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27 de maio de 2020

Gráficos da COVID19 no Brasil

A seguir, apresento diversos gráficos referentes ao período de 24/3 a 26/5 da COVID19 no Brasil. Todos estes gráficos foram por mim construídos apenas a partir dos dados oficiais. No entanto, nossa estimativa atual diz que o número real de casos em território nacional hoje pode ser nove vezes maior do que o indicado oficialmente, e o número real de óbitos pode ser quase o dobro do divulgado oficialmente. Vamos aos gráficos (tentei deixar os títulos autoexplicativos) :





     Este último dá algum alento: a letalidade parece estar começando o "caminho da descida" até um valor esperado em torno de 1%. Fazendo a projeção, dá para supor que a pandemia estará sob controle por aqui até final de julho. 
     Dois pontos a levar em consideração:  1) essa perspectiva parte da ideia de que o isolamento seja mantido ao longo de junho e julho, mesmo que em nível parcial (atividades nas escolas, nem pensar) ;  2) mesmo "sob controle", podemos chegar no final de julho ainda com centenas de mortes diárias, uma vez que os casos se arrastam pelo tempo (assim como os exames, que possuem uma "janela" às vezes de vários dias entre a realização e o resultado). 
Paulo Barja

12 de maio de 2020

Panorama da Pandemia (com foco no Brasil)


Algumas observações sobre a pandemia COVID19 no Brasil:

1) Em todos os países, espera-se uma curva com formato de sino para o número de casos diários;

2) Esse sino tende a ser simétrico; assim, quanto mais demora pra subir, mais demora pra descer;

3) Em vários países, temos BOA margem de segurança para prever, pois a curva de casos diários já está descendo;

4) Mas (e esse é 1 grande "mas"), na segunda semana de maio, a curva de casos diários no Brasil parece ainda estar subindo

5) Deste modo, ainda não dá pra saber exatamente quando desce ou quando "acaba". Se parar de subir agora, com 2 meses de COVID19 comprovadamente no Brasil, a tendência é que a situação esteja controlada no início de julho.

6) No entanto, nossa grande questão no momento é saber "até onde isso a COVID19 vai crescer e se espalhar aqui no Brasil?"

7) Minha dica (não é previsão, só dica mesmo) é olhar atentamente a curva dos EUA...

8) Estamos umas 3 semanas atrasados em relação aos EUA. Assim, quando começar a cair o contágio por lá, estará se aproximando também a redução aqui, mas com essas 3 semanas de atraso.

Há muitas diferenças entre os 2 países, no entanto:

1) Somos MELHORES do que eles em termos de Saúde Pública - O SUS aqui é BEM melhor que o sistema deles...!
2) Por outro lado, a chegada do frio nos prejudica (enquanto eles estão saindo da pior época em termos de clima, nós estamos chegando)

Sigamos atentos. Siga em casa o máximo de tempo possível.

Paulo Barja

27 de agosto de 2018

A TV e o recorte da realidade (apenas mais um exemplo)

     Almoço num restaurante self service do centro da cidade. Como em quase todo estabelecimento do tipo, há uma TV que fica ligada e, na hora do almoço, transmite um noticiário local.
     Num certo momento do noticiário, surge o velho truque: a tradicional matéria emotiva sobre uma pessoa da comunidade (normalmente criança ou idoso) que conseguiu uma vitória pessoal, uma conquista importante. Nem é preciso ver toda a reportagem para entender a motivação: manter motivados, dóceis e "operantes" os oprimidos (que veem o jornal nos self services do centro da cidade).
     Na matéria de hoje, conta-se a história do "seu Durval", que se aposentou pela EMBRAER e virou, vejam que lindo, um artista: pinta quadros sobre a natureza, com flores e pássaros sempre bem coloridos. "Seu Durval" explica que somente depois da aposentadoria conseguiu se dedicar a esta sua paixão, e agora faz exposições de suas obras em cidades da região.
     Os quadros são bem bonitos. O tom da matéria é de felicidade serena.

     Mas...

