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12 de março de 2021

"Os tempos... eles estão mudando" (uma versão da letra de Dylan)

 Encontrei a desculpa ideal pra seguir burilando versões em português de letras do Bob Dylan: "ah, estou estudando um prêmio Nobel", haha! Bom, aí vai:

OS TEMPOS... ELES ESTÃO MUDANDO
Bob Dylan
/ versão em português: Paulo Barja


Junte seu pessoal, onde quer que eles estejam
Admita: as águas subiram e tudo irão inundar
Aceite: logo você estará encharcado até os ossos
Por isso, pra ganhar tempo, comece logo a nadar
Ou vai afundar como pedra:
os tempos estão mudando

Venham, cronistas e críticos, vocês, profetas da pena
Mantenham os olhos abertos, talvez não haja outra chance
Não sejam tão apressados: a roda ainda está girando
Não temos certeza ainda sobre qual o último lance.
Aquele que havia perdido, mais tarde vencerá:
os tempos estão mudando

Senadores, congressistas, escutem logo o chamado
Não se aglomerem na porta, não entupam o corredor
Pode até se machucar quem tentar nos impedir
A batalha é aqui fora, ouçam: é assustador
Podem trincar as janelas, podem ruir as paredes:
os tempos estão mudando

Mães e pais de toda a Terra, venham, mas não critiquem
O que está na sua frente e vocês não compreendem:
Suas filhas e seus filhos não seguem mais seus comandos
A estrada trilhada outrora já está apodrecendo
Se não podem ajudar, fiquem no acostamento:
os tempos estão mudando

A linha já foi traçada e a maldição foi lançada
Parece arrastado agora; mais tarde será veloz
Tal como o presente agora mais tarde será passado
A ordem rapidamente se esvai no meio de nós
Quem está no topo agora será o último depois:
os tempos estão mudando

19 de maio de 2015

Caetano e "Irene"

Sobre Caetano e a história da canção “IRENE”, 1968/69



Sempre achei que IRENE fosse uma das canções leves do Caetano. Não é...

Após ser eliminado do Festival de Música Popular Brasileira por conta de seu discurso em É PROIBIDO PROIBIR (em solidariedade a Gil, também desclassificado), a dupla foi presa e teve os cabelos raspados. Foi na cadeia que Caetano compôs os versos de IRENE. Essa informação é essencial para que se compreenda a letra da canção:


“Eu quero ir, minha gente
Eu não sou daqui
Eu não tenho nada...”


O disco com a canção IRENE, lançado por Caetano em 1969, tem outra peculiaridade: ele NÃO aparece na capa. Ainda estava de cabelo curto... Somente em seu disco seguinte (o “álbum inglês”), Caetano volta a aparecer na capa. A foto é tristíssima: um baiano no frio londrino... mas ele já estava de cabelo comprido.

P.R.Barja

31 de janeiro de 2014

A POESIA NA CANÇÃO (ou “Há Poesia na Canção ?”)

(artigo publicado originalmente na edição de Março/2000 da Revista SINPRO CULTURA)

A poesia e a música têm andado de mãos dadas nos últimos 1000 anos – embora nos dias de hoje nem sempre seja fácil encontrar provas disso. Através dos meios de comunicação, temos sido bombardeados com produtos que, com alguma boa vontade, podem até ser classificados como música, mas certamente não podem ser confundidos com poesia.

Na Idade Média, havia compositores empenhados justamente em buscar a fusão perfeita entre poesia e música. Eram os trovadores, particularmente numerosos na França (a palavra trovador vem da língua francesa e significa “aquele que encontra”). Por exigir um elevado grau de instrução, o ofício dos trovadores era uma alquimia reservada a poucos – a grande maioria deles pertencia à nobreza.

Com sua poesia refinada, pode-se dizer que os trovadores criaram o que hoje se conhece como “canção de amor”. Seus poemas cantados também são um relato fascinante da vida na Idade Média. Além de cantar o amor, os trovadores se exercitavam na crítica de costumes (como nas peças satíricas do manuscrito Carmina Burana) e também se dedicavam à fé (as Cantigas de Santa Maria, conjunto de mais de 400 canções compostas no reinado de Alfonso X, relatam milagres atribuídos à Virgem, num pioneiro uso da música como marketing religioso).

