25 de janeiro de 2017

Arte e Estado

(Versão condensada e comentada por Paulo Barja para o texto “Por qual dinheiro? O artista diante do poder”, de Andrzej Wajda, in: WAJDA, A. Um Cinema Chamado Desejo. Petrópolis: Campus, 1989)

   Uma vez que boa parte da produção artística é, direta ou indiretamente, financiada pelo Estado, colocam-se diante de nós algumas perguntas. A principal delas: quem, afinal, é o responsável pela obra produzida? Não importa quem financia: em última análise, o responsável é sempre o artista – e é assim que tem que ser.
   Para o Congresso da Cultura Polonesa de 1981, Andrzej Wajda preparou o texto “O mecenato do Estado e a liberdade do artista”, que em linhas gerais diz o seguinte:

   (...) O mecenato do Estado tem funções diferentes e uma ingerência diferente nos diferentes domínios das artes. Há domínios em que a ingerência do Estado é limitada ou pode até ser ignorada. Assim, pode-se pensar de graça. A escrita de um romance custa uma soma irrisória. (...) Da mesma forma, pode-se, por uma soma um pouco maior, produzir obras de artes plásticas que sejam belas, importantes, duradouras. O cinema, infelizmente, qualquer que seja seu tema, precisa de dinheiro, de milhões (vale o mesmo para uma grande orquestra ou para a produção de um grande musical).

   Pois bem: o Estado destinou do seu Tesouro uma soma milionária para meus filmes. Ora, de acordo com minha consciência de artista, não contraí por isso nenhuma obrigação ideológica para com esse mecenas. Isso significa que, usando dinheiro público para minha produção artística, enganei o Estado? Não, porque tomei dinheiro público e o utilizei para o bem público. (...) A existência de público para o trabalho sustenta minha convicção de que aquela arte era necessária (e não um luxo ou uma extravagância).

   Podem me responder que muitas obras de arte ruins mobilizam grande público. Sim, mas é certo que não haveria utilidade pública nenhuma em salas de espetáculo onde se sentasse sozinho e contente consigo mesmo apenas o agente financiador - o Estado (pensem: qual a utilidade pública de salas de espetáculo vazias? Isso é tão absurdo quanto limitar o acesso de alunos a uma biblioteca escolar “para evitar bagunça”).

   Eu recebia, assim, o dinheiro do Estado mecenas sentindo-me livre, porque jamais considerei que se tratasse de meu dinheiro. Sempre me esforcei para que o dinheiro retornasse, de algum modo, ao lugar de onde fora emprestado: o Tesouro nacional (percebam a ética do processo: a produção não se fez pelo dinheiro! O dinheiro é que foi disponibilizado para a produção. Isso faz toda a diferença).
Em países ocidentais, é considerado produtor e mesmo, em certa medida, criador de uma obra de arte aquele que consegue reunir o capital necessário para sua produção. (...) Contudo, aprendi muito jovem que o valor supremo é o trabalho. Assim, o criador não pode ser outro senão quem contribui com mais trabalho: a equipe e a pessoa que a dirige. Nunca me preocupei muito com a opinião das autoridades, sua reserva ou mesmo oposição a alguns de meus projetos. Minha verdadeira preocupação era com o público, sobretudo “se eu conseguiria me comunicar com ele” (Wajda defende que o financiador não tenha ingerência sobre o trabalho do artista. Faço uma analogia futebolística: a Nike não poderia influenciar na escalação da seleção brasileira. Por sinal, seria fantástico aplicar isso à política: o financiador de campanha não poderia ter ingerência sobre o trabalho do político, que deveria sempre representar os interesses do povo. Sabemos que geralmente não é bem o que acontece).

   (...) Por que o artista deve ser livre? Para poder penetrar no espírito das pessoas e expressar suas inquietudes, esperanças e ilusões! O Estado não saberia fazer isso em meu lugar. Por que um funcionário do Estado conheceria esse segredo melhor do que o artista? Em virtude de sua função? Acho que a paz silenciosa dos escritórios oficiais e roteiros longamente debatidos e preparados podem chegar a uma revelação... Na maioria das vezes, lengalengas dessa ordem dão lugar a obras indigestas, sem alma nem rosto (este é nosso argumento para defender que a gestão cultural seja exercida por gente próxima à área e aberta ao diálogo, e não entregue a “qualquer bom administrador, de preferência com formação jurídica”, como vemos ocorrer com triste frequência).