     O que o jornal teria a obrigação de mostrar (e que, no entanto, ficou bem escondido):
     i) Com a Reforma da Previdência (que o governo insiste em impor e a mídia é bem paga para apoiar), não haverá mais aposentados podendo dedicar-se à pintura, pois as pessoas agora terão que "trabalhar até morrer" (literalmente, na maioria dos casos);
     ii) Com a privatização da companhia em questão, muito em breve não haverá nem mesmo novos "Durvais" trabalhando, pois tudo sinaliza para a internacionalização da produção, com desemprego em massa de brasileiros.

     Essas coisas não são ditas, pois turvariam a tela, estragando a felicidade serena imposta pela TV.

Paulo Barja

26 de setembro de 2017

"A CIDADE FALA" - apresentação de uma proposta de estudo

Apresentamos aqui um resumo do trabalho apresentado no II Seminário de Estética Social da USP, acompanhado dos slides correspondentes à apresentação realizada no dia 22/set/2017, marcando o "lançamento" da pesquisa "A Cidade Fala":














15 de agosto de 2017

Ocupação Escolar e Liberdade de Expressão

Seminário apresentado por aluna do LabCom Univap revela a construção identitária a partir de produções textuais dos alunos que participaram das ocupações


     A aluna Ana Flávia Leite, da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas e Comunicação da UNIVAP que estudou as ocupações escolares em São José dos Campos com bolsa PIBIC, fez sua apresentação final hoje, em auditório do CEPLADE/UNIVAP.

A aluna Ana Flávia Leite, orientada pelo prof. Paulo Barja (UNIVAP)

     Ana realizou a análise das produções textuais de alunos que participaram das ocupações escolares no final de 2015, na Zona Sul da cidade de São José dos Campos, em protesto contra a proposta de reorganização escolar, que havia sido anunciada pelo governo de São Paulo sem prévio debate com alunos, famílias e professores. O trabalho analisou a construção identitária nos alunos a partir do processo de ocupação. As principais referências bibliográficas utilizadas pela pesquisadora no trabalho foram os livros “Escolas de Luta” (de Antonia Campos, Jonas Medeiros e Márcio Ribeiro) e “A Identidade Cultural da pós-modernidade”, de Stuart Hall. Entre as produções textuais coletivas analisadas, ganham destaque no trabalho os textos produzidos pelos alunos no formato da literatura de cordel, a partir das oficinas voluntárias realizadas pelo prof. Paulo Barja nas ocupações.

Antes da apresentação, a aluna entregou à banca exemplares do cordel
produzido pelos alunos durante a ocupação escolar

     Orientada pelo professor Paulo Roxo Barja, a aluna de jornalismo foi a primeira bolsista da área de Comunicação da UNIVAP no PIBIC. Foi muito elogiada pela banca, que teve as participações das professoras Drª Mirabel Cerqueira Rezende (UNIFESP) e Drª Juliana Campos Junqueira (UNESP).

Foi avaliada a construção identitária dos alunos a partir de suas produções nas redes sociais

     Os autores agradecem à banca avaliadora e também à Profª. Maria Aparecida Papali, ao diretor do Instituto de Pesquisa & Desenvolvimento (IPD/UNIVAP), prof. Leandro Raniero e à coordenadora do LabCom/Univap, Profª. Kátia Zanvettor Ferreira.



A apresentação seguiu as normas do PIBIC, com os slides produzidos em inglês

     Aluna e orientador preparam agora artigos a partir do relatório final do projeto, para futuras participações em congressos acadêmicos.

21 de julho de 2017

PAPEL DE JORNAL OU PAPELÃO? A Operação Midiática da Desocupação do Pinheirinho pelo Jornal “O Vale” (link para trabalho completo)

   A história recente de São José dos Campos é marcada pela desocupação do Pinheirinho, bairro irregular formado na Zona Sul da cidade que contava com aproximadamente 8000 moradores em 2012. A desocupação, no início de 2012, empregou mais de 2000 policiais militares e gerou polêmica na imprensa e na opinião pública. O presente trabalho analisa o tratamento dispensado pelo jornal local (“O Vale”) ao Pinheirinho, nos meses que antecederam a desocupação. Foram selecionadas matérias respeitando os critérios: i) área publicada igual ou superior a um terço da área impressa da página; e ii) presença de fotos na matéria. Os critérios levaram à seleção de três artigos, datados de agosto de 2011, outubro de 2011 e janeiro de 2012. A análise das matérias evidencia uma operação midiática de desocupação, iniciada antes da retirada dos moradores.
   Para o artigo completo publicado nos anais do InterCom Sudeste (jun/2017), clique AQUI.