Com o passar dos séculos, a música continuou presente na pena de escritores como Shakespeare, que compunha letras de canções para suas peças. Outros nomes importantes da literatura universal, como Garcia Lorca e Mário de Andrade, chamaram a atenção para a rica poesia encontrada nos cantos folclóricos de seus países. Assim, uma coisa parece certa: poetas gostam de música.

A ligação entre os poetas e a música pode ser comprovada pela frequência com que muitos chegam a lançar gravações recitando ou mesmo cantando acompanhados por músicos. É curioso, mas nem sempre funciona. Nesses casos, melhor que ouvir os autores é procurar gravações dos poemas declamados por atores, normalmente mais experientes em evidenciar a música interior de cada poema.

Os músicos também gostam de poesia. Maria Bethânia, aquela que talvez seja a maior intérprete da música popular brasileira, sempre incluiu em seus shows trechos de poemas (especialmente de Fernando Pessoa). Artistas como Bethânia dão valor literário ao canto: compreendem que música e poesia são formas complementares para expressar nossos sonhos e dramas.

No Brasil, talvez o maior caso de amor entre um poeta e a musa música seja o de Vinícius de Moraes. Vinícius, que teve o mestre Tom Jobim como parceiro, chegou inclusive a ser considerado um dos “músicos do século” em concurso promovido por uma revista brasileira no ano passado. Talvez esse tipo de confusão (Vinícius não era músico !) sirva para comprovar a simbiose às vezes conseguida entre música e poesia.

O fato é que uma característica fundamental da poesia é apresentar um ritmo próprio, uma cadência que pode ser percebida naturalmente quando a obra é lida em voz alta. Poesia tem tudo a ver com sonoridade. Em outras palavras, um poema sempre contém música. O inverso não é necessariamente verdadeiro: há mesmo canções que são monumentos de grande beleza sonora, embora compostas a partir de poesia pobre. Por outro lado, compor música a partir de boa poesia também não garante a qualidade da canção. Precisamos, aqui, fazer uma distinção entre a boa letra de música e a poesia na música. Claro, é uma distinção subjetiva; será que poderíamos estabelecer um critério para encontrar essa diferença? Proponho um exercício simples: recitar a letra da música. Se ainda houver ritmo, se a letra não perde a beleza e o interesse sem o auxílio da melodia, então estamos falando de poesia.

Não há forma ou movimento musical  privilegiado para a difusão da poesia: ela pode aparecer tanto nas canções de Kurt Weil quanto em rocks vigorosos como os cantados por Morrisey, o bardo inglês que liderou o grupo The Smiths nos anos oitenta, passando pelas sagas narrativas de Bob Dylan (agora Nobel, mas poeta desde sempre). Em Portugal, as cantoras Eugénia Melo e Castro e Mísia se empenham em resgatar a união entre poesia e música. A primeira chegou a gravar um CD dedicado à obra de Vinícius de Moraes, enquanto Mísia colocou música em poemas de mestres como Drummond e Fernando Pessoa, entre outros. No Brasil, a poesia pantaneira de Manoel de Barros já virou música nas vozes de Tetê Espíndola e Cátia de França.

Um belo exemplo de união entre poesia e música pode ser encontrado no disco sugestivamente o Zona de Fronteira, do trio João Bosco, Waly Salomão e Antônio Cícero. Também Adriana Calcanhoto já compôs a partir de poemas de autores variados. O grupo Secos & Molhados, porém, merece destaque: nem todos sabem que vários de seus sucessos eram “parcerias” com poetas famosos, de Manuel Bandeira a Oswald de Andrade.

Ainda hoje, podemos encontrar compositores que trabalham com extremo refinamento tanto a poesia quanto a música, na trilha dos trovadores medievais. Nesse sentido, há trinta anos Caetano Veloso é provavelmente o maior trovador brasileiro. Reconhecido como cantor por muitos, conhece poesia como poucos. Chico Buarque também domina a arte trovadoresca de combinar som e sentido, canto e poesia. Quanto aos compositores da nova geração, temos hoje Zeca Baleiro, Chico César e tantos outros que, se não são poetas, ao menos são bons letristas – o que já não é pouco. E temos Arnaldo Antunes, verdadeiro poeta pop. É, fazendo as contas, até que há bastante poesia na canção popular brasileira. Ainda bem.

