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19 de maio de 2020

Um Simples Galpão (sobre o Galpão Estação Cidadania)


daqui a 80 anos
nas ruínas de São José
ninguém saberá daquela via
tragada pelo rio
nem daquela outra
em desuso, abandonada
disso tudo
 afinal
  restará
   quase nada
e quem se lembrará
daquela (in)vencível ponte
que tanto enfeiava o horizonte?

mas o rio
tenho esperança
será testemunha
viva

daqui a 80 anos
alguém achará estranho
encontrar as fundações
do projeto equivocado
que começou
a ser erguido
do lado errado

bem perto dali
a árvore mais antiga
ainda oferecerá
sombra amiga

daqui a 80 anos
quem se lembrará
do pleito que elegeu
um bando de vereador
e um (in)certo prefeito...
qual o nome do sujeito?
tento lembrar
não há jeito
- bem feito.

mas haverá
ainda e sempre
o som de uma flauta
e sua melodia incauta
que fará renascer eterna dança
nos pés espevitados de criança
haverá
ainda e sempre
um sorriso bordado em cores vivas
a força da mais bela narrativa

e cada um de nós
que por lá tiver passado
já terá deixado aos filhos
e aos filhos dos filhos
o caminho dos trilhos
a arte como oração
a artesania
daquele simples Galpão
Estação
Cidadania

(Paulo Roxo Barja, para todos os artistas do eterno Galpão Estação Cidadania)













Todas essas fotos ilustram apenas alguns dos tantos momentos de Cultura e Arte proporcionados pelos atuantes artistas e parceiros do Galpão Estação Cidadania - que foi desocupado à força e destruído pelo poder público apenas fisicamente, mas permanece em nós como símbolo de espaço livre para o exercício da cidadania plena.
Saibamos seguir em frente nessa trilha, sempre!

14 de maio de 2020

Matéria - Subnotificação da pandemia em São José dos Campos (com áudio)

O link a seguir apresenta matéria publicada no site da Rádio Piratininga após entrevista/bate papo realizado em 13 de maio na rádio. A matéria apresenta parte das minhas declarações, em áudio com o que consideraram os principais trechos:

Matéria sobre isolamento social - jornal "O Vale"



No link abaixo, matéria do jornal "O Vale" incluindo um gráfico e comentários nossos sobre a taxa de isolamento em função do dia da semana:

3 de janeiro de 2019

RIR, A SÉRIO


     Lembro que uma estratégia frequente dos coxinhas era ridicularizar Dilma. Porém as falas dos "empoÇados" são muito mais propensas a revelar o ridículo que neles de fato habita. Nesse contexto, vejo com bons olhos uma postura crítica que alie lirismo (canalhas odeiam poesia) a bom humor (para sobrevivência da nossa oprimida alma). Além de tudo, soa como cobrança de coerência: riram antes, por que não agora? Por outro lado, se os ofendidos não entenderem, "tant mieux", que a prática  nos anime e aglutine e pronto.

     Percebo como real e grave o perigo da apatia da esquerda desacorçoada. Se o humor servir para acordar, já vale e muito.

     Tenho feito meus versinhos satíricos desde as primeiras horas do desgoverno. Ainda é cedo para avaliar a receptividade. Dizem que passarinho não esmorece de bicar cobra, mesmo sabendo-lhe venenosa. Sigo nas bicadinhas, ajudam inclusive a manter a forma.

P.R.Barja

27 de agosto de 2018

A TV e o recorte da realidade (apenas mais um exemplo)

     Almoço num restaurante self service do centro da cidade. Como em quase todo estabelecimento do tipo, há uma TV que fica ligada e, na hora do almoço, transmite um noticiário local.
     Num certo momento do noticiário, surge o velho truque: a tradicional matéria emotiva sobre uma pessoa da comunidade (normalmente criança ou idoso) que conseguiu uma vitória pessoal, uma conquista importante. Nem é preciso ver toda a reportagem para entender a motivação: manter motivados, dóceis e "operantes" os oprimidos (que veem o jornal nos self services do centro da cidade).
     Na matéria de hoje, conta-se a história do "seu Durval", que se aposentou pela EMBRAER e virou, vejam que lindo, um artista: pinta quadros sobre a natureza, com flores e pássaros sempre bem coloridos. "Seu Durval" explica que somente depois da aposentadoria conseguiu se dedicar a esta sua paixão, e agora faz exposições de suas obras em cidades da região.
     Os quadros são bem bonitos. O tom da matéria é de felicidade serena.