30 de junho de 2017

Cordel-Notícia (30/6/17)

Ainda que sem periodicidade definida, iniciaremos aqui um exercício buscando aliar literatura e atitude cidadã. Trata-se de uma série de notícias comentadas sob a forma de "cordel-notícia". Eis a primeira edição...:


SEXTILHAS SUPREMAS

Eis o SUPREMO negócio
que eu ofereço a vocês:
um TRIBUNAL FEDERAL
inteirinho, de uma vez,
e vendido com desconto
só pra terminar o mês!

Não fiquem aí parados:
comprem logo, tá barato!
E eles aceitam de tudo:
jantar, caviar, até pato...
E com senador suspeito
chegam a tirar retrato!

Vocês ficarão felizes.
Só não esperem justiça:
isso é coisa trabalhosa
que neles só dá preguiça!
Melhor então ir à igreja
e rezar depois da missa...


SEXTILHAS SOBRE O AÉCIO

Temer volta - que absurdo! -
a ter o seu aliado
e capanga preferido,
podre Aécio, no senado.
O povo mal acredita:
fica assim abestalhado!

A imprensa foi na carreira
entrevistar o farsante,
mas encontrou tal poeira
na casa do meliante
que a entrevista mostrou-se
inviável nesse instante.

A assessora de Aécio
informa que há um porém
e que entrevistá-lo agora
é coisa que não convém:
- Quando ele enfim ficar sóbrio,
  fala com vocês, tá bem?

P.R.Barja

13 de fevereiro de 2017

Quem Paga Essa Conta?

(artigo de Oswaldo Almeida Jr e Paulo Roxo Barja)

     Não é novidade que os investimentos em arte e cultura sejam vistos, por boa parte dos gestores públicos, como dinheiro jogado fora. Os argumentos usuais são o de que haveria áreas também deficitárias em que o recurso seria mais importante e o de que dinheiro público não deve servir à manutenção de artistas que, “se fossem bons mesmo”, deveriam buscar sua subsistência no mercado. Há aqui, no entanto, um vício de origem. É comum que se veja o trabalho com cultura como algo importante para artistas e produtores, mas não para a população. Em outras palavras, há quem ignore o valor do trabalho artístico como ação voltada à comunidade e pense que a verba para cultura serve apenas para que os artistas paguem suas contas e “façam festas”. Pensando assim, caem no senso comum de indicar diversas áreas em que o recurso seria melhor aproveitado.

     No entanto, são raras as críticas a investimentos na área de desenvolvimento econômico. Os milhões investidos em parques tecnológicos ou a renúncia fiscal voltada à atração de empresas são vistos como investimento necessário e urgente. Mas esses recursos não beneficiam diretamente a população; assim como na área da cultura, vão para agentes que (espera-se) transformarão o recurso em resultados para o cidadão. Mesmo em áreas como Saúde, o recurso público é destinado a profissionais que, a partir disso, criam ações voltadas ao atendimento das pessoas. Assim, por que só os agentes culturais são vistos como “aproveitadores do dinheiro público”?

     Na Cultura, ao contrário do que ocorre na economia, os números de atendimento à população parecem não ter importância, mesmo com dados concretos a justificar os investimentos. Muitos gestores – e parte da sociedade – ignoram os resultados da ação cultural no desenvolvimento humano (algo intangível, subjetivo); assim, quando se fala em cortes no orçamento, começam cortando recursos da Cultura. Imagine agora o que aconteceria se as pessoas se recusassem a ouvir o relato de um amigo que defendesse o corte de verbas para Cultura, mas quisesse contar suas andanças pelos museus de Paris ou suas leituras mais recentes. Chato, né?

     Para avaliar a falta que as ações artísticas fariam no cotidiano de uma população, imaginem que por um dado período todos os cinemas e teatros fossem fechados e todos os shows e saraus proibidos, assim como as festas de cultura popular e as aulas de Arte nas escolas. Há quem defenda isto, “em nome da ordem e da produtividade”! Mas viver assim seria triste, e pouco humano...