- Paulo Barja

9 de dezembro de 2013

Valsa Antiga (Valsa n.1)

Composta aos 17 anos, a "Valsa Antiga" foi a primeira de várias valsas que fiz (sempre adorei valsa ao piano). Mas ficou esquecida por 25 anos... no dia em que lembrei da existência da valsa, corri pro piano e toquei antes que esquecesse de novo. Taí:


VALSA ANTIGA (Valsa n.1)

A música nova 
que eu canto agora
já não é mais nova:
perde nesse instante
o ritmo inconstante
- a última prova
de que ela era nova.

Brisa amanhecida
logo adormecida
ao vento entardece;
no silêncio, cresce
a nuvem de angústia
por não conseguir
criar nada novo.

As palavras ditas
e as notas cantadas
são nuas e mudas,
não dizem mais nada...
e o verso perfeito
torna-se desfeito
pela ação do tempo

... e os três tempos tristes
desse meu compasso
despretensioso
são meus inimigos:
ex-música nova, 
agora uma valsa
num álbum antigo.

Paulo R. Barja

31 de agosto de 2013

Fácil assim

(mais um poema-letra-de-música-com-cara-de-coisa-do-Chico)


“sim”,
foi o que eu disse por fim
quando sorriste pra mim
à distância, ao telefone
e passei a noite insone
bruma e sal

não
não te livrarás de mim
não é tão fácil assim
sinto que é mesmo verdade
e não falo por vaidade
é real

vem
quero ser onda do mar
não há o que perdoar
quero mais agradecer
pelo sol que foi nascer
tarde enfim

vai,
delicadeza, criar
versos que eu possa levar
de presente na bandeja
pra dizeres “que assim seja”
seja assim

Paulo R. Barja

7 de julho de 2013

Amor (poema-canção)


Um dia
meu pai
mandou-me uma carta
e ali 
aprendi:
AMAR dói.

Há anos
carrego
profunda certeza
disso
que disse
o herói.

Também,
porém,
sabemos da força
que faz
amar
mais e mais:

quem nega
o Amor
por medo da dor
não pode
viver 
em paz.


(P.R.Barja)

19 de maio de 2013

NOTAÇÃO MUSICAL

(possível letra de música)

P  e  s  s  o  a  s         l  e  v  e  s
s ã o       S E M I B R E V E S :
s  e  m  p  r  e       c  a  l  m  a  s
n  a    c  l  a  v  e    d  e    s  o  l
o   u      n   a      n   e   v   e  .  .  .
 
Pessoas muito muito muito muito mais confusas
são semifusas  sim semifusas  são semifusas  sempre semifusas
juntam-se na partitura, exército espremido
voo do besouro percutindo em nosso ouvido
 
"Mas como as fusas são atrapalhadas!
Se mínimas virassem e outras notas esperassem..."
- comentam as colcheias espantadas
a cada dupla de semicolcheias que ali passa
 
Mas eu não dou a mínima
pra essa notação:
você traz harmonia
ao meu diapasão!?
 
Estou certo, certíssimo
de que, na minha pauta,
há um canto fortíssimo
quando você não falta!
 
Saiamos do compasso;
fujamos dos algozes...
o que soa no espaço
é "fuga a duas vozes"!

Poeta não abusa:
permita que eu te enleve!
Não fique semifusa:
façamos  S E M I B R E V E . . .
 
(P. R. Barja)
 

LÁ E CÁ

(uma possível letra de música)
 
sim, eu tenho andado estrábico:
quem me viu e quem me vê!
dispensa algarismo arábico
a explicação do porquê:
 
um olho meu segue a estrada
o outro segue você
um olha a noite estrelada
o outro vê estrela em você
um faz a escolha acertada
o outro escolhe você
um gosta da madrugada
o outro gosta de você
 
um olho sai pelas ruas
o outro não sai de você
um vagueia na calçada
o outro vaga por você
um olho é pura risada
o outro chora por você
um não vê mais quase nada
o outro enxerga você
 
fique bem na minha frente:
cara a cara, eu e você.
percebeu que é diferente?
feche os olhos. você vê?
 
(P.R.Barja)
 

22 de abril de 2013

Pelas tramas dessa vida

(adaptação de canção tradicional colombiana)

Eu canto porque desejo,
eu canto porque preciso:
o som se transforma em beijo
quando encontra o seu sorriso.
 