     Mas...

     O que o jornal teria a obrigação de mostrar (e que, no entanto, ficou bem escondido):
     i) Com a Reforma da Previdência (que o governo insiste em impor e a mídia é bem paga para apoiar), não haverá mais aposentados podendo dedicar-se à pintura, pois as pessoas agora terão que "trabalhar até morrer" (literalmente, na maioria dos casos);
     ii) Com a privatização da companhia em questão, muito em breve não haverá nem mesmo novos "Durvais" trabalhando, pois tudo sinaliza para a internacionalização da produção, com desemprego em massa de brasileiros.

     Essas coisas não são ditas, pois turvariam a tela, estragando a felicidade serena imposta pela TV.

Paulo Barja

1 de março de 2018

MÍDIA - PADRÕES DE MANIPULAÇÃO (3)

AULA RÁPIDA DE INTERPRETAÇÃO
DE NARRATIVA MIDIÁTICA PÓS-GOLPE
(a partir de apontamentos de Perseu Abramo)

Quando um jornalão afirma, em manchetes com letras garrafais, que 
"Recuperação chega a mais de 60% dos setores da indústria", está na verdade escondendo DUAS coisas:

1) A crise atual bateu forte em 38% dos setores industriais, que estão encolhendo.
Isso NÃO PODE (ou não deveria) ser motivo de comemoração, e sim de preocupação.

2) A tal "recuperação" não significa, no entanto, expansão nem contratação de funcionários (...). Durante a crise, a empresa [...] reduziu a equipe pela metade, para 40 pessoas.

Detalhe: este segundo trecho, eloquente, aparece isoladamente, "perdido" no meio da própria matéria do jornalão. Sim, aquela mesma que comemorava "recuperação".

Entenderam por que escrevemos entre aspas?

25 de julho de 2017

Saúde Pública - Artigo (Revista Univap)

Saiu na Revista Univap (ISSN 2237-1753), v. 22, n. 41 (clique no título para acessar o texto completo):



Uma observação:
mulheres com melhor nível de escolaridade vêm realizando os exames de rastreamento no tempo correto, o que as protege contra o avanço de uma eventual malignidade. 

Uma conclusão:
o acesso aos exames não vem sendo garantido às mulheres em situação de vulnerabilidade social, seja em relação à idade, à cor/raça (menor proporção de mulheres de cor negra e parda)  ou  ao  grau  de  instrução; assim, mesmo no SUS, ainda verifica-se o efeito da desigualdade social.

21 de julho de 2017

PERSEGUIDO POR BOAS RAZÕES (B.Brecht, adp. Paulo Barja)

A propósito da recente perseguição política movida por um juiz de primeira instância contra um presidente, lembrei de um poema de Brecht cuja parte final segue abaixo em adaptação minha:

PERSEGUIDO POR BOAS RAZÕES 
(B. Brecht, adp. P. Barja)

(...) Estou entre o povo,
e explico como o enganam,
e predigo o que está para vir,
pois sei de seus planos.
Desmonto a balança da sua justiça
e mostro os pesos falsos.
Os espiões informam
de que estou com os humildes e oprimidos
preparando a (re)volta.
Advertiram-me, tiraram-me
o que ganhei com meu trabalho honesto.
Como não me "corrigi",
perseguiram-me,
e como acharam em minha casa
escritos revelando 
seus planos contra o povo,
condenaram-me à detenção
acusando-me de ter ideias subversivas, ou seja,
de pensar como os de baixo.
Onde quer que eu vá, estou marcado a fogo para os ricos,
mas os que nada possuem
lêem a ordem de prisão
e me dão refúgio.
Dizem:
- A você, eles perseguem por boas razões.

