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19 de maio de 2020

Um Simples Galpão (sobre o Galpão Estação Cidadania)


daqui a 80 anos
nas ruínas de São José
ninguém saberá daquela via
tragada pelo rio
nem daquela outra
em desuso, abandonada
disso tudo
 afinal
  restará
   quase nada
e quem se lembrará
daquela (in)vencível ponte
que tanto enfeiava o horizonte?

mas o rio
tenho esperança
será testemunha
viva

daqui a 80 anos
alguém achará estranho
encontrar as fundações
do projeto equivocado
que começou
a ser erguido
do lado errado

bem perto dali
a árvore mais antiga
ainda oferecerá
sombra amiga

daqui a 80 anos
quem se lembrará
do pleito que elegeu
um bando de vereador
e um (in)certo prefeito...
qual o nome do sujeito?
tento lembrar
não há jeito
- bem feito.

mas haverá
ainda e sempre
o som de uma flauta
e sua melodia incauta
que fará renascer eterna dança
nos pés espevitados de criança
haverá
ainda e sempre
um sorriso bordado em cores vivas
a força da mais bela narrativa

e cada um de nós
que por lá tiver passado
já terá deixado aos filhos
e aos filhos dos filhos
o caminho dos trilhos
a arte como oração
a artesania
daquele simples Galpão
Estação
Cidadania

(Paulo Roxo Barja, para todos os artistas do eterno Galpão Estação Cidadania)













Todas essas fotos ilustram apenas alguns dos tantos momentos de Cultura e Arte proporcionados pelos atuantes artistas e parceiros do Galpão Estação Cidadania - que foi desocupado à força e destruído pelo poder público apenas fisicamente, mas permanece em nós como símbolo de espaço livre para o exercício da cidadania plena.
Saibamos seguir em frente nessa trilha, sempre!

4 de novembro de 2019

VIDA SEVERINA: um espetáculo necessário


   Neste domingo pós-finados, fui ver "Vida Severina ou Tem Muita Gente Neste Barco", peça do Núcleo de Artes Cênicas do SESI SJC, composta a partir da justaposição das obras de João Cabral ("Morte e Vida Severina") e de Matei Visniec (Migraantes), sob a sensível direção de Roberval Rodolfo.
   Vou direto ao ponto: vejam a peça! O espetáculo está em cartaz no SESI SJC - e é gratuito. Muito bom. Roberval costurou 1 roteiro simplesmente brilhante: amarrou João Cabral com Visniec para discutir (i)migração.
Trata-se de 1 grupo jovem, amador - sim! E isso é mais uma razão para se acompanhar o trabalho. Há grandes valores individuais e a tendência é crescer como grupo, o que aliás já se verifica, ao longo dos últimos anos.
   A música é sempre um ponto importante dos trabalhos do NAC, merece atenção - assim como a garra, a alegria de se saber em cena para um debate importante.
   A peça em si é belíssima, um real ato de denúncia e resistência - imperdível e necessária no Brasil e na São José de hoje. Muitos saíram emocionados, mas arrisco dizer que o maior mérito do trabalho é gerar o empoderamento coletivo. Aquela sensação  de que, afinal, do lado dos humanistas, "ninguém solta a mão de ninguém". Neste sentido, acho particularmente importante que o trabalho seja prestigiado pelos colegas da classe artística.
   Vi ontem, já conto os dias para rever. Parabéns aos envolvidos. E sigamos na resistência lírica através da Arte.



13 de dezembro de 2018

“PARAHYBA RIO MULHER”: UMA FORÇA NECESSÁRIA


Lirismo e força: performance traz para a rua a "História além dos livros"

     “Vivemos tempos difíceis” é quase o novo “Bom dia” dos brasileiros, neste 2018 que é um agravamento de 2017, que foi, por sua vez, uma sequência dura de 2016... Mas cabe uma pergunta: desde quando estamos sendo golpeados? Não aprendemos isso na escola, mas a verdade é que a História do Brasil tem sido, desde sempre, a história de uma sequência de golpes. Ou alguém ainda acredita no mito de que os portugueses eram brancos civilizadíssimos que chegaram aqui tratando muito bem os índios, que foram auxiliados em trabalhos voluntários por negros bem dispostos vindos da África Mãe?

