Mostrando postagens com marcador Escola Sem Partido. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Escola Sem Partido. Mostrar todas as postagens

5 de dezembro de 2017

Em Nome da Cidadania

(a propósito da apreciação de projeto referente à proposta de "escola sem partido" em São José dos Campos)

     Sou homem, branco, católico, classe média, heterossexual; nunca passei fome e sempre tive onde morar. Sou maioria? Não: combinadas, essas características formam um subgrupo da sociedade – o subgrupo dos privilegiados, ou seja, dos que acessam as melhores opções de trabalho, independentemente de mérito. Mas, nesse contexto de vantagem competitiva (na verdade, injustiça estrutural), por que tantos com perfil assim mostram tanta dificuldade em abrir espaço para os demais? Impor uma visão de mundo oriunda de privilégios seria uma injustiça flagrante.
     Sou homem – nessa condição, reconheço o machismo da sociedade atual; é um tipo de injustiça que deve envergonhar a todos e precisa ser superado, em nome de uma convivência mais harmoniosa.
     Sou branco – assim, preciso saber do ponto de vista dos negros, secularmente oprimidos no Brasil. Mais que falar, preciso ouvir, para que superemos as diferenças ainda existentes.
     Sou católico – por isso, é importante que minha filha tenha acesso à Umbanda, ao Espiritismo, ao Budismo e às outras religiões na escola, para aprender a respeitar a diversidade.
     Sou de classe média – preciso então estar atento às demandas sociais, para ajudar o país a superar a desigualdade.
     Sou heterossexual – mas seria um monstro se desrespeitasse o direito de todo e qualquer indivíduo para viver sua sexualidade da forma que lhe for mais conveniente.
    Ao condenar uma opção diferente das minhas, estaria violando a própria noção de humanidade. Como pai, devo respeitar a autoridade dos professores, que devem trabalhar com plena liberdade. Como professor, preciso garantir que alunos jamais reproduzam as injustiças de que estamos fartos. Como cidadão, exijo o direito à diversidade.
     Por isso, pela cidadania, sou contra a “escola sem partido”.

Paulo Roxo Barja

19 de agosto de 2017

Vitória da Cidadania em São José dos Campos

     Em São José dos Campos, os últimos dias foram de debate sobre questões ligadas à cidadania. Na terça (15/08), a Câmara Municipal foi sede de um embate a respeito da proposta de “Escola Sem Partido”, apresentada por setores contrários ao aprendizado de uma visão crítica da História nas escolas. Enquanto educadores e ativistas contrários à proposta concentraram-se na Câmara para o debate que ocorreria, integrantes e simpatizantes da proposta “Escola Sem Partido” vieram da Praça Afonso Pena até a Câmara. O debate acabou ocorrendo fora do plenário, com enfrentamento entre os manifestantes. Em menor número, os defensores da proposta de “Escola Sem Partido” foram recuando até a porta de entrada, dispersando-se a seguir, enquanto o presidente da Câmara encerrou a sessão alegando falta de segurança.
     Os defensores da “Escola Sem Partido” dizem querer evitar a “propaganda comunista” nas escolas. Entre os professores, em sua maioria, contrários à proposta, entende-se que esta representaria uma censura ao trabalho do educador. Alega-se ainda que a proposta implicaria, ao contrário do que seus defensores afirmam, numa escola COM partido, porém sem espaço para a análise crítica, essencial no ensino e aprendizagem principalmente de História e Geografia.

Audiência pública na UNIVAP
     Já na quarta-feira (16/8), a UNIVAP (Unidade Castejón) sediou audiência pública sobre o Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos (SP). O evento foi particularmente importante porque, na semana anterior, a audiência ocorrida sobre o mesmo tema no campus Baixada Santista da UNIFESP havia sido conturbada, com a presença de mais de 90 policiais militares fardados e inicialmente armados, em atitude considerada opressora e que motivou inclusive uma nota de repúdio publicada pela ADUNIFESP.
     Na UNIVAP, mesmo com auditório lotado, a audiência transcorreu pacificamente, conforme atestaram participantes do evento. Segundo Ana Carla Pinto, “foi muito bom ver o auditório mobilizado, as contribuições foram bem pertinentes”. Francisco Roxo, também presente ao evento, elogiou o incentivo à participação popular, mas lamentou a escassez de tempo para discussão. O sociólogo Moacyr Pinto considerou a audiência “maravilhosa, com a presença dos mais variados setores da sociedade”; segundo ele, ficou claro que era um “encontro democrático sobre Direitos Humanos, sem espaço para o fascismo.”
     A professora Paula Carnevale (UNIVAP) destacou a presença e jovens e participantes de movimentos sociais, comentando ainda que a participação da polícia foi construtiva e propositiva. Carnevale, porém, alerta para o fato de que ainda é necessário avanço quanto ao estabelecimento de formas claras para incorporação das sugestões apresentadas pela população ao documento previamente elaborado.
     Tudo somado, fica a conclusão de que o diálogo é sempre o melhor caminho para exercitar a cidadania, e toda construção deve levar em conta o respeito à diversidade de opiniões – para que cada pessoa possa livremente tomar partido em relação aos temas em debate.

Paulo R. Barja