6 de setembro de 2011

A Vida é a Arte do Encontro (Festivale 2011)

  A coisa mais bonita e importante da Vida são esses momentos fantásticos de encontro e compartilhamento: arte, afeto e generosidade, nessa busca pela construção de um mundo melhor. Foi uma grande alegria receber a Cia Buraco d´Oráculo e a peça "Ser Tão Ser" aqui em São José dos Campos. Disse muito pra gente, nós que estamos estudando pra fazer essa ponte entre a Seca da Alma e a Seca do Sertão. E, pra lidar com isso, só mesmo convocando a Palavra e a Música, o Verso e a Voz...

Irmanados: contra a Seca da Alma, ARTE NA RUA!
Na Rodoviária Velha de São José, arando novos Campos para a Arte

  Que BOM poder encontrar, falar poesia e cantar junto com Edmilson Santini, Santos Chagas e o pessoal do Buraco D´Oráculo!

Cantando para celebrar o tempo-espaço público do encontro

  Com direito a cantar "Asa Branca" na Rodoviária Velha, bem em frente ao Banhado - área de proteção ambiental de São José dos Campos para a qual estamos chamando a atenção através da poesia de cordel.

Parceria que flui, natural... Edmilson e Santos Chagas não se viam há "uns 20 anos".
O melhor da Arte é permitir esses (re)encontros. Coisa pra ser celebrada mesmo.

  A Vida é (mesmo) maior do que a arte. E na Vida, como na Arte, acredito no afeto como força revolucionária.


"Eu te asseguro: não chore não, viu?"

   A Vida é (mesmo) a arte do encontro, já dizia o poeta - e isso é verdade.

RJ, SJC e Curitiba: Edmilson Santini, Paulo Barja e Santos Chagas

  Poder receber Edmilson e Santos Chagas - e interagir com esses caras - é uma das maiores alegrias que esta cidade podia ter dado a esse cordelista feliz. 
 

  Depois de tanta vivência energizante, o papo inda foi longe... fazendo bater o sentimento de inauguração de uma parceria múltipla (desejo imenso) dessas que dá sentido ao existir.

"Vida é pra celebrar!"

5 de setembro de 2011

HISTÓRIAS DO CINE-TEATRO

   Essa postagem pretende ser um gesto afetivo pela preservação da vocação histórica do Cine-Teatro Benedito Alves. Todos as pessoas que já se apresentaram no Cine-Teatro estão convidadas a deixar aqui um relato sobre alguma vivência importante que tiveram no Cine-Teatro.
   Cada relato recebido será publicado como comentário a esta postagem, e depois podemos organizar uma leitura coletiva desses relatos afetivos.
   Até o momento, já temos  13  relatos:
1) Wallace Puosso
2) Karina Muller
3) Sônia Gabriel
4) Eduardo Rennó
5) Edson Gory
6) Andréia Barros
7) Wagner Moloch
8) Kardec Gonzaga
9) Julio Saggin
10) Eliete Santos
11) Eva Sielawa
12) Cláudio Mendel
13) Santos Chagas

   Compartilhe também seu relato!
Saudações,
P.Barja

4 de setembro de 2011

Vídeos no YouTube


   Segue ligação direta para o canal de vídeos "PRBarja" no YouTube, onde aos poucos estão sendo disponibilizados vídeos de apresentações (Cordéis Joseenses, BãoCantá e trabalhos diversos):

1 de setembro de 2011

Setembro

Setembro começou engajado por aqui:

- quinta à tarde, ato dos estudantes joseenses na Praça Afonso Pena contra o aumento abusivo dos políticos locais; em frente à Câmara, a moçada se juntou aos servidores municipais, em protesto contra o plano de carreira proposto pela prefeitura, que retira direitos dos trabalhadores;

- à noite, logo após a abertura do Festivale, ato na frente do Cine Teatro Benedito Alves, contra a proposta da prefeitura de, após sucatear o teatro, passá-lo para a iniciativa privada.


Vários artistas passaram por lá - e a poesia esteve presente: Reginaldo & Zenilda, Cordéis Joseenses e a palavra utilitária do grande Moacyr Pinto, cujo poema "A São José do Mané" foi lido, ao megafone e à luz de velas, na escada do Cine Teatro.


"Todos juntos, somos fortes"

31 de agosto de 2011

Diário de um processo (11) - Teatro-cordel

(...)