     Ainda hoje, a chibata é vista como recurso para uns - mas é pura dor para outros. Nesse contexto, e voltando a 2018, o mergulho (cultural, artístico) em episódios tristes da nossa história é importante para revelar caminhos de resistência. Porque, se temos uma longa história de golpes, também é verdade que temos uma longa história de resistência. Perguntem aos índios, por exemplo. Ou às mulheres fortes da Paraíba!

     Não acredito em acaso: todo encontro tem uma razão de ser. No meio da semana, no meio de tarde, no centro de São José dos Campos, eu e minha filha ficamos sabendo que haveria teatro de rua na Praça do Sapo. Como só a Arte salva (e à noite ainda haveria trabalho), resolvemos ir até a praça.

      Chegamos cedo: “Elas estão no calçadão!”

     Fomos ao encontro das moças. Percussão, voz e energia davam o toque: “tá com cara de que vai ser bom”, pensei. Foi mais: foi necessário. Sempre cantando, a trupe chega à praça, onde a própria demarcação de espaço marca o início da performance. O vermelho está presente: enquanto denunciam episódios de violência contra a mulher, as moças banham-se num rio que é de água e de sangue. E então começa uma aula ao mesmo tempo de Arte e de História – aquela que os livros não contam, ou seja, aquela que vai bem além das verdades oficiais.

     Anayde Beiriz foi uma escritora e poeta libertária, destinada a chocar a conservadora sociedade paraibana da primeira metade do século XX. Defensora ardorosa da participação feminina na política e nas artes, Anayde envolve-se amorosamente com João Dantas, líder da oposição ao então “presidente da Paraíba” (governador) João Pessoa. Em meio a um violento confronto político, Dantas se refugia no Recife, sem abandonar Anayde: o amor revolucionário é cantado em cartas, em verso e prosa. João Pessoa então manda a polícia revistar as casas dos revoltosos, buscando armas que comprovassem a preparação de uma revolta armada. Em vez de armas, a polícia encontra cartas e poemas de amor no cofre do escritório de João Dantas, na capital da Paraíba.

     Amor é crime? O material epistolar apreendido é fartamente divulgado por jornais alinhados ao governo, para atingir Dantas, que reage “na lata”: numa confeitaria recifense, mata João Pessoa com um tiro à queima roupa, sendo preso em flagrante. Anayde então vai morar num abrigo no Recife, onde visita Dantas até que este é encontrado morto em sua cela. A desculpa oficial é a de sempre: suicídio. Poucos dias depois, Anayde morre envenenada, em mais um “suicídio” assim, entre aspas.

     A violência pode assumir muitas formas.

     A força de Anayde me faz lembrar da santista Pagu, que viveu na mesma época. E em outras mulheres guerreiras, de todas as épocas. As atrizes falam de suas avós e convidam o público a falar também, para que se honre – coletivamente – a memória destas mulheres. Há espaço para lirismo e saudade. As falas finais do espetáculo retomam o caráter de resistência política ao defender publicamente a coragem de Dilma Rousseff, vítima de um processo de impeachment claramente carregado de machismo. Enquanto escrevo esse texto, multiplicam-se denúncias contra um certo eleito e seus filhos, envolvidos em atividades “pouco republicanas”. Como agirá a imprensa agora?

     A história brilhantemente contada por Cely Farias, Kassandra Brandão, Natália Sá e Jinarla Pereira fala da Paraíba, do Brasil e, em última análise, de todos nós. O grupo tem a melhor das qualidades quando se trata de teatro, principalmente na rua: as moças mostram um entrosamento perfeito. O espírito de equipe valoriza cada momento do espetáculo, visualmente belo, fortalecendo um trabalho que já é forte pelo tema abordado.

     Toda força a essas moças! Que façam mais e mais arte pelas ruas de nosso país, que anda precisando. E que a História – essa que mora além das verdades oficiais – seja sempre lembrada, para possamos resistir sempre às tentativas de silenciamento.