PAPEL DE JORNAL OU PAPELÃO? A Operação Midiática da Desocupação do Pinheirinho pelo Jornal “O Vale” (link para trabalho completo)

   A história recente de São José dos Campos é marcada pela desocupação do Pinheirinho, bairro irregular formado na Zona Sul da cidade que contava com aproximadamente 8000 moradores em 2012. A desocupação, no início de 2012, empregou mais de 2000 policiais militares e gerou polêmica na imprensa e na opinião pública. O presente trabalho analisa o tratamento dispensado pelo jornal local (“O Vale”) ao Pinheirinho, nos meses que antecederam a desocupação. Foram selecionadas matérias respeitando os critérios: i) área publicada igual ou superior a um terço da área impressa da página; e ii) presença de fotos na matéria. Os critérios levaram à seleção de três artigos, datados de agosto de 2011, outubro de 2011 e janeiro de 2012. A análise das matérias evidencia uma operação midiática de desocupação, iniciada antes da retirada dos moradores.
   Para o artigo completo publicado nos anais do InterCom Sudeste (jun/2017), clique AQUI.

O DISCURSO FEMININO NO RAP: Garotas que não são de Ipanema (link para artigo completo)


   A música popular é um canal de manifestação popular, propício à expressão de pontos de vista a respeito de diferentes aspectos da sociedade. Neste contexto, na periferia dos centros urbanos brasileiros, predominam dois estilos musicais que carregam em si dois discursos fundamentalmente opostos no que tange às questões de gênero: o funk e o rap. Este trabalho propõe uma reflexão sobre o discurso de gênero nas letras do rap feminino de São José dos Campos. Após pesquisa de letras de música interpretadas por mulheres rappers, selecionou-se aquelas consideradas mais significativas para uma avaliação que se propõe comparativa: cada rap é analisado junto a uma canção tradicional brasileira. Observa-se que o rap feminino se contrapõe ao machismo ainda presente na sociedade e, por extensão, na música popular brasileira. As rappers desempenham assim um papel importante, e a presença deste rap em eventos da periferia permite a expressão feminista pela via da comunicação popular e alternativa, ganhando espaço nas ruas e também na internet.
   Contextualizando o problema - Em seu clássico texto A Identidade Cultural na Pós-Modernidade, Stuart Hall (2014) cita uma série de grandes avanços sociais ocorridos no que chama de modernidade tardia (período que situa na segunda metade do século passado); trata-se, a bem dizer, de rupturas de discursos predominantes até então. Nesse texto, Hall destaca o feminismo como movimento social impactante, capaz de politizar a própria formação identitária, a partir do reconhecimento das questões de gênero como políticas. Desde que despontou o feminismo, décadas já se passaram; pode-se afirmar, no entanto, que ainda hoje o movimento é não apenas atuante como necessário, haja vista a disparidade de tratamento entre homens e mulheres em diferentes setores da sociedade, bem como a frequência com que se relatam atos de violência cometidos especificamente contra mulheres.

obs.: Trabalho apresentado no GT Comunicação Popular e Alternativa do PENSACOM BRASIL 2016.  Para ler o artigo completo, clique AQUI.

13 de julho de 2017

A Revista VEJA e seus seguidos tiros no pé (a pressa é "iminiga"...)

     Na divulgação da sentença proferida ontem por um juiz de Curitiba contra Lula, um detalhe é revelador de possíveis "ligações perigosas". Até onde sabemos, a primeira postagem de veículo midiático sobre a sentença foi divulgada pela Veja, ainda antes das 14h (a partir das 14h, a notícia multiplicou-se em diversos sítios de notícias). 
     A imagem abaixo (compartilhada ao longo do dia em redes sociais) mostra, porém, que a pressa pode ser inimiga da perfeição - e revela ainda mais:



     Quem trabalha (ou tem contato) com o meio jornalístico sabe que é comum a preparação de versões prévias de notícias, que ficam (ou deveriam ficar) aguardando confirmação e detalhamento de informações para publicação em seguida. No entanto, a "ansiedade vejística" foi tamanha que a matéria saiu com um "XX" no lugar da informação!
     Fica no ar a pergunta: será que houve informação privilegiada (ainda que incompleta)? Ou este foi só mais um exemplo do desleixo e/ou mau jornalismo dessa revista-boa-pra-fazer-papel-machê?
P.R.Barja