   Quebro conscientemente a ordem cronológica deste "Diário de Processo" para divulgar o primeiro vídeo da "Seca da Alma" que postamos no YouTube:


   O vídeo é só do começo da peça (tal como apresentada em 26/08/2011), mas traz um exemplo do tipo de trabalho que queremos fazer, inserindo o "teatro-jornal" na apresentação, para estimular o pensamento crítico.
   Viva Augusto Boal!

Frase


Se a ignorância é uma realidade e a sabedoria uma utopia, partamos logo em busca da utopia

29 de agosto de 2011

Diário de um processo (10) - Teatro-cordel

(...)

   Logo após a apresentação do final de julho, finalizei um prólogo para a peça, divulgado em duas partes no blog Cordéis Joseenses:

 http://www.cordeisjoseenses.blogspot.com/2011/07/teatro-cordel-prologo-parte-i.html
http://www.cordeisjoseenses.blogspot.com/2011/08/teatro-cordel-prologo-parte-ii.html

   No mês de agosto, uma boa parte das reuniões teve que ser feita aqui no prédio, pois eu não tinha como ir pra rua logo após a cirurgia. O pessoal deu um apoio muito bom nessa etapa - descobri que nossos encontros de trabalho têm potencial energizante.

Reunião de trabalho no salão do prédio

   Ainda em agosto, avançaram nossos papos sobre teatro-jornal. Chegamos à conclusão de que seria bom começar a experimentar essa metodologia em apresentações, principalmente em espaços públicos.

   Também avançamos na pesquisa sobre filmes ligados ao nosso universo de interesse para este trabalho...

(continua)

28 de agosto de 2011

Parabéns a você...

... nesta data querida, Sônia Gabriel!

   Como já te disse, desejo que continue nos ajudando a saber mais da terra pra viver mais perto do céu.
   Afinal, o céu começa na terra - como diria o monge budista das histórias que te mandei, e que compartilho aqui para quem mais chegar:

(deixo aqui a ligação pro sítio da Sônia, pois vale uma visitinha lá, meu povo!)

27 de agosto de 2011

Diário de um processo (9) - Teatro-cordel

   (...)

   Na Mostra Urbana de Teatro do Espaço Cultural Flávio Craveiro, foram experimentadas diversas mudanças em relação à estreia:
i) As notícias/dados do IBGE passaram para o início da apresentação (antes ficavam no encerramento);
ii) Escrevi mais um trecho de narrativa em cordel para a parte final da apresentação, falando da viagem que muitos fizeram para "o Sul" (aí compreendidos todos os Estados que ficam "ao Sul do Nordeste");
iii) Para trabalhar a naturalidade da narrativa, sugerimos às moças a realização de atividades ligadas à vida no campo, durante a narração. Mari e Sílvia propuseram trabalhar com milho e mandioca (culturas muito significativas no sertão);

   A recepção foi boa, dizem (pena que não pude estar presente, por conta da cirurgia). Mas, claro: de lá pra cá, várias outras ideias vieram ganhando corpo...


   O grupo gostou da ideia de manter a performance "A Seca da Alma" no repertório, para apresentações curtas, enquanto continuamos os estudos para a criação de uma peça teatral mais longa, onde poderemos aprofundar a abordagem dos temas de interesse - história do Brasil (a que não aparece nos livros), migração e preconceito, entre outros.
   Na sequência dos estudos, bom deixar registrada a relevância dos papos com Antonio Carlos Guimarães, sociólogo e professor da Univap, abordando temas como as diferentes visões da História do Brasil. Um exemplo particularmente relevante para a gente é o da Revolução de 1932, que (falando muito simplificadamente aqui) em São Paulo é muitas vezes apresentada como uma revolução “libertária”, contra ditadura e coronelismos. Enquanto isso, a visão nordestina sobre o mesmo fato histórico é bastante diferente: o movimento paulista é visto como um movimento que visa a retomada dos privilégios da oligarquia paulista, sempre aferrada ao poder. Sobre esse tema específico, encontramos um pequeno tesouro no livro “História do Brasil em Cordel”, de Mark Currain (EDUSP, 2001). O livro é interessante por ter sido escrito por um historiador norte-americano, que por sua origem está naturalmente desvinculado de uma eventual visão “nortista” ou “sulista” do Brasil (escrevo assim lembrando que os próprios brasileiros adotaram por muito tempo essa divisão simplista Norte/Sul, incluindo todo o Nordeste no primeiro e todo o Sudeste no segundo).