     Felizmente, a arte dispensa autorizações para sua realização. Independentemente do poder público e da verba, a arte continuará existindo – e resistindo. Mas, sem recursos, a população ficará sem acesso à cultura produzida em sua comunidade. Sem recursos públicos, os resultados do trabalho artístico e cultural ficarão restritos a poucos privilegiados. E o povo ficará sujeito ao mínimo que o Estado estiver disposto a oferecer: o mínimo de renda, o mínimo de cultura, o mínimo de saúde. Cuidado.

2 de maio de 2015

RESPOSTA DE UM PROFESSOR à fala do senador (Cordel Joseense 56)

Brasília, 2015:
numa sessão do Senado
o “nobre” senador Serra
(há pouco tempo empossado)
produziu, ao microfone,
um discurso equivocado:

Foi se queixar, no plenário,
das horas-atividade
pagas para os professores
e bem justas, na verdade.
Professor trabalha muito:
negar isso é vã maldade!

No discurso, o senador
usou um termo insolente:
disse que os mestres ganhavam
só para “supostamente”
preparar as próprias aulas...
Senador, seja decente!

(faço aqui breve parênteses:
para estes versos fazer,
antes corrigi 100 provas,
pois esse era meu dever,
e fui depois, na internet,
o diário preencher)

O senador criticava
(falta alça em sua mala)
que o professor recebesse
40 horas... sua fala:
“10 horas-atividade,
SÓ 30 horas na sala!”

Porém, depois do discurso,
nenhum jornal registrou
a bronca que o senador
de professores levou;
uso então estas sextilhas
pra mostrar nosso valor.

“Prezado Senador Serra:
o senhor não foi eleito
pra bater em professor
nem negar nosso direito.
Mas, se quiser discutir,
sou professor: eu aceito.

Por sinal, sei que o senhor
também é nosso colega:
sei dos vídeos no YouTube
- quem correr ainda pega -
de aulas suas em campanha...
O senhor sabe e não nega.

Não vou questionar as aulas
nem os seus erros de conta,
pois o senhor, pelo visto,
nenhum erro em mim aponta.
O debate é sempre bom,
nunca é uma coisa tonta. 

O senhor falou de "custo":
professor tem custo, sim!
Senador também tem custo:
o senhor acha ruim?
Vamos debater agora
isso, tintim por tintim.

Neste primeiro bimestre,
corrigi (e ainda bem!)
trezentas e tantas provas
sem dever nada a ninguém.
Aulas? Posso assegurar
que dei muito mais de cem.

O senhor não se preocupe:
Não ache que é tão difícil...
Corrigi mais de trezentas
e dez listas de exercício.
Sei que, pro senhor também,
trabalhar é um doce vício...

De quantas sessões ao todo
o senhor participou
nessas últimas semanas,
no bimestre que passou?
E os projetos sociais,
afinal, quantos votou?

Na trilha do seu discurso,
não cabe fazer piadas:
precisamos discutir
as "horas não trabalhadas"
também aí no Congresso
- são verdades mal faladas...

Que tal se a gente parasse
de pagar os senadores
pelas promessas que fazem
sob a luz dos refletores
e a tal “meritocracia”
fosse aplicada aos senhores?

E, para não perder tempo,
eu também pergunto, então:
por que o senhor defendeu
essa terceirização
que ao nosso trabalho honesto
gera precarização?

Eu já estou até achando
que a tal terceirização
veio de outro senador
que em segundo turno NÃO
se elegeu e, num terceiro,
sonha ganhar a eleição...!

Quem já comprou prédio inteiro
conhece dinheiro vivo...
Senador: na Educação,
não diga “custo excessivo”
pois o preço da ignorância
é mais alto e permissivo.

Talvez mesmo os professores
ganhar melhor já pudessem,
se os senadores ganhassem
realmente o que merecem
e bem menos assessores
os políticos tivessem.

Deixo aqui no meu cordel
a modesta sugestão:
que descontem do salário
do “Senador-da-nação”
as horas-atividade
que trabalhadas não são.