   Somente o artista pode responder pelo que diz ao público. Empregando sua liberdade, o artista deve, às vezes, fazer seu público compreender o que não teria condições de perceber sem a obra de arte. Ele tem necessidade de uma liberdade dupla: em relação ao poder e em relação ao público. Apenas os maiores conseguem atingir essa liberdade e merecem nosso reconhecimento. Quanto ao mecenas, que ele se lembre: a Arte só se desenvolve à medida que o povo consegue impor ao poder importantes concessões.

*   *   *

Uma colocação anticlímax ao final deste texto: o discurso original de Wajda nunca foi proferido, pois na ocasião o governo polonês cancelou o congresso. É triste, mas parece haver analogia entre esse fato e diversas situações vividas no Brasil. Diante do fechamento de oficinas culturais e dos repetidos cortes de verbas públicas para a cultura, perguntamos: será que os cortes são uma punição imposta aos artistas pelo Estado, que deseja controlar a criação artística e não consegue entender ou aceitar a liberdade criativa? Reflitamos.

Orquestra, Cultura, Cidade (jornal "O Vale", 14/jan/2017)




24 de janeiro de 2017

Cultura e Bem Estar

Trecho do artigo "The Impact of Culture on the Individual Subjective Well-Being of the Italian Population", Applied Research Quality Life, 2010 (DOI 10.1007/s11482-010-9135-1), de E.Grossi, P.L.Sacco, G.T.Blessi & R.Cerutti
Traduzido, adaptado e comentado por Paulo Barja

   O termo “Cultura” é repleto de complexidades e ambiguidades. Para pesquisadores, há ao menos três diferentes sentidos que podemos atribuir ao termo, como segue:

   1º: Cultura pode ser vista como um conjunto de características associadas ao desenvolvimento humano e social e que são transmitidas de uma geração a outra através de diversos mecanismos. Estes traços podem ser cultivados e desenvolvidos, como por exemplo uma forma de canto tradicional ou um modo específico de enfeitar ou movimentar o corpo, mas é o fato de ser cultivado em um contexto social específico que determina a permanência daquela característica, tanto no indivíduo quanto em nível social.

   2º: Cultura pode envolver também a aquisição intencional de capacidades e competências que vão além de características socialmente transmitidas, relacionando-se portanto com a determinação pessoal, ainda que estas características sejam instrumentais, ou seja, estejam a serviço de objetivos cuja natureza não é intrinsecamente cultural. Um exemplo seria o aprendizado de uma língua estrangeira com o objetivo de “conseguir um emprego melhor”.

   Há estudos apontando a conexão entre o acesso à Cultura (em qualquer das acepções acima) e a qualidade de vida. Uma possível explicação: o maior acesso à Cultura faz o indivíduo avaliar melhor as diversas possibilidades de escolha diante de si – e melhores escolhas levam a uma melhor qualidade de vida. Observem que isto vale para tudo: alimentação, política...

   3º: Pode-se pensar Cultura também como um conjunto de capacidades e competências adquiridas e desenvolvidas por motivação explicitamente cultural, como quando se busca o acesso, produção e desfrute de atividades culturais para deleite próprio e/ou de outros.

   A relação entre bem-estar e este significado de Cultura pode soar intrigante para quem pensa em experiências culturais meramente em termos de lazer e entretenimento, ou seja, atividades boas, mas que não teriam grande efeito no bem estar ou na Saúde, quando comparadas a fatores como nível de renda, por exemplo. No entanto, experiências culturais revelam-se bem mais que “uma boa forma de se passar o tempo”: podem ser essenciais ao despertar disposição para buscar satisfação com a vida, novamente influenciando nas escolhas de estilo de vida e muito mais.