(continua)

Utilidade pública: alguns dados sobre São José dos Campos

   Alguns dados atualizados (São José dos Campos, agosto de 2011):

- Salário do prefeito (Eduardo Cury, PSDB): acaba de ser aprovado aumento na Câmara Municipal; o novo valor supera R$19mil (+ extras)

- Salário dos vereadores: acaba de ser aprovado aumento na Câmara Municipal; o novo valor fica em torno de R$13mil (+ extras)

   Obs. importante: os "extras" chegam a quase R$24mil.

   A única votação realizada na sessão de 25/8/2011 na Câmara Municipal joseense definia quem era a favor do aumento do salário dos vereadores (o aumento do prefeito já havia sido autorizado pela mesma Câmara). 
   Segue o resultado da votação (toda a bancada do prefeito Eduardo Cury apoiou o aumento):

(Fonte: jornal "O Vale", 26/08/2011, S.J.Campos)

- Estimativa: numa média de 10 sessões de trabalho por mês, cada "dia trabalhado" de um vereador custa aos cofres públicos mais de R$1000

- Jornada de trabalho dos vereadores: em 25/08/2011, a sessão na Câmara Municipal teve apenas 5 minutos (das 18h45 às 18h50)

- Número de vereadores: a Câmara admite que estuda o aumento do número de vereadores, o que facilitaria a reeleição

* Todos os comentários enviados serão publicados neste blog.

25 de agosto de 2011

Abertura das "Noites em Processo"

Debate após a estreia do trabalho, lá mesmo no CET (jun/2011)

   Desde que foi trabalhar no Centro de Estudos Teatrais (CET), Wangy Alves está movimentando o espaço de uma forma bonita, incentivando a interação de artistas locais, estudantes e demais interessados na criação artística. Só por isso, já merece nosso aplauso e consideração - o trabalho dele na Cia Velhus Novatus também se depura e evolui com o tempo, vale a pena acompanhar.
   Hoje à noite (20h) ocorre a abertura da programação Noites em Processo, lá no CET, com a apresentação da performance teatral A Seca da Alma, que estamos conduzindo com a Cia Independente de Teatro:
 

23 de agosto de 2011

Política pública, iniciativa privada, debate aberto

   O Cine-Teatro Benedito Alves, em São José dos Campos, está num dos vários tópicos da Carta Aberta entregue por artistas da cidade a representantes da Prefeitura Municipal, Fundação Cultural Cassiano Ricardo e Câmara Municipal em novembro de 2010.
   De acordo com matérias recentemente veiculadas na imprensa, o projeto anunciado pela prefeitura neste mês de agosto/2011 para remodelamento do centro da cidade inclui a entrega do Cine-Teatro à iniciativa privada, com a possível transformação num centro comercial.
   Dada a relevância (histórica e até simbólica) do Cine-Teatro dentro de nossas discussões sobre Política Pública na área de Cultura, estou disponibilizando esta postagem para fomentar o debate sobre o tema também aqui na rede - e um debate público, aberto a todo e qualquer cidadão que queira se manifestar. 
   Escrevam! Todos os comentários serão publicados. Periodicamente atualizarei essa mesma postagem (para facilitar a consulta) com as notícias mais recentes veiculadas na imprensa sobre o tema.

PARA SABER MAIS:

18 de agosto de 2011

CARTA ABERTA - Sobre LIF e Fundo Municipal

(enviado em 19/08/2011 a membros do Conselho Deliberativo da FCCR)

