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27 de janeiro de 2015

Microconto


Procurou, no canivete de 38 funções, uma que tirasse dor de amor. Acabou desistindo.
P.R.Barja

27 de agosto de 2013

Ela se chama...




Ana
ela se chama
mas no seu dia
fiz cantoria
para Maria
que eu nem sabia
mas existia
só que era...

Ana
que ora me engana
se finge
esfinge
diz que responde
pergunto "onde?"
então se esconde
por trás do nome
porém não some

não sei
se é inatingível
não sei
se isso é possível
sonhei
verso invisível
será?

mas Julia
que era Cecília
ou é Maria
ou Beatriz
olhou pra mim
então fiquei
feliz

Paulo R. Barja

1 de agosto de 2013

haikai


Para sempre agora:
AMOR pelo corpo adentro,
pela VIDA afora

(P.R.Barja)

11 de julho de 2013

Soneto Camoneano (ou não)


"Paixão é fogo que arde sem se ver",
disse o grande poeta lusitano.
Mas ele cometeu algum engano,
percebam (sei que vão compreender):

Quem é - levante a mão - que nunca ardeu
no fogo da paixão com testemunhas?
Quem nunca suspirou, roeu as unhas
ou confessou amar? Sim, também eu!

Pois cada gesto assim é evidência
que todos podem ver, entre outras mil
- paixão é renda fina, transparência...

Pois é: Camões foi mestre na poesia,
porém, no Amor... não sei, mas desconfio
que ardeu também, em plena luz do dia!

P.R.Barja

10 de julho de 2013

Haikais amorosos


Dizem que alimenta,
mas Amor não é lanche:
é, sim, avalanche

- - - - - - - - - - - - - - - - -

Se eu amar perdendo a conta,
será que a estatística
se desaponta?

P.R.Barja

7 de julho de 2013

Amor (poema-canção)


Um dia
meu pai
mandou-me uma carta
e ali 
aprendi:
AMAR dói.

Há anos
carrego
profunda certeza
disso
que disse
o herói.

Também,
porém,
sabemos da força
que faz
amar
mais e mais:

quem nega
o Amor
por medo da dor
não pode
viver 
em paz.


(P.R.Barja)

12 de junho de 2013

Microconto (para o Dia dos Namorados)


Começaram o jogo brigados, cada um numa ponta do sofá. O gol contra, no fim do primeiro tempo, parecia selar tudo. Mas veio o segundo tempo e a virada: 3 a 1. Noivado com data marcada.
P.R.Barja
 

17 de maio de 2013

Amor Obsessivo (por Hakim Bey)

(texto original de Hakim Bey; tradução: P.R.Barja)

Uma "dialética áspera" nos leva a perceber um gosto impuro na História: sob uma operação de escavação, localizamos uma coleção de antiguidades suprimidas e realizadas – práticas tolas, obsoletas e insatisfatórias como o "Amor Obsessivo". A ideia de Romance é romana apenas no sentido de que foi trazida (de volta) à Europa por Cruzados e Trovadores. A paixão enlouquecida e sem esperança aparece pela primeira vez em textos orientais, como no Anel da Pomba de Ibn Hazm (na verdade uma gíria para para o pênis circuncidado) e nas primeiras versões de Layla e Majnun do Arabistão. Os sufis se apropriaram da linguagem desse tipo de literatura, erotizando assim ainda mais uma cultura e religião já erotizadas.