Saudade, meu bem, é fogo:
de longe, não vai passar.
Preciso te ver de novo:
só assim vou melhorar.
 
Às dez me bateu o sono,
às onze foi que eu dormi;
às duas da madrugada,
acordei pensando em ti!
 
Se a gente está com vontade
mas não pode se encontrar,
é só mandar pelo vento,
que o carinho vai chegar.
 
Cantando, mando um suspiro
com um abraço amarrado:
receba com muito amor,
desamarre com cuidado.
 
Se eu digo que já vou indo,
não pense que é despedida:
estamos pra sempre unidos
pelas tramas dessa vida.
 
Estamos pra sempre unidos
pelas tramas dessa vida.
(Paulo Barja)
 

14 de dezembro de 2012

A VIDA É MAIS QUE NOVELA



A vida é mais que novela,
mais até do que cinema:
tem suspense, amor, paixão,
reviravolta e dilema

Ninguém é coadjuvante:
é tudo ator principal
que segue a cena adiante
sem saber qual o final

E nessa história maluca,
perdido entre o chão e o céu,
algo aqui me funde a cuca:
qual será o meu papel?

P.R.Barja

19 de março de 2012

Dizem que Dizem (Pedro Aznar, versão P.Barja)

(Segue abaixo a versão em português para a canção "Dicen que Dicen", de Pedro Aznar - feita direto aqui neste espaço, enquanto ouço repetidamente a canção e fico chocado com sua precisão para os dias atuais, nesta cidade onde ser pobre é crime. Mais pra frente, vou tentar registrar em formato piano-e-voz)


Dizem que dizem que andam dizendo
Tantas palavras só por falar
Como um eclipse para a verdade
Ocultar

"Livre" é ser dono do seu futuro
Para sonhar e realizar
Não é viver solto pelo mundo
Sem lugar

Chama-se "Império" no mundo antigo
Hoje se diz "Globalização"
E é para os países pequenos
Tubarão

Dizem que dizem que dizem que dizem
Dizem que dizem mal

Quando sonhamos um mundo unido
Nunca pensamos nesta prisão
São dez mil olhos guardando o ninho
De um falcão

Fogo é fogo, e sempre queima
Guerra não é paz, nem inferno, céu
Como teremos real justiça
Sob um véu?

 Dizem que dizem que dizem que dizem
Dizem que dizem mal

Hoje as palavras confundem tudo
Mostram 50 e escondem 100
Tanto poder na mão de tão poucos
Não vai bem

Tempo é dinheiro e dinheiro é tudo
Tudo tem preço e não tem valor
Homem há tempos se fez do barro
Por amor

Dizem que dizem que andam dizendo
Tantas palavras só por falar
Como um eclipse para a verdade
Ocultar

18 de fevereiro de 2012

Carnaval - I


De longe vem ela:
De azul ela vem
E traz purpurina
Na pele também

Vem junto Cupido
Que vai, sorrateiro,
Jogar serpentina
Num tiro certeiro

Acerta no Bobo
Pregando-lhe a peça:
O olhar ilumina
E a festa começa

- Ó Bobo, cuidado!
Mas não tem mais jeito:
Sereia menina
Fisgou o sujeito

A dona do baile
Só quer diversão:
Amar Colombina
Não dá certo não

Mas que importa isso?
Foi lindo, valeu
E a Vida me ensina:
O Bobo sou eu
 

P.R.Barja

9 de novembro de 2011

Dois toques

(este poema - postagem de número 200 no blog - vai como homenagem ao querido Neymar, pelo compromisso com a alegria de jogar bola, e com um abraço ao Julinho Bittencourt, pela parceria que apenas se inicia: vamos tocando!)


Manda
        Passa
                Corta
                        Limpa
Cruza
        Chuta
                Dribla
                        Finta

Não se intimida,
   mas não entra na catimba:
sai do zagueiro,
   enche o peito, mira e... pimba!
E comemora,
   no campo de terra e lama,
como se fosse um verdadeiro REI da grama

Corre
        Pára
                Olha
                        Lança
Solta
        Marca
                Vira
                        Dança!


obs.: poema originalmente publicado na Revista Itaú Cultural