Prezados conselheiros/secretaria/colegas artistas,

   Como cidadão e artista, defendo a proposta apresentada por Jacqueline Baumgratz, suplente do Conselho Deliberavo da Fundação Cultural Cassiano Ricardo: mais urgente que discutir detalhes da LIF é criar imediatamente o Fundo Municipal para Arte e Cultura (FMAC).
   Propomos, artistas e cidadão, e há anos, a criação do FMAC, por ser o mecanismo mais adequado para o incentivo à Cultura em nosso município (como em tantos outros que já utilizam com sucesso este mecanismo). Porque o FMAC permite a expressão livre, independente de qualquer exigência ou limitação eventualmente imposta pela iniciativa privada.
   É importante deixar claro que não defendo aqui "o benefício da classe artística". A reivindicação pelo FMAC é amplamente respaldada pelo povo de nossa cidade - apoio registrado inclusive através de abaixo-assinado. E a voz do povo não pode ser ignorada.
   Imagino que a comissão reunida para discutir a LIF esteja imbuída do melhor espírito de cidadania, de incentivo (não apenas "fiscal") à cultura. Assim, proponho que esta comissão, os conselheiros e a presidência da Fundação Cultural encampem e apoiem a criação do Fundo Municipal.
   Aqueles que ainda desejam saber um pouco mais sobre a diferença entre LIF e FMAC podem consultar o link:
 
http://culturaemmovimento-sjcampos.blogspot.com/2010/12/cordel-cultura-pra-todo-mundo-de-paulo.html
(esperamos que a redação esteja clara; as 800 pessoas que receberam cópia impressa na Praça Afonso Pena em dezembro passado entenderam o recado)
   Mais importante (e talvez até mais esclarecedor) é consultar as centenas de cidades de todo o Brasil que adotaram o modelo de Fundo Municipal para Arte e Cultura.
   Cidades administradas sob diferentes bandeiras partidárias/políticas.
   A verdade é as experiências verificadas nestes municípios provam que o modelo "LIF" não tem sido nem remotamente tão eficaz quanto o modelo "Fundo Municipal" no incentivo à Cultura.
   Nossa cidade não pode (mais) perder tempo: avancemos rumo ao nosso tempo. É mais que hora de São José dos Campos ter um Fundo Municipal para Arte e Cultura.
   Atenciosamente,
   Paulo Barja, cidadão joseense.

17 de agosto de 2011

Paradoxo

às vezes
fecha-se um olho
para  ver  melhor

Diário de um processo (8) - Teatro-cordel

   (...)
   No mês de julho, muita coisa aconteceu. Continuamos pesquisando histórias e depoimentos de nordestinos que vieram pro estado de SP. Histórias que de alguma forma se conectam umas às outras, seja por conta das dificuldades encontradas (entre elas, o preconceito dos que nasceram por aqui), seja por causa da vontade geral que esses migrantes manifestam: é quase unânime a saudade rasgada e o desejo de voltar.
   Ainda em julho, participei do XV Congresso Brasileiro de Folclore, apresentando os Cordéis Joseenses nos Grupos de Trabalho de Música e Literatura Popular. Foi fantástico o aprendizado e a troca de ideias com gente boa de todo o Brasil, ao longo do Congresso.
   Paralelamente ao Congresso, pudemos acompanhar boa parte do Revelando SP, evento que traz anualmente, ao Parque da Cidade de São José dos Campos, manifestações da cultura popular do Vale do Paraíba. No fim de semana de encerramento, apresentei os Cordéis Joseenses no estande do Projeto Santo de Casa / Figureiros, uma iniciativa importante de gente boa da nossa terra como Sônia Gabriel e Pérsila, entre tantos outros.
   Infelizmente, foi nesse fim de semana que surgiu meu problema no olho direito, depois diagnosticado como ruptura/descolamento grave da retina. Dia 22, passei por uma cirurgia de emergência com tempo de recuperação previsto para dois (longos) meses...
   Mas a vida continua e, na semana seguinte, teríamos nossa segunda apresentação: na Mostra Urbana de Teatro do Espaço Cultural Flávio Craveiro...

Cartaz da segunda apresentação de "A Seca da Alma"
(foto de P.R.Barja; na foto: Anne Karoline)
(continua)

15 de agosto de 2011

Comer o pão (um soneto)

(um soneto escrito em 2002 e retomado em 2008, em homenagem ao pão - na minha modesta opinião, uma das 10 melhores invenções da história da humanidade; faz todo sentido que seja um elemento simbólico também)


Comer o pão com todos os sentidos
Usar as mãos para partir a massa
Ouvir a casca que se despedaça
Ao desnudar o interior macio

Comer lambendo-se a cada mordida
Gozar o aroma, sentir a textura
Sorver o instante de delícia pura
Comer o pão como quem bebe a vida

Comer o pão estando inteiro ali
Provar seu gosto e desfrutá-lo em si
Compreender a inteira sensação