Mas se o desejo permeia toda a estrutura e o estilo do Islã, continua no entanto a ser um desejo reprimido. "Aquele que ama, mas permanece casto e morre de saudade, alcança o status de um mártir na Jihad", ou seja, chega ao paraíso – ou assim diz a tradição popular (mas talvez espúria) do próprio Profeta. A tensão cortante desse paradoxo cristaliza uma nova categoria de emoção na vida: o amor romântico, baseado no desejo insatisfeito, na separação em vez da união, isto é, em saudade. O período helenístico (como evocado por Kaváfis, por exemplo) forneceu os gêneros para essa convenção – o "romance" em si, o idílio e a lírica erótica – mas o Islã lançou nova luz para as velhas formas com seu sistema de sublimação passional. O fermento greco-egípcio-islâmico adiciona um toque pederasta ao “novo” estilo; além disso, a mulher ideal do romance não é nem mulher nem concubina, mas “alguém proibido”, certamente fora da categoria de simples reprodutor(a). Deste modo, o Romance aparece como um tipo de gnose, em que espírito e carne ocupam posições opostas, talvez também como uma espécie de “libertinagem extremada” em que uma forte emoção é vista como mais satisfatória até mesmo do que a própria satisfação. Visto como "alquimia espiritual", o objetivo da coisa parece ser a interiorização de uma consciência não-ordinária. Este desenvolvimento alcançou graus extremos, mas ainda "dentro da lei” com sufis como Ahmad Ghazzali, Awhadoddin Kermani e Abdol-Rhaman Jami, que testemunharam “a presença do Ser Divino” em certos meninos bonitos e ainda assim permaneceram (supostamente) castos. Os Troubadors (trovadores) disseram o mesmo de suas damas adoradas; Dante Vita Nuova representa o exemplo extremo. Tanto cristãos quanto muçulmanos percorreram precipícios traiçoeiros com esta doutrina de castidade sublime, mas os efeitos espirituais, por vezes, podem ser enormes, como com o iraquiano Fakhroddin, Rumi ou mesmo Dante.
Mas não seria possível ver a questão do desejo de uma perspectiva tântrica e admitir que a "união" em si é também uma forma de iluminação suprema? Tal posição foi tomada por Ibn 'Arabi, que no entanto limitava a discussão a “casamento legal” ou “concubinato”. Como o homossexualismo era proibido na lei islâmica, um sufi que amasse garotos não teria a possibilidade legal de realização sensual. O jurista Ibn Taimiyya uma vez perguntou a um dervixe se ele tinha feito mais do que simplesmente beijar o ser amado. "E se o que eu fiz?", respondeu o interrogado. A resposta seria certamente "culpado por heresia!", isso para não falar de formas consideradas ainda mais graves de crime. Uma resposta semelhante seria dada a qualquer trovador de “tendência tântrica-adúltera”, e talvez tenha sido esse tipo de resposta que levou alguns deles para a heresia organizada do catarismo [1].
O amor romântico no Ocidente recebeu energias do neoplatonismo, assim como o mundo islâmico, e a ideia de romance fornecia uma forma aceitável (ainda ortodoxa) de compromisso entre a moral cristã e o “erocosmo” redescoberto da Antiguidade. Mesmo assim, o equilíbrio era precário: Pico della Mirandola e o pagão Botticelli acabaram nos braços de Savonarola [2].
Uma minoria secreta de nobres renascentistas, clérigos e artistas optou firmemente pelo paganismo clandestino, a Hypnerotomachia Poliphilo [3] ou os monstros do jardim de Bomarzo, sugerindo a existência de uma facção ou seita “tântrica”. Mas para a maioria dos platônicos, a ideia de um amor baseado em espera solitária servia a propósitos ortodoxos e alegóricos, em que o sujeito amado só poderia ser uma sombra distante do real (como exemplificado por Santa Teresa e São João da Cruz) e só poderia ser amado de acordo com um “código cavalheiresco” casto e penitencial. A questão central do romance “A Morte de Artur” (de Malory) é que Lancelot não consegue sustentar o ideal cavalheiresco, amando carnalmente Guinevere em vez de se contentar apenas com o espírito.
O surgimento do Capitalismo exerce um estranho efeito sobre a ideia de romance. Só posso expressar isto com uma comparação absurda: é como se o ser amado se tornasse “o investimento perfeito”, sempre desejado, sempre pago, mas nunca realmente adorado. A abnegação do romance se harmoniza perfeitamente com a auto-negação do Capitalismo. Mais do que limitar suas exigências simplesmente à moral ou à castidade, o capital exige escassez, tanto de produção como de prazer erótico. A religião proíbe a sexualidade, emprestando uma aura de glamour à abstinência; o capital remove a sexualidade, mergulhando-a em desespero. A ideia de romance agora é o que leva ao suicídio de Werther, ao desgosto de Byron, à castidade dos dândis. Neste sentido, o romance se tornará a obsessão bidimensional perfeita da música popular e da publicidade, fornecendo um rastro de utopia dentro da reprodução infinita da mercadoria.
Em resposta a esta situação, os tempos modernos têm oferecido dois diferentes vereditos sobre o romance, aparentemente opostos. Um, o amor louco surrealista, claramente pertence à tradição romântica, mas propõe uma solução radical para o paradoxo do desejo, combinando a idéia de sublimação com a perspectiva tântrica. Opondo-se à escassez (ou "praga emocional", como diria Reich) do capitalismo, o Surrealismo propõe um excesso (transgressor) do desejo mais obsessivo e da realização mais sensual. O que o romance de Nezami ou Malory tinham separado (a espera e a união), os surrealistas propunham que se reunisse. O efeito era para ser explosivo, literalmente revolucionário.
O segundo ponto de vista relevante aqui também foi revolucionário, mas “clássico” ao invés de “romântico”. O anarquista-individualista John Henry Mackay desesperou-se com o amor romântico, que ele só podia ver como contaminado com as formas sociais de propriedade e alienação. O amante romântico espera “possuir” ou “ser possuído” pelo ser amado. Se o casamento é simplesmente prostituição legalizada (a análise anarquista usual), Mackay descobriu que o próprio amor havia virado uma mercadoria. O amor romântico é uma doença do ego e sua relação com a “propriedade”; em oposição a isto, Mackay propôs a amizade erótica, livre de relações de propriedade, com base na generosidade em vez de espera e retirada (ou seja, escassez): um amor entre sujeitos autônomos em relação de igualdade.
Apesar de Mackay e os surrealistas parecem opostos, num ponto eles concordam: o amor é soberano. Além disso, ambos rejeitam a herança platônica da “espera sem esperança”, agora vista como autodestrutiva - talvez uma medida da dívida que ambos (anarquistas e surrealistas) têm com Nietzsche. Mackay exige um Eros apolíneo, os surrealistas (claro) optam por Dionísio, obsessivo, perigoso. Mas ambos revoltam-se contra o “romance".
Hoje em dia, estas duas soluções para o problema do romance parecem ainda abertas, possíveis. Talvez a atmosfera pareça ainda mais poluída com imagens degradadas de desejo do que nos dias de Mackay ou Breton, mas não parece ter havido mudanças qualitativas nas relações entre Amor e Capitalismo tardio desde então. Admito minha preferência filosófica pela posição de Mackay porque tenho sido incapaz de sublimar o desejo num contexto de obsessão desesperada sem me sentir miserável e a felicidade (objetivo de Mackay) parece nascer da desistência de falso cavalheirismo e abnegado dandismo em favor de amores mais reais e "pagãos". Ainda assim, deve-se admitir que tanto “separação” quanto “união” são estados não-ordinários de consciência. Desejo obsessivo intenso constitui um “estado místico” que só precisa de um traço de religião para se cristalizar como êxtase neoplatônico. Mas nós, românticos, devemos lembrar que a felicidade também possui um elemento completamente alheio a qualquer aconchego morno-burguês ou covardia insípida. A felicidade expressa um aspecto festivo e até mesmo insurrecional que lhe dá – paradoxalmente – sua própria aura romântica. Talvez possamos imaginar uma síntese de Mackay e Breton – um guarda-chuva e uma máquina de costura numa ópera de mesa – e construir uma utopia baseada “na generosidade, tanto quanto na obsessão” (mais uma vez, vem a tentação de fundir Nietzsche com Charles Fourier e sua “Atração Fatal”); mas, na verdade, eu sonhei com isso (lembro, de repente, como se fosse literalmente um sonho) – e isso assumiu uma realidade tentadora filtrada para minha vida (em certas Zonas Autônomas Temporárias), um tempo-espaço “impossível”... e toda minha teoria se baseia nesta breve pista.
______________________________
[1] Os seguidores do catarismo deviam abster-se da alimentação carnívora, de atividades sexuais, evitar qualquer forma de violência; além disso, não poderiam possuir nenhum bem material (N.T.)
[2] Padre Dominicano que, na Florença do séc.XV, opôs-se fortemente à vida pagã e à imoralidade inclusive (principalmente?) na corte de Lourenço de Médici (N.T.)
[3] Um dos livros mais misteriosos do período renascentista, tendo sido impresso (em grego) no ano de 1499. Inclui diversas passagens oníricas e eróticas, com ilustrações em xilogravura.