P rezadíssimo político:
R espeito é muito importante.
B asta treinar; é possível
A vançar nisso bastante.
R esta só falar bem menos,
J ogando fora os venenos:
A gradeço nesse instante!
Paulo R. Barja

17 de novembro de 2014

RESPOSTA-MANIFESTO

EM RESPOSTA A UMA PROPOSTA FEITA A ARTISTAS LOCAIS
“Apresente-se de graça em nossa sede, fazemos divulgação”

      Considero absurdo e mesmo constrangedor o convite feito, uma vez que artistas precisam ser pagos pela Arte que fazem, até mesmo para manter a Saúde. Creio que isso seja simples de entender, principalmente por quem se diz disposto a trabalhar "pela humanização do atendimento". Pois bem: quando um artista é "convidado a trabalhar de graça" numa empresa que tem totais condições de pagar pelos serviços prestados, isso na verdade soa como "desumanização", na medida em que sucateia o valor do artista enquanto ser humano. 

      Esclareço que, antes de redigir esta pequena resposta, entrei em contato com diversos artistas, inclusive via redes sociais, e o entendimento geral foi este, o que motivou o envio da resposta (fiz essa consulta prévia a colegas para não incorrer no erro de um julgamento precipitado e descolado da realidade). 

      Informo adicionalmente que, em outros países onde tenho amigos artistas, há movimentos de conscientização junto a artistas para que NÃO aceitem este tipo de proposta. A motivação para o movimento coletivo de recusa é a seguinte: enquanto alguns têm outras fontes de renda e poderiam até se dar ao luxo de "trabalhar de graça", outros dependem exclusivamente do que recebem pelo seu trabalho artístico para sobreviver. 

      Entendo que artistas precisam ser bem pagos por quem pode pagar justamente para que possam se dedicar, em outros momentos, a apresentações beneficentes e/ou voluntárias junto a instituições que dependam exclusivamente de esforços coletivos – e, estes sim, humanitários – para subsistência. 

      No entanto, creio que nossa conduta diante desse tipo de situação deve ser fruto de amadurecimento coletivo e troca de ideias (como tudo, sempre). Assim, tomo a liberdade de sugerir uma contraproposta. Tenho quase certeza de que artistas da cidade topariam fazer apresentações por valores, digamos, a partir de R$400 por apresentação (dependendo, naturalmente, da configuração artística - solo ou grupo). Em troca, divulgariam o local e os serviços da empresa contratante. Creio que isso traria transparência ao relacionamento e, sem dúvida, benefícios à imagem da empresa. 

      Uma proposta alternativa (talvez não para esta empresa, mas para outras, mais humildes) seria, ainda, que a empresa prestasse serviços gratuitos aos artistas e, a cada valor X (a definir), o artista fizesse uma apresentação em contrapartida. 

      Para citar um caso recente que mobilizou a sociedade brasileira: nenhum de nós é Deus. Nenhum de nós está acima do outro. Todos precisamos batalhar (com o suor de cada dia) pelo alimento, moradia, saúde e – sempre – respeito.

      Sigamos na trilha da construção de um novo país a cada dia, em cada atitude. 

      Saudações,
P. R. Barja

17 de outubro de 2014

Brevíssima reflexão sobre o jornalismo brasileiro atual

(não apenas em época de eleição)


     Quanto ao comportamento dos jornais brasileiros (a Veja também), o (grande) jornalista Aloysio Biondi destaca uma espécie de sucateamento no jornalismo brasileiro entre final de 98 e início de 99, coincidindo (mas será que existem coincidências?) com a privatização das telecomunicações. A partir daí, títulos de artigos de articulistas como o próprio Biondi eram alterados ou então maquiados, com as informações relevantes sendo jogadas para escanteio (retiradas do título e do lead), entre outros absurdos que podem até ser hilários, dependendo do contexto.

     De lá para cá, em resumo, temos espaços“oficiais” para isso ou aquilo na mídia, mas também há um monte de opiniões e matérias simplesmente proibidas pelo jornal (um exemplo é o eterno tema-tabu do filho de FHC com a jornalista da Globo).

     Inevitável uma certa nostalgia do que muitos de nós não tivemos: quem curte Nelson Rodrigues, por exemplo, pode verificar quantas vezes as crônicas dele (inclusive as esportivas) já enveredaram por política, mesmo no Globo... sim, claro, ele não era “de esquerda” (haha) - mas o respeito não escolhia página, se é que me entendem.