P.R.Barja

9 de outubro de 2017

Mais que nunca, é preciso sonhar

(“Os Gigantes da Montanha” e o Grupo Galpão)

Fui ao teatro (re)ver o Grupo Galpão e saio com a impressão de que a beleza na Arte, a partir de um certo ponto, ultrapassa o próprio limite das palavras. Paradoxo: ainda assim, sou impelido a escrever. E por razões objetivas: no Brasil de 2017, é preciso assistir “Os Gigantes da Montanha”, montagem do grupo para o texto de Luigi Pirandello.
Sim, vivemos num tempo em que a beleza chega a adquirir conotação subversiva - principalmente quando aliada à excelência da representação. Para dar um exemplo: a caracterização antológica do ator Paulo André como personagem feminina na peça é capaz de ofender certas “pessoas na sala de jantar” (como diriam os Mutantes). Pior para os que se ofendem. Nestes tempos difíceis, em que setores (ultra)conservadores chegam a pedir censura a exposições e apresentações artísticas (na verdade “exigem”, o que apenas explicita seu caráter autoritário), é reconfortante ouvir o Galpão emendar o final de uma das músicas com a exclamação: “Censura não!”
Pirandello morreu às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Certamente compreendia os graves tempos que estavam por vir. Poucos anos depois, Walter Benjamin passou a alertar sobre a mudança de percepção que se operava nas pessoas a partir da reprodutibilidade técnica nas obras de arte. Pois bem: o teatro nunca se curvou à mera reprodutibilidade. O acaso sempre está presente, e por isso mesmo a aura nunca se perde. Curioso: um seriado famoso na TV dos anos 1990 avisava que “a verdade está lá fora”. O Galpão viaja pelo Brasil confirmando que “sim, a verdade está AQUI fora” – e é tanto mais impactante quanto mais se revela através do registro de fábula.
A cada época, seus desafios. Temos os nossos, e não falo (só) de manter as contas em dia: trata-se de lutar inclusive pelos direitos mais fundamentais. Nos últimos tempos, a imprensa (!!) tem dado espaço a políticos que defendem abertamente a imposição de limites à liberdade de expressão, propondo inclusive sanções e multas aos libertários. Pois bem: no passarán, caros censores! Temos a fábula. E fábulas como a de Pirandello prestam-se a múltiplas interpretações e questionamentos; ler, ouvir, cantar e representar são atitudes que enriquecem a própria experiência humana.
Voltando à peça: logo no início, quando a brancaleônica trupe mambembe perambula em busca de um lugar para apresentar seu espetáculo, ficamos sabendo que fantasmas não assustam artistas. Na verdade,

a Arte faz ponte
entre o pleno Aqui-Agora
e o reino do Além.

A última cena, aquela que Pirandello contou mas não escreveu, trata do embate dos artistas com os Gigantes. Que não são propriamente gigantes, o texto explica: trata-se de pessoas que chegaram “no alto da Montanha” com muito esforço, mas que, na caminhada, embruteceram, tornaram-se de certo modo insensíveis – esquecerem-se, talvez, de sua própria humanidade. Culpa do Empreendedorismo ou da Meritocracia? A peça estimula fortemente a reflexão, neste momento em que artistas, buscando seu lugar na praça, são pressionados a se converterem em “empresas de um homem só” (as MEIs).
A peça, escrita na década de 1930 e montada pelo Galpão em 2013, torna-se ainda mais atual agora. Os artistas, armados de figurinos, vozes e sonhos, caminham para se apresentar diante dos Gigantes. Retroceder? Nunca. Temer? Jamais.
Ao fim da peça (na verdade, o fim ainda está por escrever), resta-nos agradecer ao Galpão pelo exemplo dado nestes primeiros 35 anos de sua trajetória: sem concessões, dando sempre coerência aos nossos sonhos. Até mesmo depois do espetáculo: nesta cidade que um dia abrigou o Pinheirinho (invadido e desocupado por Gigantes da Montanha fardados), passavam das dez da noite quando encontramos os atores saindo do teatro. Cansados, após mais uma jornada de belezas, eles nos mostram que, sim, sempre há tempo para um abraço. E que ninguém ouse censurar o afeto, que é e sempre será revolucionário.

É preciso que sonhemos,
principalmente acordados;
que encaremos os Gigantes
(na rua e até no Senado)
e saibamos exprimir
com Arte o nosso recado.