1 de maio de 2013

Poema anotado

 
Palavras de um professor

(que ama, como outros mortais):
amores não são "amenos":
amores são sempre "A+"!

(P.R.Barja)
 

22 de abril de 2013

Pelas tramas dessa vida

(adaptação de canção tradicional colombiana)

Eu canto porque desejo,
eu canto porque preciso:
o som se transforma em beijo
quando encontra o seu sorriso.
 
Saudade, meu bem, é fogo:
de longe, não vai passar.
Preciso te ver de novo:
só assim vou melhorar.
 
Às dez me bateu o sono,
às onze foi que eu dormi;
às duas da madrugada,
acordei pensando em ti!
 
Se a gente está com vontade
mas não pode se encontrar,
é só mandar pelo vento,
que o carinho vai chegar.
 
Cantando, mando um suspiro
com um abraço amarrado:
receba com muito amor,
desamarre com cuidado.
 
Se eu digo que já vou indo,
não pense que é despedida:
estamos pra sempre unidos
pelas tramas dessa vida.
 
Estamos pra sempre unidos
pelas tramas dessa vida.
(Paulo Barja)
 

5 de março de 2013

Frase (sobre Amor e peixes)

O Amor por um peixe ou por uma tartaruga é um exercício pleno do Amor Verdadeiro: aquele que não espera nada em troca. Amor é fundamentalmente doação... e Amar faz bem em si.
 
P.R.Barja

1 de março de 2013

Para que serve o poeta?

(um soneto a Cyrano)

Para que serve o poeta?
Para iluminar por dentro
- para procurar o centro
da alma com sua seta.


Para que serve um poema?
Para falar de um país
- ou do amor da meretriz
  pelo artista de cinema.


Ela fica bem mais bela
- pode até virar donzela
  pelo verso do poeta.


Terceiriza-se a paixão
- o poeta vai ao chão,
  morto pela sua meta.


(P.R.Barja)