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3 de janeiro de 2018

MÍDIA - PADRÕES DE MANIPULAÇÃO (1)

Título de matéria publicada na primeira edição de 2018 do jornal "A Tribuna" (Santos, SP)



SE A AFIRMAÇÃO NÃO ENCONTRA RESPALDO NO PÚBLICO, A CULPA É DO LEITOR?

     A manchete do jornal santista sugere que a Economia melhorou, MAS as classes C e D não tiveram o bom senso de "perceber" ou "sentir" esta melhora. Ao longo do texto, arrisca-se até a hipótese criminosa: as pessoas estariam impressionadas por questões ligadas ao desemprego (e/ou subemprego) e isso estaria atrapalhando a compreensão do momento atual da economia.
     Ei! Desde quando se pode falar em melhora da economia com alta do desemprego? Para QUEM, afinal, a economia estaria melhorando, a não ser para os opressores de sempre? O erro não está na percepção das classes C e D, claro.

9 de outubro de 2017

Mais que nunca, é preciso sonhar

(“Os Gigantes da Montanha” e o Grupo Galpão)

Fui ao teatro (re)ver o Grupo Galpão e saio com a impressão de que a beleza na Arte, a partir de um certo ponto, ultrapassa o próprio limite das palavras. Paradoxo: ainda assim, sou impelido a escrever. E por razões objetivas: no Brasil de 2017, é preciso assistir “Os Gigantes da Montanha”, montagem do grupo para o texto de Luigi Pirandello.
Sim, vivemos num tempo em que a beleza chega a adquirir conotação subversiva - principalmente quando aliada à excelência da representação. Para dar um exemplo: a caracterização antológica do ator Paulo André como personagem feminina na peça é capaz de ofender certas “pessoas na sala de jantar” (como diriam os Mutantes). Pior para os que se ofendem. Nestes tempos difíceis, em que setores (ultra)conservadores chegam a pedir censura a exposições e apresentações artísticas (na verdade “exigem”, o que apenas explicita seu caráter autoritário), é reconfortante ouvir o Galpão emendar o final de uma das músicas com a exclamação: “Censura não!”
Pirandello morreu às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Certamente compreendia os graves tempos que estavam por vir. Poucos anos depois, Walter Benjamin passou a alertar sobre a mudança de percepção que se operava nas pessoas a partir da reprodutibilidade técnica nas obras de arte. Pois bem: o teatro nunca se curvou à mera reprodutibilidade. O acaso sempre está presente, e por isso mesmo a aura nunca se perde. Curioso: um seriado famoso na TV dos anos 1990 avisava que “a verdade está lá fora”. O Galpão viaja pelo Brasil confirmando que “sim, a verdade está AQUI fora” – e é tanto mais impactante quanto mais se revela através do registro de fábula.
A cada época, seus desafios. Temos os nossos, e não falo (só) de manter as contas em dia: trata-se de lutar inclusive pelos direitos mais fundamentais. Nos últimos tempos, a imprensa (!!) tem dado espaço a políticos que defendem abertamente a imposição de limites à liberdade de expressão, propondo inclusive sanções e multas aos libertários. Pois bem: no passarán, caros censores! Temos a fábula. E fábulas como a de Pirandello prestam-se a múltiplas interpretações e questionamentos; ler, ouvir, cantar e representar são atitudes que enriquecem a própria experiência humana.
Voltando à peça: logo no início, quando a brancaleônica trupe mambembe perambula em busca de um lugar para apresentar seu espetáculo, ficamos sabendo que fantasmas não assustam artistas. Na verdade,

a Arte faz ponte
entre o pleno Aqui-Agora
e o reino do Além.