*   *   *

Uma vez estabelecida esta relação entre Cultura e bem estar, pergunta-se: a quem interessaria cortar investimentos em Cultura? Por que limitar o acesso da população a bens culturais? Eis uma resposta triste e maquiavélica, porém não desprovida de sentido: isso seria interessante àqueles que preferem ter sob sua administração uma população com menor condição de escolha. Proponho que reflitamos sobre isso.

13 de outubro de 2016

ESTATÍSTICA - Cidadania e utilidade pública

No início de outubro, o Ministério do Trabalho do Brasil divulgou vídeo com distorções numéricas para induzir o povo a pensar que há férias excessivas no Brasil. Seguem elas:

1) DISTORÇÃO 1 - Citam "dias úteis de férias" (DESCONTAM, portanto, fins de semana) para todos os países EXCETO o Brasil, onde entram "dias corridos de férias" (assim aumentam em 9 o número de dias no Brasil)

2) DISTORÇÃO 2 - Excluem "misteriosamente" da estatística países como França e Reino Unido, que segundo dados OFICIAIS da OIT apresentam mais dias de férias que o Brasil.

Pois bem: preparei 1 gráfico mais honesto que o do Ministério para completar esta denúncia.
Após o Ministério do Trabalho do Brasil divulgar "equivocadamente" a contagem dos dias de férias de vários países para "concluir" que as férias do brasileiro são das mais altas do mundo, tomei a liberdade de fazer um trabalho estatístico que consistiu em calcular a mediana, média e desvio padrão para a variável "Dias úteis de férias" para um conjunto de países.
O resumo está no gráfico a seguir.


Percebam: o Brasil está rigorosamente na média em relação ao conjunto de países avaliados.
O único país que destoa do restante do mundo (muito fora da margem de erro) é a China.

#ABatalhaÉMidiática
#AnáliseCrítica 
#AquiTemAula
#EducarÉResistir
#EstatísticaCidadã
#SóAVerdadeCombateAMentira

2 de agosto de 2016

Andanças poéticas - Julho/2016

Com a vida corrida e a tendência de privilegiar postagens rápidas no Facebook, o blog acabou ficando meio abandonado... Busco retomar aqui, sintetizando as últimas apresentações e andanças poéticas:







20 de junho de 2016

Lirismo pela inclusão

No sábado 18/6. passei um dia em formação sobre Educação Inclusiva, com a profa. Katia Maria Pereira. Durante essa vivência (inspiradora!), fui anotando pequenos poemas (aldravias e uma sextilha) que aqui transcrevo, na ideia de que modestamente contribuam para uma política de inclusão social - um Lirismo Inclusivo, quem sabe... Mas nem é preciso pensar muito para perceber: TODO lirismo é inclusivo. O que gera exclusão é justamente a falta de afeto, de lirismo...

toda
fragilidade
física
exige
força
espiritual

situação
bastante
delicada,
esta:
chama-se
V I D A

V i v e r
é
lidar
com
nossas
perdas

Meu
coração
deficiente
requer
completa
acessibilidade

Deficiente?
Não:
meu
coração
é
valente

Lento?
Não:
todo
tempo
tem
razão

Muita gente inda confunde
pressa com eficiência
quando lida com pessoas
com qualquer deficiência:
cada coisa tem seu tempo,
há que se ter consciência!

Paulo Barja

27 de janeiro de 2016

Projeto "Narração, Foto & Poesia" e outras atividades


Matéria da Revista Diálogo (Univap) sobre o projeto que vem sendo desenvolvido junto a escolas públicas de São José dos Campos:


23 de dezembro de 2015

poema em resposta

(sobre as ofensas recebidas por Chico Buarque no Leblon)

para bom entendedor
bobagem não é pecado
na minha linha do tempo
comentário é liberado
mas eu quero deixar claro
que na vida tenho um lado
vou muito além de partido
mas meu verso inconformado
será sempre solidário
ao artista achincalhado
que difunde em sua obra
um consistente recado
CasaGrande já existiu
Senzala está no passado
muito falta melhorar
neste Brasil melhorado
mas ofensa se responde
com verso qualificado
canção de grande riqueza
e texto bem humorado

29 de outubro de 2015

Dois Vídeos

Depois de um longo tempo sem postar nada por aqui...


