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17 de fevereiro de 2014

Sonho Assustado (um causo cantado, por P.R.Barja)

Sábado. Dia de dormir até mais tarde? Nem sempre. Acordei exatamente às 5h37, no meio de um sonho que parecia bastante real. Dessa vez resolvi pegar a ideia no laço. Fui até a cozinha e, na penumbra, rabisquei num rascunho qualquer um esboço da melodia simples que estava na cabeça. Aí pensei no sonho e foi aparecendo uma ideia de letra de música, o causo tomando forma... 



31 de janeiro de 2014

A POESIA NA CANÇÃO (ou “Há Poesia na Canção ?”)

(artigo publicado originalmente na edição de Março/2000 da Revista SINPRO CULTURA)

A poesia e a música têm andado de mãos dadas nos últimos 1000 anos – embora nos dias de hoje nem sempre seja fácil encontrar provas disso. Através dos meios de comunicação, temos sido bombardeados com produtos que, com alguma boa vontade, podem até ser classificados como música, mas certamente não podem ser confundidos com poesia.

Na Idade Média, havia compositores empenhados justamente em buscar a fusão perfeita entre poesia e música. Eram os trovadores, particularmente numerosos na França (a palavra trovador vem da língua francesa e significa “aquele que encontra”). Por exigir um elevado grau de instrução, o ofício dos trovadores era uma alquimia reservada a poucos – a grande maioria deles pertencia à nobreza.

Com sua poesia refinada, pode-se dizer que os trovadores criaram o que hoje se conhece como “canção de amor”. Seus poemas cantados também são um relato fascinante da vida na Idade Média. Além de cantar o amor, os trovadores se exercitavam na crítica de costumes (como nas peças satíricas do manuscrito Carmina Burana) e também se dedicavam à fé (as Cantigas de Santa Maria, conjunto de mais de 400 canções compostas no reinado de Alfonso X, relatam milagres atribuídos à Virgem, num pioneiro uso da música como marketing religioso).

Com o passar dos séculos, a música continuou presente na pena de escritores como Shakespeare, que compunha letras de canções para suas peças. Outros nomes importantes da literatura universal, como Garcia Lorca e Mário de Andrade, chamaram a atenção para a rica poesia encontrada nos cantos folclóricos de seus países. Assim, uma coisa parece certa: poetas gostam de música.

A ligação entre os poetas e a música pode ser comprovada pela frequência com que muitos chegam a lançar gravações recitando ou mesmo cantando acompanhados por músicos. É curioso, mas nem sempre funciona. Nesses casos, melhor que ouvir os autores é procurar gravações dos poemas declamados por atores, normalmente mais experientes em evidenciar a música interior de cada poema.

Os músicos também gostam de poesia. Maria Bethânia, aquela que talvez seja a maior intérprete da música popular brasileira, sempre incluiu em seus shows trechos de poemas (especialmente de Fernando Pessoa). Artistas como Bethânia dão valor literário ao canto: compreendem que música e poesia são formas complementares para expressar nossos sonhos e dramas.

No Brasil, talvez o maior caso de amor entre um poeta e a musa música seja o de Vinícius de Moraes. Vinícius, que teve o mestre Tom Jobim como parceiro, chegou inclusive a ser considerado um dos “músicos do século” em concurso promovido por uma revista brasileira no ano passado. Talvez esse tipo de confusão (Vinícius não era músico !) sirva para comprovar a simbiose às vezes conseguida entre música e poesia.

O fato é que uma característica fundamental da poesia é apresentar um ritmo próprio, uma cadência que pode ser percebida naturalmente quando a obra é lida em voz alta. Poesia tem tudo a ver com sonoridade. Em outras palavras, um poema sempre contém música. O inverso não é necessariamente verdadeiro: há mesmo canções que são monumentos de grande beleza sonora, embora compostas a partir de poesia pobre. Por outro lado, compor música a partir de boa poesia também não garante a qualidade da canção. Precisamos, aqui, fazer uma distinção entre a boa letra de música e a poesia na música. Claro, é uma distinção subjetiva; será que poderíamos estabelecer um critério para encontrar essa diferença? Proponho um exercício simples: recitar a letra da música. Se ainda houver ritmo, se a letra não perde a beleza e o interesse sem o auxílio da melodia, então estamos falando de poesia.

