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7 de fevereiro de 2020

Diálogo sobre o salto do artista

(à memória do músico Almir Mello)

P - Que quer dizer o artista
     que, ao sofrer, no auge da dor,
     salta sem a proteção da rede?
R - Quer dizer que não é justo
     um simples trabalhador
     morrer de fome ou de sede.

P - O que quer dizer o artista
     que dava tanta alegria
     e se lança assim no abismo?
R - Quer dizer que ninguém pode
     só dar e não receber:
     é cruel tal mecanismo.

P - O que quer dizer o artista
     que não busca mais aplausos 
     ao se jogar no infinito?
R - Quer dizer: vaidade é vã
     - e há jornadas solitárias.
     Assim penso. Assim reflito.

Paulo Barja

6 de outubro de 2014

Ode ao Burguês Secular (SP, 1922+92)


outsider em meu próprio estado
(e não me venham com maiúsculas)
acumulo milhas nas costas
atinjo a "maioridade à margem"
recebo assim renovada
democrática porrada
fartamente distribuída
- sem distinção -
a professores alunos pobres malfeitores
sim
pobreza é crime aqui
cercar terreno não é crime:
basta ter grana passar cheque sem fundo               quebrar a bolsa do Rio
e te deixam ficar devendo
30 anos, 60 milhões
ganha ainda apoio armado
mas pobre tem que ser bom pagador
(o relógio nunca atrasa para o pobre)
experimenta furar a conta de luz
aliás
não importa
vivemos no escuro mesmo


êêêê são paulo
ê são paulo
são paulo da garoa
são paulo da tortura boa
sim
garoa é sangue aqui
a turma de uniforme diz que as balas são de borracha
ops escapou uma aqui outra ali
dizem também: "quem procura acha"
cotas a cumprir menino(a)s a despir
brincantes a despejar
pobres a afugentar
pra longe das passarelas
azuis e amarelas
Ah, Mário, doce Mário, que sonhou são paulo no Brasil
viajando tanto ao Nordeste
em missão de integração
Mário Bandeira Drummond
o teeeeeeeeeempo paaaaaassssssssaaaa!
a valsa acabou
a água acabou
a usp vai mal
e o ministério da verdade adverte:
"beber bosta prejudica a capacidade cerebral"
(hein? o que? gol de quem?)
diz que gosta, sem engulho:
bebe bosta com orgulho!
são paulo russomano!
são paulo feliciano!
são paulo, dize-me com quem andas e te direi
aliás
já disse
...

(P.R.Barja, a partir de Mário)


19 de março de 2014

plagiometapoesia

Um poema da adolescência - tempo de muitos mergulhos poéticos. As motivações eram várias e iam desde a praia até as aulas da Laura - outra mestra, ao lado do Roldão. A eles, e também a minha mãe (como tudo, como sempre) dedico esse "achado de baú", uma releitura de antigos (e eternos) versos de Pessoa:


11 de abril de 2013

Sem retrovisor

(poema-homenagem a um velho espelho retrovisor)
 
Eu nunca fico parado
pois isso me dá pavor
- preciso andar devagar:
  não tenho retrovisor.
 
Olhando só para a frente,
esqueço o que já passou
- se pude chegar aqui,
  adiante agora eu vou.
 
Sigo pela mesma faixa.
Tudo que vem tem valor
= será que é só por acaso
  que estou sem retrovisor?
P.R.Barja
 

24 de março de 2013

QUANDO O CUME DÁ POESIA

(Homenagem a Laurindo Rabelo, patrono da Academia Brasileira de Letras e autor do célebre poema "As Rosas no Cume")


Eis que o poeta Laurindo
(do qual me sinto aprendiz)
procurando um novo tema
no cume encontra feliz
Fica tão impressionado
(e poeta não se inibe)
que não quer saber mais nada:
versejando o cume exibe
Depois de pronto o poema,
para não fazer desfeita,
o poeta então descansa:
sobre o próprio cume deita.
Uma amante da poesia
(minha amiga, minha nega)
antes de morrer o dia
pertinho do cume chega
Sussurra-me ao pé do ouvido
revelando-se a mulher:
a voz de veludo soa
dizendo que o cume quer!
"É claro!", digo animado
(a roupa dela já cai)
mas quando estou levantado
formiga no cume vai!
Faço uma grande fogueira
para a formiga que teima:
quando a batalha termina
formiga no cume queima!
Mantenho a postura firme
sem jamais dizer um ai
mas a verdade é bem triste:
fumaça do cume sai...!
Tem gente que até se assusta
com o que o poeta canta...
Concluo, sem desatino:
poesia no cume espanta!
(P.R.Barja)

6 de março de 2013

Para o MEVITEVENDO

(um presente modesto a quem tanto nos presenteia)

 
ME-VI-TE-VENDO no palco:
só não morri por um triz!
...
Suspense? Mais que cinema
- vivendo, me vi feliz.

Conheci o Senhor Z,
que se sentia tão só...
Nunca foi mau de verdade
- confesso: fiquei com dó.

Mas, quando a gente está triste
de não poder ver o sol,
a Vida vence, resiste
nas asas do rouxinol.

O canto da liberdade
nem todo mundo conhece.
E, só por não conhecer,
muita gente inda padece.

E tem que ser livre o canto,
para poder se expressar:
para manter seu encanto,
fazer sorrir e sonhar.

Pra quem é um pobre Fulano,
só tenho que agradecer:
depois que caiu o pano,
quis contar, quis escrever!

Que essa verdade prospere,
e esse trabalho também.
Que o rouxinol nos inspire,
agora e sempre. Amém!

 (Paulo R. Barja)
 

7 de junho de 2012

Oração

(letra da canção que fiz para meu pai, pouco após sua partida; acho que vale pra outras pessoas em momentos semelhantes, em que a dor é forte, mas a gratidão também, por tudo que se viveu junto)


eu te agradeço
pelas palavras                            pelo silêncio
pelos momentos                           por todo o tempo
por toda a vida
eu te agradeço
 
eu te agradeço
pelo calor                     e pelo vento
pelo carinho                          pelo alimento
pelo tempero
eu te agradeço
 
eu te agradeço
até a dor
dentro do peito
a maior prova
de que estou certo
disso que sinto
de que estou vivo
por isso eu sigo
e te agradeço

P.R.Barja,
para o eterno "maestro Barja"

9 de outubro de 2011

"O Piano" (homenagem à mestra)



Eis a  letra da canção:

O PIANO

Há um piano à beira do mar:
é necessário voltar.
Há um mistério mudo no ar:
sonho me faz recordar.

Doce é o meu farol:
nada de mal me alcança.
A tempestade lança
seus raios sobre mim,
mas toco e vejo sol.

Há um chamado, como um cantar;
vem lá do fundo do mar.
Há um piano esquecido lá,
em silêncio, a repousar...

Dulce é meu farol:
nada de mal me alcança.
A tempestade lança
seus raios sobre mim,
mas toco e vejo sol.
(Paulo R. Barja)