Paulo R. Barja

1 de setembro de 2014

Soneto Eleitoral (candidatura de ocasião)


Se a sigla significasse
o que diz que significa,
a coisa talvez mudasse;
pior do que está não fica.

Legenda? Pra que legenda?
O discurso não é sério.
A "ética" vive à venda
ou está no cemitério.

Sigla certa, ideia incerta:
muda-se de opinião
quando o cinto mais aperta.

Democracia? Quem dera:
"vale tudo" de eleição.
Quanto ao eleitor... já era!

P.R.Barja

24 de agosto de 2014

As Duas Portas (crônica)


Outro dia fui levar minha filha a um encontro com colegas de escola. Não conhecia o endereço, mas imaginei que fosse na região “mais nobre” da cidade. Esse “mais nobre” vai assim mesmo, entre parênteses, por se tratar de expressão questionável, já que utilizada como eufemismo para outra expressão, menos elegante: “mais cara”.
Enfim: era lá mesmo. Estacionei e, ao me aproximar da entrada, a surpresa: havia duas rampas diferentes conduzindo a duas portas diferentes. Aliás, corrijo-me: não eram portas e sim pesados portões metálicos. No alto de cada um, inscrições que explicavam tudo: de um lado, “moradores”. Do outro, “visitantes”. Naturalmente, logo ficou claro para mim que a segunda palavra era outro eufemismo: por “visitantes”, entenda-se “todos os demais”, “os outros” (ou, em última análise e para lembrar de um episódio pessoal bastante chato, “forasteiros”).
Do lado de dentro, seguranças observavam atentamente os candidatos à entrada na fortaleza (juro que estou me segurando para não poluir o texto inteiro com aspas). Além dos seguranças, claro, as indefectíveis câmeras de vídeo. Até aí, vocês podem argumentar que são questões de segurança e tal.    Mas o problema todo é que as duas portas ficam exatamente uma ao lado da outra, sem nenhuma divisória, ou seja: a pessoa que subiu a rampa – seja da esquerda ou da direita – chegará às duas portas ao mesmo tempo. Pode-se inclusive imaginar facilmente a situação de um morador subindo por um lado e um visitante (seguro as aspas) de outro, chegando ambos, ao mesmo tempo, diante das mesmas portas.
Pergunto, do alto da minha humilde ignorância: em que medida a existência de duas portas “etiquetadas” (não aguentei e coloquei as aspas agora) garante a segurança de quem quer que seja?
Voltei para casa incomodado com aquilo. Para mim, só há uma explicação: não se trata de segurança e sim de discriminar, separar artificialmente uns dos outros. O caminho é praticamente o mesmo, porém “vocês entram por aqui; os demais, por ali”.
A situação nos remete aos aeroportos europeus, em que a entrada num país ocorre a partir de filas separadas para cidadãos europeus e “os outros”. Embora questionável, pode-se argumentar que neste caso trata-se de protocolos diferentes, envolvendo consulta a documentos diferentes – e que a entrada ocorre por guichês diferentes. No caso do prédio VIP (sem aspas), a cabine é única: as mesmas pessoas administram a entrada pelos dois portões. Além disso, nenhum documento foi pedido para mim: fui julgado, creio, simplesmente pela aparência.
O portão dos visitantes abriu-se para mim. Entrei e imediatamente andei um metro para o lado, de modo que um segundo depois de entrar eu já seguia a trilha exata dos moradores.
Confesso que muitas vezes não consigo compreender coisas simples e me sinto meio burro. Foi o que senti ali, ao estranhar algo que para a maioria das pessoas talvez já seja natural.
Meu questionamento: até que ponto é natural encarar este tipo de separação como algo natural?

P.R.Barja

16 de julho de 2014

Vida em vão? Não!


