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13 de dezembro de 2018

“PARAHYBA RIO MULHER”: UMA FORÇA NECESSÁRIA


Lirismo e força: performance traz para a rua a "História além dos livros"

     “Vivemos tempos difíceis” é quase o novo “Bom dia” dos brasileiros, neste 2018 que é um agravamento de 2017, que foi, por sua vez, uma sequência dura de 2016... Mas cabe uma pergunta: desde quando estamos sendo golpeados? Não aprendemos isso na escola, mas a verdade é que a História do Brasil tem sido, desde sempre, a história de uma sequência de golpes. Ou alguém ainda acredita no mito de que os portugueses eram brancos civilizadíssimos que chegaram aqui tratando muito bem os índios, que foram auxiliados em trabalhos voluntários por negros bem dispostos vindos da África Mãe?

     Ainda hoje, a chibata é vista como recurso para uns - mas é pura dor para outros. Nesse contexto, e voltando a 2018, o mergulho (cultural, artístico) em episódios tristes da nossa história é importante para revelar caminhos de resistência. Porque, se temos uma longa história de golpes, também é verdade que temos uma longa história de resistência. Perguntem aos índios, por exemplo. Ou às mulheres fortes da Paraíba!

     Não acredito em acaso: todo encontro tem uma razão de ser. No meio da semana, no meio de tarde, no centro de São José dos Campos, eu e minha filha ficamos sabendo que haveria teatro de rua na Praça do Sapo. Como só a Arte salva (e à noite ainda haveria trabalho), resolvemos ir até a praça.

      Chegamos cedo: “Elas estão no calçadão!”

     Fomos ao encontro das moças. Percussão, voz e energia davam o toque: “tá com cara de que vai ser bom”, pensei. Foi mais: foi necessário. Sempre cantando, a trupe chega à praça, onde a própria demarcação de espaço marca o início da performance. O vermelho está presente: enquanto denunciam episódios de violência contra a mulher, as moças banham-se num rio que é de água e de sangue. E então começa uma aula ao mesmo tempo de Arte e de História – aquela que os livros não contam, ou seja, aquela que vai bem além das verdades oficiais.

     Anayde Beiriz foi uma escritora e poeta libertária, destinada a chocar a conservadora sociedade paraibana da primeira metade do século XX. Defensora ardorosa da participação feminina na política e nas artes, Anayde envolve-se amorosamente com João Dantas, líder da oposição ao então “presidente da Paraíba” (governador) João Pessoa. Em meio a um violento confronto político, Dantas se refugia no Recife, sem abandonar Anayde: o amor revolucionário é cantado em cartas, em verso e prosa. João Pessoa então manda a polícia revistar as casas dos revoltosos, buscando armas que comprovassem a preparação de uma revolta armada. Em vez de armas, a polícia encontra cartas e poemas de amor no cofre do escritório de João Dantas, na capital da Paraíba.

     Amor é crime? O material epistolar apreendido é fartamente divulgado por jornais alinhados ao governo, para atingir Dantas, que reage “na lata”: numa confeitaria recifense, mata João Pessoa com um tiro à queima roupa, sendo preso em flagrante. Anayde então vai morar num abrigo no Recife, onde visita Dantas até que este é encontrado morto em sua cela. A desculpa oficial é a de sempre: suicídio. Poucos dias depois, Anayde morre envenenada, em mais um “suicídio” assim, entre aspas.

     A violência pode assumir muitas formas.

     A força de Anayde me faz lembrar da santista Pagu, que viveu na mesma época. E em outras mulheres guerreiras, de todas as épocas. As atrizes falam de suas avós e convidam o público a falar também, para que se honre – coletivamente – a memória destas mulheres. Há espaço para lirismo e saudade. As falas finais do espetáculo retomam o caráter de resistência política ao defender publicamente a coragem de Dilma Rousseff, vítima de um processo de impeachment claramente carregado de machismo. Enquanto escrevo esse texto, multiplicam-se denúncias contra um certo eleito e seus filhos, envolvidos em atividades “pouco republicanas”. Como agirá a imprensa agora?

     A história brilhantemente contada por Cely Farias, Kassandra Brandão, Natália Sá e Jinarla Pereira fala da Paraíba, do Brasil e, em última análise, de todos nós. O grupo tem a melhor das qualidades quando se trata de teatro, principalmente na rua: as moças mostram um entrosamento perfeito. O espírito de equipe valoriza cada momento do espetáculo, visualmente belo, fortalecendo um trabalho que já é forte pelo tema abordado.

     Toda força a essas moças! Que façam mais e mais arte pelas ruas de nosso país, que anda precisando. E que a História – essa que mora além das verdades oficiais – seja sempre lembrada, para possamos resistir sempre às tentativas de silenciamento.

P.R.Barja

24 de março de 2015

Absurdo injustificável


Em 1964, o Arcebispo de Olinda e Recife, D. Helder Câmara, foi até o Exército para reclamar das torturas cometidas na ditadura contra presos políticos.
O coronel Helio Ibiapina então respondeu:
- Nós torturamos para não fuzilar. 
Nos 20 anos seguintes, muitos foram torturados.
Muitos também foram mortos, e não apenas por fuzilamento:  havia, por exemplo, aqueles que eram atirados de aviões ou do alto de prédios.

