Mostrando postagens com marcador artista. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artista. Mostrar todas as postagens

25 de janeiro de 2017

Arte e Estado

(Versão condensada e comentada por Paulo Barja para o texto “Por qual dinheiro? O artista diante do poder”, de Andrzej Wajda, in: WAJDA, A. Um Cinema Chamado Desejo. Petrópolis: Campus, 1989)

   Uma vez que boa parte da produção artística é, direta ou indiretamente, financiada pelo Estado, colocam-se diante de nós algumas perguntas. A principal delas: quem, afinal, é o responsável pela obra produzida? Não importa quem financia: em última análise, o responsável é sempre o artista – e é assim que tem que ser.
   Para o Congresso da Cultura Polonesa de 1981, Andrzej Wajda preparou o texto “O mecenato do Estado e a liberdade do artista”, que em linhas gerais diz o seguinte:

   (...) O mecenato do Estado tem funções diferentes e uma ingerência diferente nos diferentes domínios das artes. Há domínios em que a ingerência do Estado é limitada ou pode até ser ignorada. Assim, pode-se pensar de graça. A escrita de um romance custa uma soma irrisória. (...) Da mesma forma, pode-se, por uma soma um pouco maior, produzir obras de artes plásticas que sejam belas, importantes, duradouras. O cinema, infelizmente, qualquer que seja seu tema, precisa de dinheiro, de milhões (vale o mesmo para uma grande orquestra ou para a produção de um grande musical).

   Pois bem: o Estado destinou do seu Tesouro uma soma milionária para meus filmes. Ora, de acordo com minha consciência de artista, não contraí por isso nenhuma obrigação ideológica para com esse mecenas. Isso significa que, usando dinheiro público para minha produção artística, enganei o Estado? Não, porque tomei dinheiro público e o utilizei para o bem público. (...) A existência de público para o trabalho sustenta minha convicção de que aquela arte era necessária (e não um luxo ou uma extravagância).

   Podem me responder que muitas obras de arte ruins mobilizam grande público. Sim, mas é certo que não haveria utilidade pública nenhuma em salas de espetáculo onde se sentasse sozinho e contente consigo mesmo apenas o agente financiador - o Estado (pensem: qual a utilidade pública de salas de espetáculo vazias? Isso é tão absurdo quanto limitar o acesso de alunos a uma biblioteca escolar “para evitar bagunça”).

   Eu recebia, assim, o dinheiro do Estado mecenas sentindo-me livre, porque jamais considerei que se tratasse de meu dinheiro. Sempre me esforcei para que o dinheiro retornasse, de algum modo, ao lugar de onde fora emprestado: o Tesouro nacional (percebam a ética do processo: a produção não se fez pelo dinheiro! O dinheiro é que foi disponibilizado para a produção. Isso faz toda a diferença).
Em países ocidentais, é considerado produtor e mesmo, em certa medida, criador de uma obra de arte aquele que consegue reunir o capital necessário para sua produção. (...) Contudo, aprendi muito jovem que o valor supremo é o trabalho. Assim, o criador não pode ser outro senão quem contribui com mais trabalho: a equipe e a pessoa que a dirige. Nunca me preocupei muito com a opinião das autoridades, sua reserva ou mesmo oposição a alguns de meus projetos. Minha verdadeira preocupação era com o público, sobretudo “se eu conseguiria me comunicar com ele” (Wajda defende que o financiador não tenha ingerência sobre o trabalho do artista. Faço uma analogia futebolística: a Nike não poderia influenciar na escalação da seleção brasileira. Por sinal, seria fantástico aplicar isso à política: o financiador de campanha não poderia ter ingerência sobre o trabalho do político, que deveria sempre representar os interesses do povo. Sabemos que geralmente não é bem o que acontece).

   (...) Por que o artista deve ser livre? Para poder penetrar no espírito das pessoas e expressar suas inquietudes, esperanças e ilusões! O Estado não saberia fazer isso em meu lugar. Por que um funcionário do Estado conheceria esse segredo melhor do que o artista? Em virtude de sua função? Acho que a paz silenciosa dos escritórios oficiais e roteiros longamente debatidos e preparados podem chegar a uma revelação... Na maioria das vezes, lengalengas dessa ordem dão lugar a obras indigestas, sem alma nem rosto (este é nosso argumento para defender que a gestão cultural seja exercida por gente próxima à área e aberta ao diálogo, e não entregue a “qualquer bom administrador, de preferência com formação jurídica”, como vemos ocorrer com triste frequência).

   Somente o artista pode responder pelo que diz ao público. Empregando sua liberdade, o artista deve, às vezes, fazer seu público compreender o que não teria condições de perceber sem a obra de arte. Ele tem necessidade de uma liberdade dupla: em relação ao poder e em relação ao público. Apenas os maiores conseguem atingir essa liberdade e merecem nosso reconhecimento. Quanto ao mecenas, que ele se lembre: a Arte só se desenvolve à medida que o povo consegue impor ao poder importantes concessões.