Não há forma ou movimento musical  privilegiado para a difusão da poesia: ela pode aparecer tanto nas canções de Kurt Weil quanto em rocks vigorosos como os cantados por Morrisey, o bardo inglês que liderou o grupo The Smiths nos anos oitenta, passando pelas sagas narrativas de Bob Dylan (agora Nobel, mas poeta desde sempre). Em Portugal, as cantoras Eugénia Melo e Castro e Mísia se empenham em resgatar a união entre poesia e música. A primeira chegou a gravar um CD dedicado à obra de Vinícius de Moraes, enquanto Mísia colocou música em poemas de mestres como Drummond e Fernando Pessoa, entre outros. No Brasil, a poesia pantaneira de Manoel de Barros já virou música nas vozes de Tetê Espíndola e Cátia de França.

Um belo exemplo de união entre poesia e música pode ser encontrado no disco sugestivamente o Zona de Fronteira, do trio João Bosco, Waly Salomão e Antônio Cícero. Também Adriana Calcanhoto já compôs a partir de poemas de autores variados. O grupo Secos & Molhados, porém, merece destaque: nem todos sabem que vários de seus sucessos eram “parcerias” com poetas famosos, de Manuel Bandeira a Oswald de Andrade.

Ainda hoje, podemos encontrar compositores que trabalham com extremo refinamento tanto a poesia quanto a música, na trilha dos trovadores medievais. Nesse sentido, há trinta anos Caetano Veloso é provavelmente o maior trovador brasileiro. Reconhecido como cantor por muitos, conhece poesia como poucos. Chico Buarque também domina a arte trovadoresca de combinar som e sentido, canto e poesia. Quanto aos compositores da nova geração, temos hoje Zeca Baleiro, Chico César e tantos outros que, se não são poetas, ao menos são bons letristas – o que já não é pouco. E temos Arnaldo Antunes, verdadeiro poeta pop. É, fazendo as contas, até que há bastante poesia na canção popular brasileira. Ainda bem.

- Paulo Barja

14 de dezembro de 2013

27 de agosto de 2013

Ela se chama...




Ana
ela se chama
mas no seu dia
fiz cantoria
para Maria
que eu nem sabia
mas existia
só que era...

Ana
que ora me engana
se finge
esfinge
diz que responde
pergunto "onde?"
então se esconde
por trás do nome
porém não some

não sei
se é inatingível
não sei
se isso é possível
sonhei
verso invisível
será?

mas Julia
que era Cecília
ou é Maria
ou Beatriz
olhou pra mim
então fiquei
feliz

Paulo R. Barja

18 de maio de 2013

aí sim

 
...e se não houver
outra opção?
Aí é que eu faço
canção!
 
(P.R.Barja)
 

22 de abril de 2013

Pelas tramas dessa vida

(adaptação de canção tradicional colombiana)

Eu canto porque desejo,
eu canto porque preciso:
o som se transforma em beijo
quando encontra o seu sorriso.
 
Saudade, meu bem, é fogo:
de longe, não vai passar.
Preciso te ver de novo:
só assim vou melhorar.
 
Às dez me bateu o sono,
às onze foi que eu dormi;
às duas da madrugada,
acordei pensando em ti!
 
Se a gente está com vontade
mas não pode se encontrar,
é só mandar pelo vento,
que o carinho vai chegar.
 
Cantando, mando um suspiro
com um abraço amarrado:
receba com muito amor,
desamarre com cuidado.
 
Se eu digo que já vou indo,
não pense que é despedida:
estamos pra sempre unidos
pelas tramas dessa vida.
 
Estamos pra sempre unidos
pelas tramas dessa vida.
(Paulo Barja)