"YELLOW" (Coldplay)

"CHANCE PRA PAZ" (Lennon/Ono/Barja)
Turma PP 2015 cantando
na aula de Expressão Artística
da FCSAC/Univap

SPFW, 20



10 de junho de 2015

UM RESGATE JUSTO - e necessário


     Como cristão, fiquei sinceramente comovido ao ver a belíssima foto que reproduzo abaixo. A verdade é que, após muitas apropriações da crucificação (principalmente em capas de revistas da grande mídia), finalmente pudemos ver uma imagem que resgata o poder e a força da crucificação de Cristo. 
     Sei que algumas pessoas podem questionar o que considero "resgate justo" da força original da cruz como símbolo cristão. Por que digo isso? Porque Cristo nunca foi personagem de igreja-butique (entrem numa igreja hoje e perguntem onde fica a lojinha, vocês provavelmente encontrarão modelos de cruz de todos os tamanhos e preços). Ao contrário: Jesus foi perseguido, assim como seus seguidores. Viveu à margem da sociedade da época, sendo portanto um "marginal", no sentido estrito do termo. Foi também um "subversivo", para usar um termo que a turma do Bolsonaro adora aplicar (em geral, para as pessoas erradas) ao defender aqueles que não tinham defesa. Observem: nada disso aparece nas capas da Veja e da Placar, quando se utilizaram da cruz. 
     Por fim, ver alguém na cruz inevitavelmente desperta em nós (em mim, pelo menos) piedade, compadecimento... Empatia: "é uma pessoa comum ali, poderia ser você ou seu filho". 
     Viviany Beleboni: obrigado por renovar em mim a fé cristã, nesse mundo tão cheio de gente que ostenta arrogância e intolerância incompatíveis com a fé que dizem professar. 
     Só para lembrar: na mesma semana, o grande Zé Celso teve que se defender num processo movido contra ele por um religioso que se disse ofendido com uma representação ocorrida na PUC, em 2012. Pois bem. Como cristão, digo: VIVA VIVIANY! VIVA ZÉ CELSO!


(Foto: João Castellano, Agência Reuters)

Diariamente (como Caeiro)


Dia após dia, busco na prática o aprendizado dessa arte: "viver". Talvez, um dia, aprenda - tenho esperança. Mas não tenho pressa. É desses casos em que se deve andar reparando bem no caminho...

19 de maio de 2015

Caetano e "Irene"

Sobre Caetano e a história da canção “IRENE”, 1968/69



Sempre achei que IRENE fosse uma das canções leves do Caetano. Não é...

Após ser eliminado do Festival de Música Popular Brasileira por conta de seu discurso em É PROIBIDO PROIBIR (em solidariedade a Gil, também desclassificado), a dupla foi presa e teve os cabelos raspados. Foi na cadeia que Caetano compôs os versos de IRENE. Essa informação é essencial para que se compreenda a letra da canção:


“Eu quero ir, minha gente
Eu não sou daqui
Eu não tenho nada...”


O disco com a canção IRENE, lançado por Caetano em 1969, tem outra peculiaridade: ele NÃO aparece na capa. Ainda estava de cabelo curto... Somente em seu disco seguinte (o “álbum inglês”), Caetano volta a aparecer na capa. A foto é tristíssima: um baiano no frio londrino... mas ele já estava de cabelo comprido.

P.R.Barja

2 de maio de 2015

RESPOSTA DE UM PROFESSOR à fala do senador (Cordel Joseense 56)

Brasília, 2015:
numa sessão do Senado
o “nobre” senador Serra
(há pouco tempo empossado)
produziu, ao microfone,
um discurso equivocado:

Foi se queixar, no plenário,
das horas-atividade
pagas para os professores
e bem justas, na verdade.
Professor trabalha muito:
negar isso é vã maldade!

No discurso, o senador
usou um termo insolente:
disse que os mestres ganhavam
só para “supostamente”
preparar as próprias aulas...
Senador, seja decente!

