aliás, corrijo-me: não eram portas e sim pesados portões metálicos. No alto de cada um, inscrições que explicavam tudo: de um lado, “moradores”. Do outro, “visitantes”. Naturalmente, logo ficou claro para mim que a segunda palavra era outro eufemismo: por “visitantes”, entenda-se “todos os demais”, “os outros” (ou, em última análise e para lembrar de um episódio pessoal bastante chato, “forasteiros”).
Do lado de dentro, seguranças observavam atentamente os candidatos à entrada na fortaleza (juro que estou me segurando para não poluir o texto inteiro com aspas). Além dos seguranças, claro, as indefectíveis câmeras de vídeo. Até aí, vocês podem argumentar que são questões de segurança e tal.    Mas o problema todo é que as duas portas ficam exatamente uma ao lado da outra, sem nenhuma divisória, ou seja: a pessoa que subiu a rampa – seja da esquerda ou da direita – chegará às duas portas ao mesmo tempo. Pode-se inclusive imaginar facilmente a situação de um morador subindo por um lado e um visitante (seguro as aspas) de outro, chegando ambos, ao mesmo tempo, diante das mesmas portas.
Pergunto, do alto da minha humilde ignorância: em que medida a existência de duas portas “etiquetadas” (não aguentei e coloquei as aspas agora) garante a segurança de quem quer que seja?
Voltei para casa incomodado com aquilo. Para mim, só há uma explicação: não se trata de segurança e sim de discriminar, separar artificialmente uns dos outros. O caminho é praticamente o mesmo, porém “vocês entram por aqui; os demais, por ali”.
A situação nos remete aos aeroportos europeus, em que a entrada num país ocorre a partir de filas separadas para cidadãos europeus e “os outros”. Embora questionável, pode-se argumentar que neste caso trata-se de protocolos diferentes, envolvendo consulta a documentos diferentes – e que a entrada ocorre por guichês diferentes. No caso do prédio VIP (sem aspas), a cabine é única: as mesmas pessoas administram a entrada pelos dois portões. Além disso, nenhum documento foi pedido para mim: fui julgado, creio, simplesmente pela aparência.
O portão dos visitantes abriu-se para mim. Entrei e imediatamente andei um metro para o lado, de modo que um segundo depois de entrar eu já seguia a trilha exata dos moradores.
Confesso que muitas vezes não consigo compreender coisas simples e me sinto meio burro. Foi o que senti ali, ao estranhar algo que para a maioria das pessoas talvez já seja natural.
Meu questionamento: até que ponto é natural encarar este tipo de separação como algo natural?

P.R.Barja

23 de novembro de 2013

A MELHOR GOIABA

(ou "Desventuras da Elite Acadêmica Paulista em Cuba")

   Situação real vivida num congresso em Cuba, em maio de 2011: participando de um evento científico que envolvia pesquisadores do mundo inteiro, fomos convidados a conhecer fazendas participantes da rede de produção agrícola do governo cubano. Já havíamos visitado centros de pesquisa agropecuária na região de La Habana e estava claro que um dos focos mais importantes da pesquisa cubana era o manejo ecológico / controle biológico das pragas, praticamente zerando o uso de agrotóxicos e pesticidas. A única coisa chata é que, durante a visita, um pequeno grupo de brasileiros da “elite acadêmica paulista” parecia se divertir minimizando os resultados cubanos. Do alto de sua sabedoria ímpar, proferiam julgamentos como:

– Isso é extremamente precário, não funciona, que absurdo! Coisa de quem não tem dinheiro para investir!

   Chegando a uma das fazendas, os organizadores do evento distribuíram goiabas aos congressistas. “Produção local”, diziam, orgulhosos. Mais que depressa, os três ou quatro chatos paulistas começaram a tirar sarro:

– Deve estar cheio de bicho, com certeza tem bicho, cuidado! Procura, que tem bicho aí!

   Que vergonha que eu sentia de ter aquele infelizes como compatriotas: todo mundo saboreava as frutas e eles (3 ou 4 apenas) ali, examinando minuciosamente as goiabas.

   Num certo momento, um deles gritou, exultante:

– Não disse? Achei! Olha aqui, gente, TEM BICHO na goiaba cubana!

   O grupinho se amontoou em cima da goiaba para conferir... e aí rolou o vexame total. Muito sem jeito, um deles confessou:

– Xi, não é bicho não... é um fiapinho da goiaba mesmo...

   Olharam uns pros outros meio sem graça e acabaram comendo as goiabas em silêncio.
Paulo R. Barja

5 de abril de 2013

Reflexão


     Descobri (mero palpite)
     do preconceito a razão:
     é que "saber" tem limite,
     porém "ignorância"... não!