4 de julho de 2017

Pinheirinho dos Palmares, terra de esperança

PRÉ-HISTÓRIA

   Para quem não conhece a história, vale contextualizar: em 2012, o governador de SP empregou 2.200 policiais na operação de invasão àquela que era, até então, a maior ocupação popular da América Latina. Cerca de 1600 famílias (perto de oito mil pessoas) foram retiradas à força do terreno ocupado na divisa entre São José dos Campos e Jacareí.
   A operação foi feita, por incrível que pareça, para beneficiar Naji Nahas, que tem em seu currículo de megaespeculador a façanha de haver exterminado a Bolsa de Valores do RJ, após a emissão de dezenas de cheques milionários - sem fundos. Nahas foi condenado, mas aqui em São José dos Campos escondeu-se atrás do nome Solectron para manter (e não utilizar) por mais de 20 anos uma extensa área em São José. Observação importante: os caminhos até que esse terreno virasse propriedade de Nahas são, no mínimo, suspeitos, uma vez que a família de alemães proprietária das terras foi assassinada no final da década de 1960, quando a propriedade passou para o Estado de SP...
   No início de 2004, a área foi ocupada inicialmente por 200 famílias. O Pinheirinho cresceu, com a construção de casas de alvenaria, estabelecimentos comerciais, um parquinho recreativo, igreja: tornou-se, enfim, mais um bairro joseense à espera de regularização (como havia acontecido com o Campo dos Alemães anos antes; em 2012, eram mais de 90 os bairros joseenses aguardando regularização).
   Nahas, mesmo afogado em dívidas inclusive com a prefeitura de São José dos Campos (não pagava os impostos sobre o terreno, devia décadas de IPTU), seguia lutando pela propriedade.
   Em 22 de janeiro de 2012, enquanto o prefeito Cury (PSDB) se escondia na praia, a PM prestou serviço a Nahas, retirando os moradores do bairro. Houve tiros e muito gás lacrimogêneo. Dezenas de feridos. Ironicamente, a população da parte rica da cidade manifestou preocupação quanto aos... cachorros perdidos na operação. É verdade: o prefeito chegou a contratar estabelecimentos particulares para cuidar dos cães.  Quanto às famílias desalojadas, contribuiu com a quantia de 100 reais mensais para as famílias que se cadastraram, valor este complementado pelo governo estadual. 
   A promessa: em um ano e meio, surgiria em outro local um outro bairro para acomodar os antigos moradores do Pinheirinho. Mas a promessa não foi cumprida, ou melhor, só foi cumprida sob a prefeitura de Carlinhos Almeida (PT), já em 2016. 

PINHEIRINHO DOS PALMARES

   O jornal local, que havia trabalhado midiaticamente contra os moradores do Pinheirinho desde setembro de 2011 (como prova artigo de P.R.Barja e C.R.Lemes, premiado em congresso), passou a tratar o novo bairro - Pinheirinho dos Palmares - de modo tendencioso e negativo, comparando-o ao que classificavam como território do crime. 
   Com o tempo, aprendemos a não acreditar nos jornais. Ou melhor, a exercer uma leitura crítica e buscar, sempre que possível, a verdade que "está lá fora". Nesse caso, impunha-se a visita ao novo bairro. E a oportunidade surgiu da maneira mais bonita possível: fomos convidados a participar de um evento comunitário no bairro (meu papel, em particular, seria o de apresentar cordéis para as crianças).
   No primeiro domingo de julho de 2017, a comunidade do Pinheirinho dos Palmares lançou o projeto Sementes Pela Paz, que visa levar arte, cultura, esporte e cidadania às crianças do bairro. O evento reveste-se da maior importância e é um símbolo do poder de organização da coletividade - independentemente de qualquer ligação com instituições políticas. Nossa participação se dá por solidariedade, e a divulgação destas imagens visa levar a verdade aos cidadãos joseenses e brasileiros: ao contrário do que o jornal local quer fazer crer, o Pinheirinho dos Palmares é SIM um exemplo de cidadania e de gente sem medo de trabalhar pelo bem coletivo.
   Como diz a galera do rap: máximo respeito por essa comunidade! Seguem fotos.

Vista parcial do bairro novo, na chegada
A EMEF Pinheirinho dos Palmares. Nas comunidades da periferia, a escola reveste-se de importância adicional, pois é um "centro natural" para atividades como as oficinas culturais propostas pelo projeto SEMENTES PELA PAZ
A parcela infantil da comunidade, público preferencial dos Cordéis Joseenses
Começando a apresentação com adivinhas em cordel
"Quero ver você acertar:
de que bicho eu estou falando?"