(faço aqui breve parênteses:
para estes versos fazer,
antes corrigi 100 provas,
pois esse era meu dever,
e fui depois, na internet,
o diário preencher)

O senador criticava
(falta alça em sua mala)
que o professor recebesse
40 horas... sua fala:
“10 horas-atividade,
SÓ 30 horas na sala!”

Porém, depois do discurso,
nenhum jornal registrou
a bronca que o senador
de professores levou;
uso então estas sextilhas
pra mostrar nosso valor.

“Prezado Senador Serra:
o senhor não foi eleito
pra bater em professor
nem negar nosso direito.
Mas, se quiser discutir,
sou professor: eu aceito.

Por sinal, sei que o senhor
também é nosso colega:
sei dos vídeos no YouTube
- quem correr ainda pega -
de aulas suas em campanha...
O senhor sabe e não nega.

Não vou questionar as aulas
nem os seus erros de conta,
pois o senhor, pelo visto,
nenhum erro em mim aponta.
O debate é sempre bom,
nunca é uma coisa tonta. 

O senhor falou de "custo":
professor tem custo, sim!
Senador também tem custo:
o senhor acha ruim?
Vamos debater agora
isso, tintim por tintim.

Neste primeiro bimestre,
corrigi (e ainda bem!)
trezentas e tantas provas
sem dever nada a ninguém.
Aulas? Posso assegurar
que dei muito mais de cem.

O senhor não se preocupe:
Não ache que é tão difícil...
Corrigi mais de trezentas
e dez listas de exercício.
Sei que, pro senhor também,
trabalhar é um doce vício...

De quantas sessões ao todo
o senhor participou
nessas últimas semanas,
no bimestre que passou?
E os projetos sociais,
afinal, quantos votou?

Na trilha do seu discurso,
não cabe fazer piadas:
precisamos discutir
as "horas não trabalhadas"
também aí no Congresso
- são verdades mal faladas...

Que tal se a gente parasse
de pagar os senadores
pelas promessas que fazem
sob a luz dos refletores
e a tal “meritocracia”
fosse aplicada aos senhores?

E, para não perder tempo,
eu também pergunto, então:
por que o senhor defendeu
essa terceirização
que ao nosso trabalho honesto
gera precarização?

Eu já estou até achando
que a tal terceirização
veio de outro senador
que em segundo turno NÃO
se elegeu e, num terceiro,
sonha ganhar a eleição...!

Quem já comprou prédio inteiro
conhece dinheiro vivo...
Senador: na Educação,
não diga “custo excessivo”
pois o preço da ignorância
é mais alto e permissivo.

Talvez mesmo os professores
ganhar melhor já pudessem,
se os senadores ganhassem
realmente o que merecem
e bem menos assessores
os políticos tivessem.

Deixo aqui no meu cordel
a modesta sugestão:
que descontem do salário
do “Senador-da-nação”
as horas-atividade
que trabalhadas não são.

P rezadíssimo político:
R espeito é muito importante.
B asta treinar; é possível
A vançar nisso bastante.
R esta só falar bem menos,
J ogando fora os venenos:
A gradeço nesse instante!
Paulo R. Barja

29 de abril de 2015

Matemática - na Aula e na Vida

Prezados,

como educador, eis alguns pontos que considero importantes:

1) Na maioria dos problemas propostos em Matemática ou Estatística, ao contrário do que alguns pensam, o mais importante não é simplesmente “fazer contas”. Precisamos avaliar criticamente o resultado das contas. Que significa isso? Temos que prestar atenção para ver se o resultado é minimamente consistente com o bom senso. 
Observem este exemplo: “20 alunos responderam uma prova, obtendo as seguintes notas: ............ – A partir destes resultados, calcule a média da turma”. Neste caso, observando-se que as notas variaram de 0 a 10, não é possível aceitar como resultado uma resposta do tipo “65”. NÃO adianta o aluno dizer que esqueceu a vírgula; na verdade, faltou analisar o resultado.
Outro exemplo: é dada uma lista dos números de calçados e, perguntado o valor médio, alguém responde “3,7”. Isso não é número de calçado, gente!
(Não no Brasil, pelo menos).