*   *   *

Uma colocação anticlímax ao final deste texto: o discurso original de Wajda nunca foi proferido, pois na ocasião o governo polonês cancelou o congresso. É triste, mas parece haver analogia entre esse fato e diversas situações vividas no Brasil. Diante do fechamento de oficinas culturais e dos repetidos cortes de verbas públicas para a cultura, perguntamos: será que os cortes são uma punição imposta aos artistas pelo Estado, que deseja controlar a criação artística e não consegue entender ou aceitar a liberdade criativa? Reflitamos.

17 de novembro de 2014

RESPOSTA-MANIFESTO

EM RESPOSTA A UMA PROPOSTA FEITA A ARTISTAS LOCAIS
“Apresente-se de graça em nossa sede, fazemos divulgação”

      Considero absurdo e mesmo constrangedor o convite feito, uma vez que artistas precisam ser pagos pela Arte que fazem, até mesmo para manter a Saúde. Creio que isso seja simples de entender, principalmente por quem se diz disposto a trabalhar "pela humanização do atendimento". Pois bem: quando um artista é "convidado a trabalhar de graça" numa empresa que tem totais condições de pagar pelos serviços prestados, isso na verdade soa como "desumanização", na medida em que sucateia o valor do artista enquanto ser humano. 

      Esclareço que, antes de redigir esta pequena resposta, entrei em contato com diversos artistas, inclusive via redes sociais, e o entendimento geral foi este, o que motivou o envio da resposta (fiz essa consulta prévia a colegas para não incorrer no erro de um julgamento precipitado e descolado da realidade). 

      Informo adicionalmente que, em outros países onde tenho amigos artistas, há movimentos de conscientização junto a artistas para que NÃO aceitem este tipo de proposta. A motivação para o movimento coletivo de recusa é a seguinte: enquanto alguns têm outras fontes de renda e poderiam até se dar ao luxo de "trabalhar de graça", outros dependem exclusivamente do que recebem pelo seu trabalho artístico para sobreviver. 

      Entendo que artistas precisam ser bem pagos por quem pode pagar justamente para que possam se dedicar, em outros momentos, a apresentações beneficentes e/ou voluntárias junto a instituições que dependam exclusivamente de esforços coletivos – e, estes sim, humanitários – para subsistência. 

      No entanto, creio que nossa conduta diante desse tipo de situação deve ser fruto de amadurecimento coletivo e troca de ideias (como tudo, sempre). Assim, tomo a liberdade de sugerir uma contraproposta. Tenho quase certeza de que artistas da cidade topariam fazer apresentações por valores, digamos, a partir de R$400 por apresentação (dependendo, naturalmente, da configuração artística - solo ou grupo). Em troca, divulgariam o local e os serviços da empresa contratante. Creio que isso traria transparência ao relacionamento e, sem dúvida, benefícios à imagem da empresa. 

      Uma proposta alternativa (talvez não para esta empresa, mas para outras, mais humildes) seria, ainda, que a empresa prestasse serviços gratuitos aos artistas e, a cada valor X (a definir), o artista fizesse uma apresentação em contrapartida. 

      Para citar um caso recente que mobilizou a sociedade brasileira: nenhum de nós é Deus. Nenhum de nós está acima do outro. Todos precisamos batalhar (com o suor de cada dia) pelo alimento, moradia, saúde e – sempre – respeito.

      Sigamos na trilha da construção de um novo país a cada dia, em cada atitude. 

      Saudações,
P. R. Barja

6 de agosto de 2012

ORAÇÃO DO ARTISTA


Oh Senhor,
fazei com que os espetáculos artísticos grandiosos do século XXI
deixem de ser mero Shopping Center de técnicas;
oh Senhor,
que a contratação de 40 artistas para fazer um uníssono
deixe de ser critério para avaliar um país (ou um produtor) como maravilhoso;
oh Senhor,
fazei com que a força da grana faça muito mais do que erguer e destruir coisas belas;
oh Senhor,
livrai-nos da praga das homenagens oportunistas em datas comemorativas;
que o artista faça de seu trabalho uma permanente homenagem a todos aqueles que o inspiram.
oh Senhor, preservai:
a saúde de Luís Alberto de ABREU,
a simplicidade de ADÉLIA Prado,
a inteireza de BETHÂNIA,
a poética política de BOAL,
a delicadeza de CHICO Buarque,
a ousadia alegre de NEYMAR,
a força de PINA Bausch,
a essência de SHAKESPEARE
e a produtividade de Woody Allen, mesmo em seus "filmes menores",
AMÉM.
P.R.Barja