Comer olhando, com calma e tesão
Unir-se a ele numa comunhão
Tocar, entrar, fundir, comer o pão

P.R.Barja

Isabel

(um Dia dos Pais simples e especial: cantoria com Bebel... colírios com a Bebel... vivências... sinto que tudo isso é tão importante pra minha formação como para a dela. Agora ela está dormindo... e pra concluir esse dia feliz, aqui vai uma das músicas que fiz pra ela, há quase 8 anos:)


ISABEL                                         

(Paulo Barja)
Isabel
Foi um presente que caiu do céu
Por isso eu amo Bel
Isabel, Bebel

Isabel
Meu coração, se fosse... de papel
Teria escrito Bel
Isabel, Bebel

Vai ser artista a menina
Atriz, bailarina
Vai brilhar num musical
E na canção vai dizer:
“O melhor sonho é real”

Isabel
O mundo gira como um carrossel
E eu te apresento:
Bel
Isabel
Bebel

9 de agosto de 2011

Política Estadual de Busca a Pessoas Desaparecidas

Prezados,
com o objetivo de ajudar a localizar pessoas que estão afastadas de suas famílias, bem como prevenir e melhorar as buscas em relação a futuros desaparecimentos, convoco a todos para que leiam o abaixo-assinado online:
Espero que concordem com a importância de iniciativas como essa; nesse caso, além de assinar, solicito que divulguem o abaixo-assinado para seus contatos.
Agradeço a todos pelo engajamento nessa campanha pela Vida.

3 de agosto de 2011

Diário de um processo (7) - Teatro-cordel

    IMAGENS
     Além das (maravilhosas) fotos do Sebastião Salgado, vamos aos poucos juntando outras referências visuais para o trabalho - ligadas, em geral, à ideia da diáspora a que tantos trabalhadores são obrigados. Abaixo, apresentamos algumas dessas imagens que nos marcaram. A primeira é uma foto de 1929, em que a mãe americana é obrigada a encarar a dura realidade da crise - ela sofre, mas mantém a dignidade e não esquece sua função de protetora dos filhos.


Mãe emigrante (Dorothy Lange, 1929)


     Das fotos abaixo, a primeira foi capa da National Geographic em 1984 e levou McCurry a obter reconhecimento internacional. Nem todos sabem, porém, que ele voltou ao Afeganistão em 2001, em busca da mesma garota - e a encontrou. Observem a força ainda presente nos olhos e, por outro lado, as duras marcas do tempo no rosto dela.

Garota/mulher afegã (McCurry, 1984/2001)

     Por fim, temos a foto de um ícone brasileiro em momento particularmente difícil: Caetano Veloso, durante o exílio em Londres (1970). Caetano encerra esse disco cantando provavelmente a versão mais rasgadamente pungente de Asa Branca - na opinião do próprio autor da música, Luiz Gonzaga. Ao ver a capa do disco, Gonzaga diz ter percebido imediatamente a identificação de Caetano com a letra de Humberto Teixeira para a melodia tradicional nordestina:

"Eu te asseguro: não chores não, viu
que eu voltarei, viu, pro meu sertão"

Caetano: um nordestino exilado no frio de Londres

(continua)

31 de julho de 2011

Diário de um processo (6) - Teatro-cordel

   (...)
   A expressão "bonito pra chover" (tirada do Dicionário de Piauiês) era luminosa - daquelas poucas palavras que dizem muito -, e sua presença se impunha no texto. Pensei em compor um tema musical para a primeira parte da peça - um momento "de respiro", em que se cantasse essa frase com a alegria daqueles que sabem a importância da chuva para a plantação.
   A essa altura, já havia surgido uma segunda música para a peça - falando dos nordestinos que vieram para SP e tiveram (têm) que encarar o preconceito em determinadas situações: 

Nordeste paulista
P.R.Barja

Vim pra São Paulo
Tô aqui há muitos anos
Não estava nos meus planos
Eu só vim pra trabalhar
Fiquei aqui
Trabalhando noite e dia
Mas é grande a agonia
A saudade é de matar

Fazemos verso
Temos cantoria e festa
Somos tudo gente honesta
Que aprecia um arraial
São Paulo é hoje
Uma terra também nossa
Mas se a gente escuta troça
Fica triste, é natural

Esse país de todos
É mais de alguns que do povo
Junto a gente fica forte
E um dia vai ser feliz de novo