P.R.Barja

9 de junho de 2012

Um toque sobre o futebol nas artes

Um pedido sincero aos queridos grupos de teatro do meu Brasil:
seria interessante que não se colocasse os personagens pobres/ferrados/bandidos de arma na mão usando camisa de time de futebol... o Corinthians é a "vítima" preferencial, e olha que não sou corintiano, mas esse tipo de representação reflete uma visão preconceituosa...
e, ao fazer isso, estimula uma associação entre futebol e violência que não faz bem pra nenhum de nós, né mesmo?
Modestamente, tenho defendido que se entenda o futebol como arte, onde cabe a convivência e a integração, ao invés da violência.
Enfim, é só pra gente pensar a respeito.
Saudações santistas, artísticas e pacíficas a todos,
P.R.Barja

6 de maio de 2012

Manifesto sobre um teatro (literalmente) INVISÍVEL

Neste sábado, 5 de maio de 2012, um grupo de artistas foi ao local onde deveria existir o prometido "Novo Teatro Municipal de São José dos Campos" para marcar o aniversário de 4 anos deste projeto que, literalmente, nasceu ao contrário. Vejam só...

"Onde está o teatro? O gato comeu, o gato comeu e ninguém o viu..."
"Vira vira vira, vira vira vira, vira vira vira... virou!?"
 
O cartaz diz tudo...
Artistas-cidadãos em bloco...
Cantar, seja lá como for! Resistimos, logo existimos...
... pra manter a Cultura em Movimento

O protesto foi noticiado pelo jornal "O VALE"na edição de 06/05/2012:


* Acessem o blog dos Cordéis Joseenses pra conhecer o Cordel-Rap do Teatro Invertido preparado para esse triste aniversário...
P.R.Barja

29 de abril de 2012

"FOGO FÁTUO" e o dilema PROZAC/PROJAC


   "O REI ESTÁ NU!" - essa é certamente a frase que ressoa em muitos dos espectadores da peça FOGO FÁTUO, em cartaz no SESC Santana até 27/5. Trata-se de um trabalho vigoroso que tem como uma de suas maiores virtudes a profunda honestidade que propõe nas relações entre as diversas instâncias presentes (de um modo ou de outro) em cena: escritor, ator, indivíduo, público, cidadão, sociedade, criador/criatura... "e o diabo a 4".

   Nunca é demais lembrar que o mito é, talvez por definição, atemporal - assim como a questão do criador-em-crise (presente "dia sim, outro também") em tantos de nós, reconheçamos. Mas é claro que o tema ganha relevância nesses "tempos modernos" em que a dupla PROZAC e PROJAC parece comandar o imaginário (e o real) de boa parte da sociedade. Se a meta é "crescer e aparecer" a todo custo, de preferência sorrindo e mandando beijinho pra galera, nega-se cada vez mais o direito à crise, ao tempo de amadurecimento da criação, ao silêncio necessário do criador. Tudo é ritmo, tudo é pressa, os fins justificam os meios e algo acaba se perdendo no "Vale Tudo das Artes".

   FOGO FÁTUO propõe um respiro necessário nessa loucura. Poderia ser receitada como "prescrição médica" para alguns, contra a mentalidade fast food tão presente em nosso cotidiano. Nesse sentido, é fantástico o início da peça, que de cara já propõe uma quebra de ritmo: somos inseridos no tempo-sem-tempo (o fade-out final poderia explorar ainda mais isso, com as luzes baixando lentissimamente para nos lembrar de respeitar este tempo-sem-tempo do Escritor criando. Talvez alguns tenham pressa de bater palma e levantar, mas outros vão captar a mensagem).

   O trabalho é um típico work-in-progress: logo após a apresentação do último sábado, pudemos acompanhar um pouco do sempre instigante processo de (re)criação, com sugestões sendo coletadas e compartilhadas entre criador e criatura. Mas, afinal, quem é quem? Nem é o caso de fazer a pergunta, uma vez que ambos criam e são criados em cena. E aqui temos um fato curioso: a nítida diferença de desenvoltura cênica entre Hélio Cícero e Samir Yazbek (nem seria justo exigir “paridade” aqui) colabora inclusive para trazer novas camadas de leitura a alguns trechos da peça. Insistente, a pergunta “Quem é você?” é provocadora e essencial para este Escritor em busca de uma pista criativa – que pode vir na forma de um pacto proposto por Mefisto em crise.