P.R.Barja
(a partir do relato publicado por Elio Gaspari no livro "A Ditadura Envergonhada")

29 de agosto de 2014

whatsapp (conto curto)


     Ela andava triste, cabisbaixa, quando ouviu que a chamavam. Levantou o rosto e olhou para seu interlocutor, que perguntava:
   – Ei, o que houve? Por que está desse jeito? Sua beleza anda opaca...
   – Foi o resto da vida inteira que me fez assim. Agora, quase não durmo. Quando deito, ele vem me visitar...
   – Ele quem?
   – O demônio.
     Ela não teria dito isso se não tivesse percebido que o rapaz tinha asas.
   – Ah, que bobagem... Carpe Diem... aproveite o dia! O demônio tem medo de gente alegre.
    Ele abriu então as asas – eram imensas – e esticou a mão para ela. Voaram juntos. E dançaram, sorriram... foram felizes. Quando ele a deixou em casa (pela janela!), a moça emanava luz. Deitou-se e dormiu imediatamente.
     Naquela noite, quando o demônio se aproximou da cama, ela só abriu um olho e disse: BU!! E isso, esse simples “BU!!” impregnado de alegria brincalhona, assustou tanto o demônio que ele nunca mais voltou.

Paulo R. Barja

1 de abril de 2014

Dinâmica (Construção de Narrativas e Textos): FOTO NARRATIVA

O trabalho a seguir é um exemplo da dinâmica que exercitamos em sala de aula sob o título "Foto Narrativa". A proposta era escolher uma foto antiga e escrever uma crônica ou conto curto a partir da imagem.
P.Barja


24 de agosto de 2013

TInha tudo, só não sabia ouvir


   Era jovem e bonito. Nada lhe faltava. Nada, a não ser uma certa paciência. Gostava demais de falar, mas tinha extrema dificuldade pra ouvir. E, quando ouvia, pela primeira metade da frase já tirava conclusões precipitadas: 
- Ei, sabia que a sua mãe... 
- PODE parar, ninguém fala mal da minha mãe, babaca!
- ... é uma pessoa maravilhosa? Me deu o melhor conselho que eu podia ter ouvido essa semana...
   Mas aquele-que-não-escutava saía, mesmo assim, pisando duro, jurando que o outro tinha sido ofensivo.
   Levava a vida assim. A maioria das pessoas nem percebia isso: muitos ficavam encantados mesmo com aquela pessoa especial e, com o tempo, suspiros acumulavam-se ao seu redor - esses eram prontamente ouvidos... quem explica?
   Um dia caiu num poço. Acidente: um buraco enorme numa rua, reformas em execução paralisadas pela época das chuvas, sinalização péssima. Caiu.
   Não conseguia sair. Mas tinha boa saúde e teve todas as condições de gritar por socorro. Foi o que fez. Havia pouco movimento por ali, mas em alguns minutos apareceram pessoas dispostas a ajudar:
- Calma! Vamos buscar ajuda!
   Ele até viu as pessoas lá no alto. Só não pôde ouvir, preocupado que estava em continuar gritando: 
- Tem água aqui! Vou acabar morrendo! Ajudaí, SOCORRO!
   Os bombeiros chegaram rápido e um deles iniciou o salvamento:
- Amigo! NÃO tente nadar aí embaixo, ok? Vamos jogar uma corda, apenas agarre firme...!
- Por que não me tiram daqui de uma vez? Tem muita água! Vou nadar pra ver se encontro uma saída!
- Amigo, NÃO faça isso! A corda está quase chegando...
   Morreu por não saber ouvir.
P.R.Barja

1 de maio de 2012

Provérbio africano

"Até que os leões tenham seus próprios historiadores,
as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador."

(provérbio citado por Eduardo Galeano no Livro dos Abraços)

13 de setembro de 2011

Ballet no Cine-Teatro Benedito Alves (1988)

   A historiadora e bailarina Eliete Santos acaba de compartilhar conosco uma preciosidade: um programa de ballet apresentado no Cine-Teatro Benedito Alves em 1988. Ampliamos assim o alcance dos relatos coletados: música, teatro, dança...



   Segundo Eliete, "o balé chegou a São José dos Campos com Damares Antelmo em 1968, mas foi no  Cine-Teatro Benedito Alves da Silva que aconteceu pela primeira vez, em 1988, a apresentação de trechos de balés famosos em São José dos Campos. Antes disso nunca se havia feito trechos de balés internacionais em São José. Vimos naquele dia O Lago dos Cisnes, Giselle, o pas de deux de O CorsárioLês Sylhides e o pas de deux de Carmem."
   Obrigado, Eliete, por ajudar a preservar a memória das artes joseenses!

30 de janeiro de 2011

Política cultural em São José dos Campos: Cultura em Movimento

Acabo de escrever um artigo para o sétimo volume da série de livros "História e Cidade", editada pela Univap sob coordenação geral de Maria Aparecida Papali e Valéria Zanetti. Encaminho a seguir o trecho inicial, seguido da ligação para o blog "Teatro de Rua e a Cidade", onde o texto foi publicado na íntegra:

São José dos Campos tem, hoje, artistas de destaque em diversos segmentos: artes visuais, dança, literatura, música, teatro. A cidade conta inclusive com uma orquestra sinfônica de qualidade. Isso tudo, porém, já se sabe. Mas uma pergunta fica no ar: será que a cidade possui uma política cultural consistente e compatível com seu porte? 
(...)

Confira o artigo na íntegra:
teatroderuaeacidade.blogspot.com/2011/01/politica-cultural-em-sao-jose-dos.html