2) É essencial saber redigir a resposta. NÃO adianta dizer: “ah, prof, a conta está aí, tá óbvio que é o resultado, a gente não tá aqui pra ficar escrevendo” – muito pelo contrário: em algum momento da vida, todos nós teremos que apresentar algum resultado – seja em relatório, seja em palestra, seminário ou mesmo bate papo. E, claro, espera-se que as frases sejam bem redigidas, sem erro de concordância por exemplo.

3) Finalmente: é importante estar pronto a justificar e analisar uma resposta numérica. Não basta dizer “olha, a conta deu esse valor aí”. Se o salário médio nos classificados de um jornal vale “R$1000” e o aluguel médio nos classificados do mesmo jornal vale “R$800”, temos que discutir o grave risco de que pessoas deixem de comer para pagar aluguel. 
E, a partir desta constatação, talvez devamos fazer algo a respeito, não?

Só para encerrar: viva Boal, viva Freire! Saudações,

Paulo Barja

13 de abril de 2015

Novo projeto: #antimáquina



Criaram um computador 

capaz de contar piadas;

depois, porém, só silêncio...

Trabalha agora o inventor

buscando o público: máquinas 

capazes de dar risadas.


P.R.Barja

25 de março de 2015

24 de março de 2015

Absurdo injustificável


Em 1964, o Arcebispo de Olinda e Recife, D. Helder Câmara, foi até o Exército para reclamar das torturas cometidas na ditadura contra presos políticos.
O coronel Helio Ibiapina então respondeu:
- Nós torturamos para não fuzilar. 
Nos 20 anos seguintes, muitos foram torturados.
Muitos também foram mortos, e não apenas por fuzilamento:  havia, por exemplo, aqueles que eram atirados de aviões ou do alto de prédios.

P.R.Barja
(a partir do relato publicado por Elio Gaspari no livro "A Ditadura Envergonhada")

21 de março de 2015

27 de janeiro de 2015

Microconto


Procurou, no canivete de 38 funções, uma que tirasse dor de amor. Acabou desistindo.
P.R.Barja

28 de dezembro de 2014

SOLIDARIEDADE - com ou sem foto

A história é tristemente real: uma moça começa um relacionamento com um sujeito e, poucas semanas depois, é covardemente agredida pelo imbecil (perdão, não achei outra palavra). O que fazer? Segundo a maioria das pessoas, o melhor é ir imediatamente à delegacia e fazer um Boletim de Ocorrência. Porém, ainda antes de seguir o conselho dos amigos, ela decide denunciar o agressor em rede social.

Perguntam-me: por que ela faz isso? Sinceramente, não acho que a pergunta seja relevante diante da gravidade do fato. A meu ver, a pergunta correta é bem outra: o que leva um homem a cometer tamanho ato de covardia? De todo modo, vejo uma razão bem simples para a publicação da moça. Imagino que ela tenha desejado deixar um alerta, o mais claro e público possível, para fazer com que pessoas próximas de um e/ou de outro fiquem cientes do potencial de agressão, do caráter violento do sujeito que cometeu o gesto absurdo. Enfim, o que sei é que a moça posta uma foto de seu próprio rosto – provando assim a agressão que acaba de sofrer – e junta a isso um texto curto em que fornece o nome do agressor.

Para nossa tristeza, surgem em cena os relativistas, dizendo coisas como “será que ela não fez nada antes?” Outros argumentam que não é possível ter certeza de que o acusado foi realmente o agressor. Ok, apure-se tudo: de acordo. Porém, considero inadmissível que se parta para a inversão dos fatos, com a culpabilização... da vítima. Absurdo! Há quem chegue a comparar o caso a “mais um reality show”. A pessoa agredida chega a ser chamada de exibicionista porque teve a coragem de mostrar o que aconteceu. Que mundo é esse? Nessas horas, faço um baita esforço para respeitar o direito de cada um falar (e escrever) o que quiser. No entanto, sinto-me na obrigação de dizer (e gostaria que fosse em alto e bom som) que precisamos parar de encarar violência real como cena de reality show!