   Apenas discordamos de um pequeno trecho do texto de apresentação no programa da peça: a crise compartilhada entre Fausto e Mefisto (este, auxiliado pela interpretação soberba de Hélio Cícero), em vez de gerar descrença, acaba sendo um último e maravilhoso recurso de sedução. Uma espécie de "canto do cisne", ao qual é praticamente impossível o Escritor manter-se surdo. O pacto, agora democratizado, ressurge como solução digna para ambas as partes. Afinal, se a "outra" alternativa é a proliferação da maldade gratuita, talvez ainda seja melhor garantir um espaço para Mefisto nesse mundo.

25 de abril de 2012

Carta do (e)leitor (25/04/2012)


Da seção CARTA DO LEITOR, "O Vale", 25/04/2012

Centro de SJC
   Em relação à reportagem do último domingo do jornal O Vale sobre projetos da Prefeitura de São José dos Campos para recuperar as praças do centro, considero importante que se melhore a qualidade de trabalho para os camelôs e a qualidade do comércio para a população do centro.
   Mas enquanto isso o Cine Teatro Benedito Alves continua fechado e o novo Teatro Municipal é motivo de piada em todo o Brasil. É caso único de Teatro INVERTIDO, consumindo verba milionária da cidade.
   Pergunto: quem foram os beneficiados até agora com o Teatro INVERTIDO? Eis um tema que merece investigação aprofundada. 
Paulo Barja

12 de abril de 2012

Refletindo sobre Arte


(para pessoas inspiradoras: Adriana Barja, Eduardo Okamoto, Jair Alves, Tin Urbinatti e tantos outros que são "artistas" porque são "humanos")


  "O teatro não é revolucionário em si mesmo, mas certamente pode ser um excelente ensaio..." (BOAL)

 "Não digam: 'Este homem não é um artista!' porque, se vocês puserem tamanha barreira entre vocês e o mundo, vocês ficarão fora do mundo; se não lhe derem o título de artista, talvez ele, a vocês, não lhes dê o título de homens (...) por isso digam: É UM ARTISTA PORQUE É UM SER HUMANO." (BRECHT)

  A Arte não é revolucionária em si - pode vir a ser um ensaio (importante) para uma revolução. Mas, se "treino é treino e jogo é jogo", não se deve querer que a Arte (o treino) esteja acima da Vida (o jogo real). Assim, não há espaço para arrogância, muito menos para a (falsa) divisão das pessoas em "artistas" e "outros".

 
 
*  *  * 
 
 
"O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres
não passam de meros atores." (SHAKESPEARE)
"O homem é um animal político."  (ARISTÓTELES)

  O ser humano é um ser político. O ser humano é um ser artístico.
  O ser humano também é um ser social: não pode fazer só para si.
  Como aquele-que-faz-política, aquele-que-faz-arte é um servidor.
  Quando consciente disso, tem a vantagem de poder escolher a quem serve.
 
 
*  *  *


"Não se entra no mesmo rio duas vezes." (HERÁCLITO)

  Se Arte é ensaio (como diz Boal), quem faz Arte é aquele que treina, ensaia, trabalha: o operário em construção
  Não nasce pronto. Não fica pronto, pois não é produto.
  Não se entra na mesma peça duas vezes. Não se entra na mesma Vida duas vezes...

Sobre o fazer artístico atual

(para Jair Alves e os Macunaímicos, com um abraço)

   Acompanhando debates recentes e importantes no Portal Macunaíma, atrevo-me a fazer aqui uma breve lista do que considero fundamental pra gente que trabalha com arte:
1) Respeito ao público (antes, durante e após o espetáculo);
2) Estar aberto a sugestões (generosidade no falar e no ouvir);
3) Tentar exercitar pensamento-e-prática que possam ir além das (surradas) dicotomias: “erudito x popular”, “palco x rua” etc. Há o que apreender (e aprender, mesmo) nos diversos campos.
   Exemplifico: como escritor de cordel, busco aprender e apreender tanto com a mordacidade de um Leandro Gomes de Barros quanto com o lirismo de um Drummond. Não contraponho um a outro, nem me interesso muito em calcular um eventual “índice de revolução” na obra de cada um deles.
   Por sinal, preparem-se para um “choque de realidade”. Prontos? Aqui vai: Michel Teló (Ai, se eu te pego... te quebro a cara) já entrou na parada de sucessos dos States! Azar dos americanos: é o contra-ataque da mediocridade brazuca.
   Por que trago isto aqui? Porque este fato da vida real, por incrível que pareça, aponta um possível caminho para nós:

Busquemos uma Revolução da Qualidade!