   Mas havia algo talvez até mais importante do que o texto e as músicas, para o trabalho do grupo: a necessidade de trazer imagens para o trabalho dos atores (sugestão, por sinal, dada pelo Atul na estreia da "Seca da Alma". Imagens que nem precisariam ser da seca propriamente dita, mas que serviriam como base para a interpretação em diferentes momentos. Começamos então a pesquisar e montar um pequeno banco de imagens. Na semana seguinte, fui até Santos resgatar (na casa dos pais) um livro que, imaginei, poderia ser útil. Assim que comecei a folhear "Terra", do Sebastião Salgado, tive certeza de que ali estava outra referência fundamental para o nosso trabalho.

(continua)

Portal Macunaíma

Prezados,
incluí neste blog uma ligação para o Portal Macunaíma, que me parece um sítio bastante interessante e sério no que se refere às discussões sobre arte e política pública na área de cultura. Hoje mesmo publiquei um primeiro texto meu por lá. Dada a dica...

Diário de um processo (5) - Teatro-cordel

"A Seca da Alma", um registro do início da trajetória

    LEITURAS
     Retomamos a busca das notícias e encontramos, já no mês de julho:
- Censo 2010 revela que a região do Vale do Paraíba abriga 21 mil famílias de miseráveis;
- No Banhado de São José dos Campos, moradores protestam contra a retirada a que estão sendo forçados em nome da modernização (e da "limpeza" que dá voto)
     A cada leitura, a cada notícia, vai se fortalecendo na gente a vontade de levar o trabalho e essas questões para a rua, para os cidadãos, evitando ficar naquela zona confortável das apresentações "de artista pra artista". Por isso, estabelecemos a meta de levar o trabalho também (e principalmente) para espaços públicos "não-teatrais". Praça e rua também, claro, mas sem limitar o trabalho a "teatro de rua". Uma ideia começou a bater forte: e se a gente pudesse levar a apresentação para igrejas...? Acho que ainda faremos isso.
     Além dos jornais, outras leituras... a principal: a biografia de Luís Gonzaga escrita pela jornalista francesa Dominique Dreyfus. Começamos a ler e discutir trechos em nossas reuniões, pois a vinda dele (e, depois, da família) para o RJ coincidia em muitos aspectos com a história que se delineia aos poucos em nossa dramaturgia.
     Sobre a Seca de 32, os textos do Valdecy Alves ajudavam. E havia dois outros temas a pesquisar, para ambientar a dramaturgia: Lampião e Padre Cícero. Em ambos os casos, uma fonte importante de pesquisa foram os cordéis. Sobre Lampião, são tantos folhetos que seria injusto citar algum. Mas, no caso do Padre Cícero, não há como deixar de destacar o folheto de cordel "A Vida do Padre Cícero", de Manoel Monteiro, pela visão crítica, ferina mesmo (além da qualidade da poesia). Uma grande alegria: o folheto havia sido enviado para mim pelo próprio autor (tido hoje como o maior cordelista vivo do Brasil), junto com uma carta datilografada, extremamente gentil - daquelas escritas por gente que não precisa mais provar nada a ninguém. Obrigado, mestre!
     Em paralelo, comecei uma pesquisa sobre linguagem e expressões que poderiam ser aproveitadas no texto da peça. Além da leitura contínua de folhetos de cordel variados, pesquisei nessa etapa a obra de Câmara Cascudo "Locuções Tradicionais no Brasil" (ed.Itatiaia, 1986). Apesar de extensa e bem cuidada, a obra de Cascudo não forneceu material que se pudesse aproveitar diretamente no texto da peça. Era preciso encontrar algo mais regional... aí me lembrei do presente que eu havia recebido da Méssia, de Teresina:
- Cunha, P. J. Grande Enciclopedia Internacional de Piaiuês (ed. Oficina da Palavra, 4a.ed., 2009)
     Encontrei nesse livro uma verdadeira pérola...