É necessário que as pessoas se conscientizem do seguinte: as agressões contra mulheres nesse país vêm de muito longe e continuam até hoje. Curiosamente, estas agressões reais e cotidianas não aparecem nos tais shows de (falsa) realidade. Aquilo lá nos programas de TV não é reality, meus caros: são “autênticas histórias falsas”, como diz um espanhol que conheci anos atrás.

Dizem alguns que “rede social não é pra isso”. Seria então para que? Só pra exibir foto bonitinha de festa? Questionamento não pode? Denúncias são proibidas? Por quem? De minha parte, todo respeito ao uso de toda e qualquer rede social como local de manifestação de cidadania sim.

Triste país o nosso. Uma mulher foi agredida e conseguiu fotografar e denunciar a agressão antes mesmo de fazer o BO, ponto. Não vou condenar isso! Por sinal, uma perguntinha básica: quantos Boletins de Ocorrência cada um de nós já leu hoje? E quantas imagens já viu, no mesmo período? Pensem nisso.

Chamo atenção para o fato de que não estamos aqui julgando fotos. A questão é que precisamos debater e combater a violência. Também precisamos combater o preconceito no julgamento que se faz de quem é vitimado pela violência nesse país. São mulheres. São, também, negros, orientais, latinos, nordestinos. Somos nós os agredidos, percebem?

Nenhum de nós precisa ser parente ou amigo pessoal de uma pessoa agredida para sentir o impulso da solidariedade, de querer se mostrar pronto a ajudar. A partir de certas reações lidas hoje, sinto despertar em mim uma profunda verdade, mais material do que qualquer foto. Aqui vai ela: nada pode desencantar mais o ser humano do que a falta de solidariedade.

Isso aqui é só minha opinião pessoal. Mas, em pleno século XXI, este começa a ser um pais onde os agredidos não se calam. Não mais. E, como ninguém é uma ilha, uma agressão a uma pessoa – qualquer pessoa – é uma agressão, também, a mim.

P.R.Barja

21 de dezembro de 2014

Por que?


Por que não consigo ser feliz?


- Felicidade se acha em horinhas de descuido...

Perdão, mestre, mas discordo:
enquanto houver uma única injustiça
cometida contra um único de nós,
como descansar?

"É impossível ser feliz sozinho"

- e essa frase do Jobim
não fala de amor:
é política.
(P. R. Barja)

29 de novembro de 2014

De Crença e Descrenças (uma crônica de 1994)


   Relembrando a época em que comecei a fazer catecismo percebo que, depois de algum tempo, tornei-me extremamente permeável à religião católica. Ou seja, comecei a gostar de ler a Bíblia e pensar em temas religiosos: Deus, a Criação, o Universo... Obviamente, por volta dos quinze anos, passei pela crise de rebeldia adolescente que me fazia renegar toda e qualquer crença, mas arrisco dizer que, das meditações surgidas na infância até a graduação em física, foi apenas um pequeno passo.

   Hoje, parece-me claro o quanto de crença temos nas mais diversas áreas do nosso (não tão) vasto conhecimento: filosofia, psicologia, pedagogia, biologia, política (votar é, em última análise, um ato de fé em pessoas e sistemas – e não se confunda isso com fanatismo, que também existe em todas essas áreas). A física é, por ironia, a área do conhecimento humano historicamente mais atolada em crenças as mais estranhas possíveis. Quando digo “por ironia”, refiro-me à legião de físicos que se dizem ateus. Como e por que acreditam, então, que a possível descoberta do último quark previsto na teoria desvenda de uma vez por todas a já milenar busca pelos “blocos fundamentais da matéria”?

   Este texto é de 1994. Qualquer pessoa pode dizer: “daqui a 50 anos, será descoberta a prova experimental da existência dos subquarks...”

   Na verdade, Deus pode estar murmurando isso agora mesmo, entre uma risada e outra.

   Outro exemplo de crença dogmática no âmbito da física diz respeito ao Big Bang. Até mesmo físicos não conseguem suportar o peso de questionar tudo eternamente e cristalizam dogmas como a ocorrência do Big Bang, “o início de tudo”. Mas há pesquisadores que defendem a idéia de um Universo cíclico, com uma sucessão de Big Bangs onde cada um marca ao mesmo tempo o fim de um ciclo e o início de outro (soube desta teoria através de uma palestra do prof. Ross Douglas, do IFGW/Unicamp). Mesmo Stephen Hawking (autor do best-seller “Uma Breve História do Tempo”) já defendeu e atacou a teoria do Big Bang, em diferentes momentos.