A última cena, aquela que Pirandello contou mas não escreveu, trata do embate dos artistas com os Gigantes. Que não são propriamente gigantes, o texto explica: trata-se de pessoas que chegaram “no alto da Montanha” com muito esforço, mas que, na caminhada, embruteceram, tornaram-se de certo modo insensíveis – esquecerem-se, talvez, de sua própria humanidade. Culpa do Empreendedorismo ou da Meritocracia? A peça estimula fortemente a reflexão, neste momento em que artistas, buscando seu lugar na praça, são pressionados a se converterem em “empresas de um homem só” (as MEIs).
A peça, escrita na década de 1930 e montada pelo Galpão em 2013, torna-se ainda mais atual agora. Os artistas, armados de figurinos, vozes e sonhos, caminham para se apresentar diante dos Gigantes. Retroceder? Nunca. Temer? Jamais.
Ao fim da peça (na verdade, o fim ainda está por escrever), resta-nos agradecer ao Galpão pelo exemplo dado nestes primeiros 35 anos de sua trajetória: sem concessões, dando sempre coerência aos nossos sonhos. Até mesmo depois do espetáculo: nesta cidade que um dia abrigou o Pinheirinho (invadido e desocupado por Gigantes da Montanha fardados), passavam das dez da noite quando encontramos os atores saindo do teatro. Cansados, após mais uma jornada de belezas, eles nos mostram que, sim, sempre há tempo para um abraço. E que ninguém ouse censurar o afeto, que é e sempre será revolucionário.

É preciso que sonhemos,
principalmente acordados;
que encaremos os Gigantes
(na rua e até no Senado)
e saibamos exprimir
com Arte o nosso recado.

P.R.Barja

21 de julho de 2017

O DISCURSO FEMININO NO RAP: Garotas que não são de Ipanema (link para artigo completo)


   A música popular é um canal de manifestação popular, propício à expressão de pontos de vista a respeito de diferentes aspectos da sociedade. Neste contexto, na periferia dos centros urbanos brasileiros, predominam dois estilos musicais que carregam em si dois discursos fundamentalmente opostos no que tange às questões de gênero: o funk e o rap. Este trabalho propõe uma reflexão sobre o discurso de gênero nas letras do rap feminino de São José dos Campos. Após pesquisa de letras de música interpretadas por mulheres rappers, selecionou-se aquelas consideradas mais significativas para uma avaliação que se propõe comparativa: cada rap é analisado junto a uma canção tradicional brasileira. Observa-se que o rap feminino se contrapõe ao machismo ainda presente na sociedade e, por extensão, na música popular brasileira. As rappers desempenham assim um papel importante, e a presença deste rap em eventos da periferia permite a expressão feminista pela via da comunicação popular e alternativa, ganhando espaço nas ruas e também na internet.
   Contextualizando o problema - Em seu clássico texto A Identidade Cultural na Pós-Modernidade, Stuart Hall (2014) cita uma série de grandes avanços sociais ocorridos no que chama de modernidade tardia (período que situa na segunda metade do século passado); trata-se, a bem dizer, de rupturas de discursos predominantes até então. Nesse texto, Hall destaca o feminismo como movimento social impactante, capaz de politizar a própria formação identitária, a partir do reconhecimento das questões de gênero como políticas. Desde que despontou o feminismo, décadas já se passaram; pode-se afirmar, no entanto, que ainda hoje o movimento é não apenas atuante como necessário, haja vista a disparidade de tratamento entre homens e mulheres em diferentes setores da sociedade, bem como a frequência com que se relatam atos de violência cometidos especificamente contra mulheres.

obs.: Trabalho apresentado no GT Comunicação Popular e Alternativa do PENSACOM BRASIL 2016.  Para ler o artigo completo, clique AQUI.

30 de junho de 2017

Cordel-Notícia (30/6/17)

Ainda que sem periodicidade definida, iniciaremos aqui um exercício buscando aliar literatura e atitude cidadã. Trata-se de uma série de notícias comentadas sob a forma de "cordel-notícia". Eis a primeira edição...:


SEXTILHAS SUPREMAS

Eis o SUPREMO negócio
que eu ofereço a vocês:
um TRIBUNAL FEDERAL
inteirinho, de uma vez,
e vendido com desconto
só pra terminar o mês!