   Vamos levar sonetos e música medieval para as nossas feiras, e cordel para os colégios e universidades! A qualidade será nossa bandeira.
   Sejamos intransigentes no respeito à vida e à arte. Viva a Revolução...

5 de abril de 2012

O sentido da dor em cena


   Acho que estamos de acordo: seja qual for a linguagem, urge buscar um sentido para a sensação de vazio e para a dor em cena.
   Para que esta vá além de dor vazia, "encenada".
   E, se é verdade que isso pode surgir a partir das terras árabes, até mesmo em terras joseenses (o prefeito aqui é um Cury, por sinal) é possível encontrar situações de dor que podem sensibilizar realmente o artista, para que este sensibilize o público.
   Penso que essa seria uma nobre função da arte: tocar aquele que muitas vezes não é (mais) tocado pelos fatos cotidianos, porque perdeu a noção do tanto que há de dor ao seu redor.
Por sinal, isso foi brilhantemente conseguido com o trabalho de Eduardo Okamoto, "Agora e na Hora de Nossa Hora". Artista exemplar, aliás, ao terminar o debate assumindo que o trabalho (com o qual já rodou o mundo) é, sim, um trabalho "em progresso", "em construção".
   Não poderia ser diferente: afinal, como disse Vinícius (trazido também brilhantemente por Tin Urbinatti), somos todos OPERÁRIOS EM CONSTRUÇÃO.

2 de abril de 2012

Questões nada bufas

(texto publicado originalmente no Portal Macunaíma: "Questões nada bufas")


   Tendo terminado há pouco a Mostra Joseense, venho até aqui retomar algumas questões bem colocadas durante a Mostra e que podemos ver nas críticas aqui publicadas. Tivemos contato com obras “de baixo custo e alto poder de alcance”, como AQUI TREM, por exemplo. E creio que acabamos de ver o outro lado dessa história/debate. Trata-se do "MISTÉRIO BUFO" que, a meu ver, perde-se no que, em Análise do Discurso, poderíamos chamar de "silenciamento pelo excesso". Muita produção, muita canção e texto mas, por fim, a pergunta que não quer calar: a que, ou a quem, serve tudo isso?
    Ressalto que a pergunta é ainda mais importante quando se constata o inequívoco potencial do time reunido para a
montagem.
   Certamente, qualquer análise "técnica" aqui seria descabida (do tipo: belíssimo piano ao vivo porém fora de sincronia com a voz em alguns momentos), face a questões maiores e mais prementes. Arrisco-me a colocar aqui algumas delas:
   1) Acho que vivemos em tempo em que é absolutamente necessário questionar o papel dos palavrões no discurso (seja ou não cênico). Como dizia o grande poeta José Paulo Paes, o palavrão (e sei que é curioso admitir isso) é uma importante instituição, que por isso mesmo não pode ser utilizada "a torto e à direita" (não há erro de digitação aqui). O uso indiscriminado gera um esvaziamento do discurso, e o palavrão despejado perde o caráter (que poderia ter) de revolta justa e plena de sentido, para cair numa vala comum que, para dizer o mínimo, não é transformadora – e entretém tanto quanto o “Ai, se eu te pego” que já somos obrigados a aturar fora do teatro.
   2) Qual a "real crítica que sobra
" quando se mistura indistintamente o papa, o nazismo e Che Guevara no mesmo saco de pancadas (ou “saco de merda”, para ficar no linguajar da montagem)? Aqui a coisa pega mesmo, pois toda atividade humana é, queiram ou não, política. Assim, o roteiro do “Mistério Bufo” sugere uma generalização do tipo “todas as ideologias são a mesma porcaria” – generalização essa que tem servido de alicerce e escudo para justificar o que temos de píor no cenário político. Passar recibo nesta visão de que “todos são errados por igual e o inferno é uma belezinha comparado com o que temos aqui” é inaceitável. Saindo do teatro, isso equivaleria a abraçar com fé essas Marchas Contra a Corrupção (marchas-bufas?) promovidas por corruptos e que atiram somente numa direção: a direção dos outros (já que o inferno são os outros, como diria o escritor).
   Enfim, esperei pacientemente o término da sessão na expectativa de um debate que seria importante e cuja ausência me levou a escrever aqui, propondo essas questões que são, a bem dizer, de todos nós, e de todos os dias.
    Deixo aqui um abraço ao trio de debatedores que muito nos enriqueceu nestes dias joseenses. Segue o diálogo!
P.Barja