Atenção, concentração total da galera

Início da caminhada pela paz, em direção à escola.
Sem medo de chuva!
"Caminhando e cantando..."

Ações de cidadania são essenciais para todos nós. Todos!

Rappers, ativistas, escritores
Rappers, ativistas, escritores (2) - e até a próxima!

30 de junho de 2017

Cordel-Notícia (30/6/17)

Ainda que sem periodicidade definida, iniciaremos aqui um exercício buscando aliar literatura e atitude cidadã. Trata-se de uma série de notícias comentadas sob a forma de "cordel-notícia". Eis a primeira edição...:


SEXTILHAS SUPREMAS

Eis o SUPREMO negócio
que eu ofereço a vocês:
um TRIBUNAL FEDERAL
inteirinho, de uma vez,
e vendido com desconto
só pra terminar o mês!

Não fiquem aí parados:
comprem logo, tá barato!
E eles aceitam de tudo:
jantar, caviar, até pato...
E com senador suspeito
chegam a tirar retrato!

Vocês ficarão felizes.
Só não esperem justiça:
isso é coisa trabalhosa
que neles só dá preguiça!
Melhor então ir à igreja
e rezar depois da missa...


SEXTILHAS SOBRE O AÉCIO

Temer volta - que absurdo! -
a ter o seu aliado
e capanga preferido,
podre Aécio, no senado.
O povo mal acredita:
fica assim abestalhado!

A imprensa foi na carreira
entrevistar o farsante,
mas encontrou tal poeira
na casa do meliante
que a entrevista mostrou-se
inviável nesse instante.

A assessora de Aécio
informa que há um porém
e que entrevistá-lo agora
é coisa que não convém:
- Quando ele enfim ficar sóbrio,
  fala com vocês, tá bem?

P.R.Barja

29 de junho de 2017

Anotações sobre "Apocalípticos e Integrados" (I)

   A partir da leitura do livro Apocalípticos e Integrados, clássico de Umberto Eco, proponho-me a publicar por aqui breves notas - quem sabe aproveitáveis em futuros trabalhos acadêmicos. Começando...



25 de junho de 2017

Assim Não(,) Vale! Errando é que o jornal acerta



   A capa do jornal "O Vale" (edição de 24 e 25/junho/2017) é curiosa: ao "errar", o jornal acerta. Referindo-se ao período da ditadura civil-militar das décadas de 60 e 70, a manchete no entanto traz o verbo no tempo presente: "... faz mais de 700 operações na região em meio à Ditadura". Quem conhece a linha editorial d´O Vale sabe que não se trata de uma crítica indireta ao atual (des)governo brasileiro. Pois bem: a frase ganha ainda mais força por se constituir em ato falho - é aquela verdade que escapa, que se deixa passar, que não pode ser (mais) escondida.
   No Editorial, o jornal alerta sobre os perigos da ditadura e destaca a perda de liberdade. Somando-se o alerta à manchete, temos bom assunto para reflexão... 

25 de janeiro de 2017

Arte e Estado

(Versão condensada e comentada por Paulo Barja para o texto “Por qual dinheiro? O artista diante do poder”, de Andrzej Wajda, in: WAJDA, A. Um Cinema Chamado Desejo. Petrópolis: Campus, 1989)

   Uma vez que boa parte da produção artística é, direta ou indiretamente, financiada pelo Estado, colocam-se diante de nós algumas perguntas. A principal delas: quem, afinal, é o responsável pela obra produzida? Não importa quem financia: em última análise, o responsável é sempre o artista – e é assim que tem que ser.
   Para o Congresso da Cultura Polonesa de 1981, Andrzej Wajda preparou o texto “O mecenato do Estado e a liberdade do artista”, que em linhas gerais diz o seguinte:

   (...) O mecenato do Estado tem funções diferentes e uma ingerência diferente nos diferentes domínios das artes. Há domínios em que a ingerência do Estado é limitada ou pode até ser ignorada. Assim, pode-se pensar de graça. A escrita de um romance custa uma soma irrisória. (...) Da mesma forma, pode-se, por uma soma um pouco maior, produzir obras de artes plásticas que sejam belas, importantes, duradouras. O cinema, infelizmente, qualquer que seja seu tema, precisa de dinheiro, de milhões (vale o mesmo para uma grande orquestra ou para a produção de um grande musical).