Não fiquem aí parados:
comprem logo, tá barato!
E eles aceitam de tudo:
jantar, caviar, até pato...
E com senador suspeito
chegam a tirar retrato!

Vocês ficarão felizes.
Só não esperem justiça:
isso é coisa trabalhosa
que neles só dá preguiça!
Melhor então ir à igreja
e rezar depois da missa...


SEXTILHAS SOBRE O AÉCIO

Temer volta - que absurdo! -
a ter o seu aliado
e capanga preferido,
podre Aécio, no senado.
O povo mal acredita:
fica assim abestalhado!

A imprensa foi na carreira
entrevistar o farsante,
mas encontrou tal poeira
na casa do meliante
que a entrevista mostrou-se
inviável nesse instante.

A assessora de Aécio
informa que há um porém
e que entrevistá-lo agora
é coisa que não convém:
- Quando ele enfim ficar sóbrio,
  fala com vocês, tá bem?

P.R.Barja

23 de dezembro de 2015

poema em resposta

(sobre as ofensas recebidas por Chico Buarque no Leblon)

para bom entendedor
bobagem não é pecado
na minha linha do tempo
comentário é liberado
mas eu quero deixar claro
que na vida tenho um lado
vou muito além de partido
mas meu verso inconformado
será sempre solidário
ao artista achincalhado
que difunde em sua obra
um consistente recado
CasaGrande já existiu
Senzala está no passado
muito falta melhorar
neste Brasil melhorado
mas ofensa se responde
com verso qualificado
canção de grande riqueza
e texto bem humorado

6 de outubro de 2014

Ode ao Burguês Secular (SP, 1922+92)


outsider em meu próprio estado
(e não me venham com maiúsculas)
acumulo milhas nas costas
atinjo a "maioridade à margem"
recebo assim renovada
democrática porrada
fartamente distribuída
- sem distinção -
a professores alunos pobres malfeitores
sim
pobreza é crime aqui
cercar terreno não é crime:
basta ter grana passar cheque sem fundo               quebrar a bolsa do Rio
e te deixam ficar devendo
30 anos, 60 milhões
ganha ainda apoio armado
mas pobre tem que ser bom pagador
(o relógio nunca atrasa para o pobre)
experimenta furar a conta de luz
aliás
não importa
vivemos no escuro mesmo


êêêê são paulo
ê são paulo
são paulo da garoa
são paulo da tortura boa
sim
garoa é sangue aqui
a turma de uniforme diz que as balas são de borracha
ops escapou uma aqui outra ali
dizem também: "quem procura acha"
cotas a cumprir menino(a)s a despir
brincantes a despejar
pobres a afugentar
pra longe das passarelas
azuis e amarelas
Ah, Mário, doce Mário, que sonhou são paulo no Brasil
viajando tanto ao Nordeste
em missão de integração
Mário Bandeira Drummond
o teeeeeeeeeempo paaaaaassssssssaaaa!
a valsa acabou
a água acabou
a usp vai mal
e o ministério da verdade adverte:
"beber bosta prejudica a capacidade cerebral"
(hein? o que? gol de quem?)
diz que gosta, sem engulho:
bebe bosta com orgulho!
são paulo russomano!
são paulo feliciano!
são paulo, dize-me com quem andas e te direi
aliás
já disse
...

(P.R.Barja, a partir de Mário)


1 de setembro de 2014

Soneto Eleitoral (candidatura de ocasião)


Se a sigla significasse
o que diz que significa,
a coisa talvez mudasse;
pior do que está não fica.

Legenda? Pra que legenda?
O discurso não é sério.
A "ética" vive à venda
ou está no cemitério.

Sigla certa, ideia incerta:
muda-se de opinião
quando o cinto mais aperta.

Democracia? Quem dera:
"vale tudo" de eleição.
Quanto ao eleitor... já era!

P.R.Barja