1 de abril de 2012

"Agora e na Hora de Nossa Hora"


de/com Eduardo Okamoto. A peça, apresentada ontem aqui em São José dos Campos, é tão marcante que ficamos uma hora debatendo depois, e praticamente NÃO se falou de teatro (como bem apontou o Jair Alves). Esse talvez seja o mérito principal (dos muitos) desse trabalho: trazer para a sociedade a discussão sobre a situação dos moradores de rua - em particular, as crianças e adolescentes. 

Porque a Verdade está lá fora, mas precisa reverberar dentro de nós.

   A peça tem mais uma apresentação hoje (01/04/2012), às 19h, no CET/Parque da Cidade. Para quem sabe o momento que vivemos aqui em São José dos Campos, com tanta intolerância e ódio, ver é quase uma obrigação.


Obs.: vale também pra quem não se importa com nada disso (o que acho difícil) mas quer ver um trabalho artístico fortíssimo. Alô, sr. prefeito!

4 de dezembro de 2011

Respeito pela Arte e pelo ser humano

04/dez/2011

   De volta do México, quero deixar registrada aqui minha IMENSA felicidade pela (modesta) parceria com um grupo incrível: a Cia Teatro da Cidade!


  Orgulho imenso de ser amigo desse povo e de poder ajudar, ainda que seja um pouquinho, sempre que precisarem. 
   Obrigado a todos pela minha inclusão na leitura da peça "A Gaivota", de Tchekhov...
   Por aqui, continuarei minha imersão nos contos deste escritor fantástico, que sempre lutou contra a vulgaridade e a favor do respeito pelo ser humano - seja artista ou não, público ou não.
   Sigamos: com coragem, persistência e alma lavada, todos os dias.
   Amor,
P.Barja

19 de novembro de 2011

"Um Lugar Chamado Dropsie" - leitura dramática no SESC SJC

Para aqueles que vivem nos subúrbios da grande cidade,
muitas vezes apenas a esperança e os sonhos podem dar sentido à vida.

FICHA TÉCNICA
Elenco: Conceição Castro, Evandro Valentim, Marcio Santamaria, Marianna Mar,
Paulo Barja, Thais Lopes
Música ao vivo: Paulo Barja
Direção: Wallace Puosso

13 de novembro de 2011

Diário de um Processo (13) - Teatro-cordel


   Os meses de setembro e outubro foram dedicados pela trupe da peça "A Seca da Alma" a trabalhos diversos. Entre as atividades diretamente ligadas à preparação da peça, destacamos o treinamento semanal de corpo com a atriz Adriana Barja.
   Também neste período houve a mudança do nome do grupo, que passou a se chamar Cia Mundo Teatral, e uma mudança no elenco, com a saída da Anne Karoline (que vai estudar e cantar em terras paulistanas) e a entrada do Diego.
   Em consequência destas mudanças, foram feitas alterações na divisão dos textos da peça.
 
   Ainda estamos (sempre!?!) em processo.
 
   O maior desafio ainda é o de sempre: trazer as imagens da seca (e da história) para o público. Continuamos pedindo aos atores que visualizem as (muitas) imagens presentes no texto.
 
   Depois de vários meses de trabalho, chegamos enfim a uma proposta clara quanto aos personagens:
                                   - O pai
                                   - A mãe
                                   - A vizinha-comadre
                                   - O violeiro
 
   Também temos agora um modelo padrão para os cartazes e material de divulgação da peça, com a criação de uma xilogravura especificamente para "A Seca da Alma", feita pelo jovem Aron dos Santos, de Taubaté (também parceiro de criação de capas dos Cordéis Joseenses).
 