   Pois bem: o Estado destinou do seu Tesouro uma soma milionária para meus filmes. Ora, de acordo com minha consciência de artista, não contraí por isso nenhuma obrigação ideológica para com esse mecenas. Isso significa que, usando dinheiro público para minha produção artística, enganei o Estado? Não, porque tomei dinheiro público e o utilizei para o bem público. (...) A existência de público para o trabalho sustenta minha convicção de que aquela arte era necessária (e não um luxo ou uma extravagância).

   Podem me responder que muitas obras de arte ruins mobilizam grande público. Sim, mas é certo que não haveria utilidade pública nenhuma em salas de espetáculo onde se sentasse sozinho e contente consigo mesmo apenas o agente financiador - o Estado (pensem: qual a utilidade pública de salas de espetáculo vazias? Isso é tão absurdo quanto limitar o acesso de alunos a uma biblioteca escolar “para evitar bagunça”).

   Eu recebia, assim, o dinheiro do Estado mecenas sentindo-me livre, porque jamais considerei que se tratasse de meu dinheiro. Sempre me esforcei para que o dinheiro retornasse, de algum modo, ao lugar de onde fora emprestado: o Tesouro nacional (percebam a ética do processo: a produção não se fez pelo dinheiro! O dinheiro é que foi disponibilizado para a produção. Isso faz toda a diferença).
Em países ocidentais, é considerado produtor e mesmo, em certa medida, criador de uma obra de arte aquele que consegue reunir o capital necessário para sua produção. (...) Contudo, aprendi muito jovem que o valor supremo é o trabalho. Assim, o criador não pode ser outro senão quem contribui com mais trabalho: a equipe e a pessoa que a dirige. Nunca me preocupei muito com a opinião das autoridades, sua reserva ou mesmo oposição a alguns de meus projetos. Minha verdadeira preocupação era com o público, sobretudo “se eu conseguiria me comunicar com ele” (Wajda defende que o financiador não tenha ingerência sobre o trabalho do artista. Faço uma analogia futebolística: a Nike não poderia influenciar na escalação da seleção brasileira. Por sinal, seria fantástico aplicar isso à política: o financiador de campanha não poderia ter ingerência sobre o trabalho do político, que deveria sempre representar os interesses do povo. Sabemos que geralmente não é bem o que acontece).

   (...) Por que o artista deve ser livre? Para poder penetrar no espírito das pessoas e expressar suas inquietudes, esperanças e ilusões! O Estado não saberia fazer isso em meu lugar. Por que um funcionário do Estado conheceria esse segredo melhor do que o artista? Em virtude de sua função? Acho que a paz silenciosa dos escritórios oficiais e roteiros longamente debatidos e preparados podem chegar a uma revelação... Na maioria das vezes, lengalengas dessa ordem dão lugar a obras indigestas, sem alma nem rosto (este é nosso argumento para defender que a gestão cultural seja exercida por gente próxima à área e aberta ao diálogo, e não entregue a “qualquer bom administrador, de preferência com formação jurídica”, como vemos ocorrer com triste frequência).

   Somente o artista pode responder pelo que diz ao público. Empregando sua liberdade, o artista deve, às vezes, fazer seu público compreender o que não teria condições de perceber sem a obra de arte. Ele tem necessidade de uma liberdade dupla: em relação ao poder e em relação ao público. Apenas os maiores conseguem atingir essa liberdade e merecem nosso reconhecimento. Quanto ao mecenas, que ele se lembre: a Arte só se desenvolve à medida que o povo consegue impor ao poder importantes concessões.

*   *   *

Uma colocação anticlímax ao final deste texto: o discurso original de Wajda nunca foi proferido, pois na ocasião o governo polonês cancelou o congresso. É triste, mas parece haver analogia entre esse fato e diversas situações vividas no Brasil. Diante do fechamento de oficinas culturais e dos repetidos cortes de verbas públicas para a cultura, perguntamos: será que os cortes são uma punição imposta aos artistas pelo Estado, que deseja controlar a criação artística e não consegue entender ou aceitar a liberdade criativa? Reflitamos.