                                                                               (P.R.Barja)

29 de março de 2013

JUDAS (in)FELICIANO

Peço a Deus que nos acuda
contra o Judas deste ano...
Todos sabem de quem falo:
é do (in)Feliciano!
Judas! Fala bem de Deus
mas esquece os mandamentos:
não respeita, ofende o próximo
com fraqueza de argumentos
Seu discurso cavernoso
demonstrando preconceito
enche a gente até de nojo:
vê lá se isso tá direito?
Sua raiva atinge a todos!
Seja esse o nosso plano:
quem quiser malhar o Judas,
malhe o (in)Feliciano!
P.R.Barja

19 de junho de 2012

Poesia-notícia


(poema de abertura do Cordel da Cidadania, preparado no período jun/2011 - jun/2012)


Faço poesia-notícia
sobre as coisas da cidade
pra discutir as questões
da nossa sociedade,
pois todo artista engajado
tem que estar sintonizado
com sua comunidade.

Como o galo do poema
que tece a própria manhã,
a partir da nossa história
surge um novelo de lã
que se desdobra em poesia,
falando do dia-a-dia
para a luta não ser vã.

Não é poesia romântica,
mas alimenta a milícia
sem insulto nem ofensa,
sem ter papel de polícia;
sem partido, mas política,
nascida de visão crítica
é a poesia-notícia.
P.R.Barja

20 de novembro de 2011

Consciência Negra

   A data se justifica: ainda há muito preconceito a vencer, inclusive aqui no Vale do Paraíba. E, aqui, além do preconceito racial, há o preconceito "geográfico": os nordestinos, que representam mais de 15% da população joseense (dados mais recentes do IBGE) ainda são discriminados.
   Defendamos a ideia de "Uma só raça" e também a de "UM SÓ PAÍS"!


20 de setembro de 2011

PRETO NO BRANCO (e não o contrário)

Vejam a propaganda da Caixa, mostrando Machado de Assis... branco!


Não dá pra deixar sem resposta uma dessas. Então... aqui vai uma resposta:

MACHADO ERRADO
(Paulo R. Barja)

A propaganda da Caixa
errou com espalhafato:
Machado não era branco,
nasceu e morreu mulato!

Cortaram a machadadas
a cor que era do Machado;
na Caixa, virou fantasma:
ficou branco e assustado!

Não pode passar em branco
um erro tão grave assim:
se com o Machado erraram,
o que vão fazer de mim?

Pra que ser alienista?
Melhor é que seja franco:
se não quiserem mulato,
não entro mais nesse banco!



Segue o clipe da marchinha "Machado Errado", disponível no YouTube:

2 de julho de 2011

Abaixo o preconceito!

     Hoje recebi um email extremamente preconceituoso - desses que não se pode deixar sem resposta. A pessoa conclama os seus leitores a combater o movimento gay... pode isso? E gasta parágrafos com afirmações "pseudo-cristãs" (sim, porque sou cristão e não me reconheço ali de modo algum).
     Respondo aqui como cristão que sou. Mas deixo claro que respeito seguidores de todas as religiões, sem distinção. São todos meus irmãos na humanidade (por sinal, impossível não lembrar do Lennon cantando "Imagine there´s no heaven..." - o cara sabia das coisas).
     Acho INACEITÁVEL difundir o preconceito através de emails covardes, que distorcem as informações. Devemos lutar sim, mas pela LIBERDADE de afeto e de expressão. Sou cristão e apoio totalmente o respeito INCONDICIONAL ao meu semelhante, seja ele/ela heterossexual ou homossexual. 
     Não faz muito tempo e o mundo condenava os negros. Foi uma batalha de muito tempo para tentar vencer esse preconceito. Cristão não pode distinguir o próximo, seu semelhante, pela etnia. 
     Não faz muito tempo e o mundo negava os direitos das mulheres. Foi preciso muita luta para fazer com que se reconhecesse os direitos femininos. 
     O embate "gays x cristãos" é totalmente falso, pois NÃO existe real oposição entre uns e outros. 
     As pessoas precisam aprender a conviver com o diferente. Desde cedo. 
     O diferente não é pior, não é melhor: é diferente. Termino dizendo, como a pessoa que me mandou o email preconceituoso, "passem adiante". Mas, ao contrário dessa pessoa, não acho que "Deus vai à nossa frente". Não! Ele está no meio de nós.

14 de abril de 2011

BRASIL: unidade na multiplicidade

Atenção: recebi há pouco um email argumentando que o Sul e o Sudeste arrecadam mais que o restante do Brasil e (agora vem a conclusão desastrosa) lamentando que "sustentamos o país, mas os nordestinos/nortistas elegem o presidente". É um raciocínio absolutamente preconceituoso esse! Inadmissível! Segue a resposta que enviei:

"Prezados, a meu ver essa é uma simplificação que ignora a complexidade do Brasil. Pior que isso: traz intrínseca (e de forma explícita) uma associação entre $$$ e votos que é no mínimo inadequada e em última análise até mesmo perigosa para a democracia. Prosseguindo no argumento, qual seria o próximo passo? Dizer que voto de paulista vale mais? Ou que SP deve declarar independência?"

Vamos nos manifestar CONTRA esse tipo de atitude separatista que em nada colabora para a união do nosso país. Um país complexo mas ao mesmo tempo riquíssimo, como já dizia Darci Ribeiro (desde sempre) e que agora os exames de DNA comprovam (notícia recente veiculada pela FAPESP): a semelhança genética entre brasileiros de diferentes regiões é marcante!

Somos um povo único: há unidade na diferença! E isso é pra se comemorar, nunca lamentar.