Que mundo estranho esse:
um pintor passa a vida ouvindo que "não vale nada" (e é tratado como louco);
depois que morre, um quadro seu passa a valer mais de 80 milhões de dólares.
O contrário já seria melhor...
(P.R.Barja)

17 de fevereiro de 2014

Multas e Decibéis - Uma indústria lucrativa


   Há mais de 10 anos, diversos trabalhos de mestrado orientados por docentes da Bioengenharia Univap têm pesquisado a questão dos ruídos em diversos ambientes, principalmente clínicas e hospitais. Assim, podemos afirmar com segurança que, há mais de 10 anos (pelo menos), estabelecimentos do Brasil e da Espanha convivem 24h por dia com níveis de pressão sonora (NPS) que excedem em muito os 45 decibéis (dB). O próprio jornal local, em matéria de 2003, apontava regiões da cidade onde o NPS alcançava o patamar de 80dB.
   As informações acima são essenciais para que se compreenda o que há por trás da informação publicada na matéria do jornal O Vale, em 16/02/2014, conforme reprodução abaixo:

("O Vale", 16/02/2014)
   Multas estão sendo aplicadas com base na "Lei do Silêncio" joseense, que define "45dB" como valor limite à noite (ver detalhes em: "São José regulamenta lei do silêncio..."). Claro, todos concordamos com a necessidade de limites quanto à produção de ruído (eterno tema de estudos de muita gente boa). No entanto, 45dB à noite parece irreal: anos atrás, estudos nossos mostraram que o choro de uma criança com menos de um ano de idade pode atingir (facilmente) o nível de 90dB à distância de 2 metros. 
   Pergunto: aplicarão a Lei do Silêncio diretamente aos recém nascidos? Ou as mães terão que pagar a multa?
Paulo Barja

15 de janeiro de 2014

Estatística & Cidadania (III) - Analise, em vez de desprezar os dados



   Em vez de desprezar os dados, devemos sempre exercitar a análise crítica. Não se pode realizar um levantamento estatístico "querendo muito provar que se está certo" porque, em última análise, isso pode levar pessoas a conclusões bastante equivocadas. 
   Segue um exemplo de duas notícias (divulgadas nesta semana, em sítios da internet e imprensa falada e escrita) e duas leituras dos mesmos dados:

Informações:
1) Desemprego cai para 5,3% em agosto
2) Bolsa Família passa de 3.583.000 famílias assistidas em 2003 para 13.751.000 em 2013

Interpretações:
1) Gente adepta do "quanto pior, melhor" tem reclamado por aí contra esses dados. A acusação: estas seriam notícias contraditórias, pois o aumento de bolsas seria tradução do aumento do desemprego. Assim, estes "opositores das notícias" concluem que "os dados não são confiáveis e ao menos um deles deve ser ser "engodo" (sim, foi essa a palavra que li).
2) Bem mais simples: o nome disso é INCLUSÃO SOCIAL. Temos mais pessoas empregadas e menos pessoas alijadas da sociedade.

Discussão:
Antes de mais nada, é bom dizer que as duas notícias estão associadas ao conceito de derivada, importantíssimo em Cálculo e que representa a taxa de variação.
Por definição, a inflação é a taxa de variação do preço ao longo do tempo*. Assim, "inflação zero" obviamente não significa nada de graça (ah, quem dera...!), mas simplesmente quer dizer que não ocorreu variação de preço no intervalo de tempo considerado.
Já sobre o número de famílias atendidas num programa, uma informação importante diz respeito, também, à variação: se o programa foi mantido, ampliado ou reduzido ao longo da década (a notícia se refere ao período 2003-2013).
   Como o número de atendidos em 2013 foi maior do que o atendido em 2003, temos o que se chama de derivada positiva: ampliação do programa ao longo da década.
   Defender a tese do "engodo" é ignorar uma diferença fundamental na escala de tempo dos dados...! Vejamos:
- A notícia 1 refere-se a uma escala MENSAL
- A notícia 2 refere-se a UMA DÉCADA.

Sempre há quem goste de ajustar os dados à sua própria visão das coisas. Chega-se ao cúmulo de sugerir desprezar os dados...! Nas nossas aulas de Estatística aprenderemos a NÃO desprezar os dados e fazer, SIM, análise crítica. Abraços!

Paulo Barja

* derivada negativa, em inflação, significa redução de preços - a chamada DEFLAÇÃO. É algo particularmente comum quando se trata de produtos agrícolas entrando em fase de maior produção: "o preço do tomate caiu 20%" e assim por diante. Tentem comprar morango em julho e em dezembro e avaliem se há ou não diferença no preço...