   Além de trabalhar na história da peça propriamente dita, seguimos nossa pesquisa contínua de notícias ligadas ao tema da peça (migração), com dois objetivos principais: 
1) manter sempre atualizada a seção inicial (teatro-jornal); 
2) estabelecer, cada vez mais, pontes entre os relatos orais/literários/históricos e nossa realidade atual. 
   Nesse momento de "efervescência criativa" (a próxima apresentação do grupo está marcada para 19/11), uma notícia publicada hoje no jornal O Vale chama a atenção para o fato de que, no século XXI, a cidade de São José dos Campos continua sendo campeã regional em número de migrantes. De fato, esta parece ser uma característica fundamental de São José, que justifica e amplia o sentido de nosso trabalho na peça.
   A respeito da matéria publicada na imprensa, enviei ao jornal o seguinte comentário, que proponho aos atores que seja incluído no início da peça:
  " Nos últimos 20 anos, quase 90 mil pessoas migraram para São José dos Campos, ajudando a construir a identidade joseense neste início de século XXI. Grande parte veio do Nordeste. São migrantes - e são joseenses. E cada uma dessas pessoas merece o nosso respeito e o nosso agradecimento - não importa o bairro onde moram. "

* para saber mais sobre nosso processo de criação em "A Seca da Alma", digite "processo" ou "Seca da Alma" na caixa de pesquisa à esquerda, no alto do blog.

(continua)

12 de novembro de 2011

"A Seca da Alma" - Dia 19/11, às 20h

   Após um bom período, já estava na hora de voltar: "A Seca da Alma" terá nova apresentação no próximo dia 19/11, às 20h, no Centro de Estudos Teatrais (CET), Parque da Cidade, em São José dos Campos.
   O trabalho utiliza a poesia - e, em particular, a métrica do cordel - para falar sobre a dura vida das pessoas atingidas pela seca no sertão.
   A trupe resolveu alterar o nome: agora o grupo se chama Cia Mundo Teatral.
   Compareçam!

18 de outubro de 2011

15 O - Arte política em SJC (Vídeo - parte 1)

Acabamos de postar no YouTube a primeira parte do vídeo com trechos da manifestação realizada em frente à Praça Afonso Pena, em 15/10/2011, unindo artistas e movimento estudantil - arte política, por uma cidade melhor:

19 de setembro de 2011

Ler e ver Boal, porque é bom - e necessário



Prezados,

    cheguei há pouco aqui em São José dos Campos e tinha que escrever sobre a maravilha que foi ver "Murro em Ponta de Faca", do grande Augusto Boal, no SESC Belenzinho - com um afiado elenco paranaense dirigido por Paulo José. Agradeço (muito!) ao pessoal do Portal Macunaíma, que indicou a excelente montagem. Valeu muito a pena, estou cada vez mais impregnado pela força do trabalho do Boal, tão bem apresentado nesse espetáculo. Confesso que fiquei impactado a ponto de não conseguir falar com os atores depois... mas é daquelas peças que a gente vem reverberando interna e externamente na viagem de volta, e depois.
    Embora cercado por gente querida do teatro, não tenho formação teatral (venho da música), mas Boal pra mim é uma porta de entrada - necessária, diga-se de passagem. Nos tempos atuais, impossível não bater cada vez mais forte a sensação de "cidadão da Grécia moderna" (feliz expressão da crítica publicada no Macunaíma) com vontade intensa de se manifestar a respeito de questões atuais e eternas, locais e universais. Percebo que estudar nossa História (não a dos livros didáticos) é essencial até mesmo para compreender nossa função enquanto artistas-cidadãos.
    No meio de tanta força cênica, um detalhe bonito da montagem é ver Maria lendo Eduardo Galeano - O Século do Vento, se não me engano (por coincidência, o primeiro livro dele que me chegou às mãos). Galeano tem tudo a ver com Boal. Ambos, presenças fortes e necessárias.
    A peça nos instiga e fortalece. E fortalece também a sensação de que, afinal, somos todos hermanos (lembro a canção de Atahualpa Yupanqui): cada qual con su camino, mas buscando a construção coletiva de um país e de um mundo melhores. Obrigado, atores e crítica, por tudo isso. É como dizem na peça: a gente se vê por aí, a gente se encontra, numa rua desconhecida que seja, mas se encontra...

MURRO EM PONTA DE FACA - Texto de Augusto Boal. Direção de Paulo José.
Com Abilio Ramos, Erica Migon, Gabriel Gorosito, Laura Haddad, Sidy Correa e Nena Inoue.