(continua)

29 de julho de 2011

Diário de um processo (4) - Teatro-cordel

   (...)
    Diariamente, os jornais mostram que a história do desterro é secular e atual, repetindo-se, com particularidades locais, no aqui-agora. Durante as leituras, a palavra "diáspora" começou a se impor como tradução desse deslocamento humano impelido por circunstâncias diversas.
    Em meio a esse mar de ideias e informações, no dia 26/06 ocorreu a estreia da "Seca da Alma", com aproximadamente 23 minutos nesta primeira versão. O auditório do CET, no Parque da Cidade de São José dos Campos, estava lotado, com o público composto em boa parte por outros participantes da Mostra Joseense de Cultura.
    Nesse primeiro dia, com o embrião do trabalho, o mais marcante para nós foi que o debate gerado a partir da peça durou mais de uma hora (!), para uma apresentação de pouco mais de 20 minutos (!!) - em meio às diversas críticas recebidas, isso para nós pareceu um sinal de que valeria a pena dar sequência ao trabalho. Registramos aqui as diversas observações recebidas da crítica nesse momento, acompanhadas de pequenos comentários a respeito:

   1) “Isso não é propriamente uma peça de teatro...”
- Verdade! Essa observação evidenciou, até pra gente mesmo, que não era uma preocupação nossa formatar o trabalho nos moldes convencionais de uma peça de teatro.

   2) "Já que vocês falam do Nordeste, por que os atores não usam sotaque nordestino?"
- Essa era uma pergunta inevitável... e se liga a diversos pontos:
i) a proposta de não seguir uma formatação convencional trazia justamente, para nós, uma  liberdade de escolha quanto ao uso ou não de sotaque; 
ii) como o objetivo é mais chamar a atenção para o relato do que para a forma, achamos que seria melhor falar com naturalidade mesmo, até para garantir maior comunicação;
iii) numa proposta (objetivo futuro) de teatro narrativo, o sotaque também não se coloca para nós como questão fundamental; 
iv) optamos por não forçar um sotaque, pra evitar cair em situações como as de produções globais (com carioca-nordestino ou coisa parecida);
v) por fim, uma (eventual, futura) opção por interpretação com sotaque teria que vir após um longo trabalho de preparação, pra não ficar "mais ou menos" - precisaria de tempo de trabalho especificamente para atingir este objetivo;


   3) "O impacto da fala de vocês no debate é maior do que o próprio trabalho em si..."
- Claro que isso não é algo confortável de se ouvir - mostra a necessidade de se trabalhar para levar simultaneamente maior naturalidade e vigor para a interpretação;

   4) “O que significa essa leitura, fria (e talvez excessiva), de dados e notícias?”
- Essa foi uma primeira opção estética, apenas. A ideia era apresentar os dados de modo "jornalístico" buscando assim provocar uma eventual reação emocional no público, sem que os atores "guiassem" as pessoas para a indignação ou qualquer outro tipo de reação - mas essa foi uma colocação importantíssima, pois estávamos abertos a discutir outras possibilidades quanto a isto;

   5) "Quem de fato está contando essa história?"
- Pergunta pertinente do Atul Trivedi, que também lançou luz sobre o trabalho. Apontava um rumo para os próximos passos: descobrir quem eram esses narradores.

    Uma observação importante: mesmo num início de processo, logo após a estreia havia tantos agradecimentos a fazer que acho melhor começar a registrar "oficialmente" por aqui, ainda que já correndo o risco de esquecer alguns nomes:
- aos avaliadores e ao público da Mostra Joseense, pelos comentários;
- ao pessoal do Espaço Cultural Vicentina Aranha, pela cessão do espaço para reuniões e ensaior;
- ao Arievaldo e ao Klévisson, pelas dicas cordelísticas;
- ao Valdecy Alves, pelo material de estudo;
- ao Wangy Alves, pelo acolhimento;
- a todos, pela generosidade.

(continua)

28 de julho de 2011

Coisas que se faz de olhos fechados (1)

1) Risada de felicidade extrema...

Soneto sonhado

sonhei 1 sonho sem palavras com você
mas de um silêncio leve e doce, bem risonho
melhor, sem dúvida, que o verso que componho
para contar aqui do como e do porquê

sonhei 1 sonho sem palavras com você
mas nesse sonho havia gesto, encontro, festa
havia aceno da alegria mais honesta
de vida mesmo, não cinema ou dvd

sonhei 1 sonho sem palavras com você
como dizer? um sonho bem horizontal
que parecia verdadeiro, por sinal

sonhei 1 sonho sem palavras com você
mas te confesso: havia muita coisa ali
tanto é verdade que, em verdade, mal dormi


(P.R.Barja, Julho/2011)