   Por tudo isso, pode não ser sensato concentrar toda a fé só na ciência ou só na religião. Nesse sentido, vale citar a abertura do “Evangelho segundo o Espiritismo” (organizado por Allan Kardec, Ed. IDE, 1978, 142a. edição, S.Paulo): “Não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade.”

   Quanto à velha questão “Determinismo x Incerteza”: o fato de existirem leis da física não determina de maneira absoluta a evolução de todos os seres; o que as leis fazem é simplesmente imprimir limites para os acontecimentos.

   Nossos movimentos são determinados pelo nosso livre arbítrio e executados de acordo com os limites impostos pelas leis físicas. Assim, Deus não joga dados: ao que parece, ele criou dados e regras para que nós possamos jogar, conforme nossa consciência e vontade.

P.R.Barja

17 de novembro de 2014

RESPOSTA-MANIFESTO

EM RESPOSTA A UMA PROPOSTA FEITA A ARTISTAS LOCAIS
“Apresente-se de graça em nossa sede, fazemos divulgação”

      Considero absurdo e mesmo constrangedor o convite feito, uma vez que artistas precisam ser pagos pela Arte que fazem, até mesmo para manter a Saúde. Creio que isso seja simples de entender, principalmente por quem se diz disposto a trabalhar "pela humanização do atendimento". Pois bem: quando um artista é "convidado a trabalhar de graça" numa empresa que tem totais condições de pagar pelos serviços prestados, isso na verdade soa como "desumanização", na medida em que sucateia o valor do artista enquanto ser humano. 

      Esclareço que, antes de redigir esta pequena resposta, entrei em contato com diversos artistas, inclusive via redes sociais, e o entendimento geral foi este, o que motivou o envio da resposta (fiz essa consulta prévia a colegas para não incorrer no erro de um julgamento precipitado e descolado da realidade). 

      Informo adicionalmente que, em outros países onde tenho amigos artistas, há movimentos de conscientização junto a artistas para que NÃO aceitem este tipo de proposta. A motivação para o movimento coletivo de recusa é a seguinte: enquanto alguns têm outras fontes de renda e poderiam até se dar ao luxo de "trabalhar de graça", outros dependem exclusivamente do que recebem pelo seu trabalho artístico para sobreviver. 

      Entendo que artistas precisam ser bem pagos por quem pode pagar justamente para que possam se dedicar, em outros momentos, a apresentações beneficentes e/ou voluntárias junto a instituições que dependam exclusivamente de esforços coletivos – e, estes sim, humanitários – para subsistência. 

      No entanto, creio que nossa conduta diante desse tipo de situação deve ser fruto de amadurecimento coletivo e troca de ideias (como tudo, sempre). Assim, tomo a liberdade de sugerir uma contraproposta. Tenho quase certeza de que artistas da cidade topariam fazer apresentações por valores, digamos, a partir de R$400 por apresentação (dependendo, naturalmente, da configuração artística - solo ou grupo). Em troca, divulgariam o local e os serviços da empresa contratante. Creio que isso traria transparência ao relacionamento e, sem dúvida, benefícios à imagem da empresa. 

      Uma proposta alternativa (talvez não para esta empresa, mas para outras, mais humildes) seria, ainda, que a empresa prestasse serviços gratuitos aos artistas e, a cada valor X (a definir), o artista fizesse uma apresentação em contrapartida. 

      Para citar um caso recente que mobilizou a sociedade brasileira: nenhum de nós é Deus. Nenhum de nós está acima do outro. Todos precisamos batalhar (com o suor de cada dia) pelo alimento, moradia, saúde e – sempre – respeito.

      Sigamos na trilha da construção de um novo país a cada dia, em cada atitude. 

      Saudações,
P. R. Barja

11 de novembro de 2014

Parceria


Sábado passado (8/11), como atividade da parceria entre a Secretaria do Meio Ambiente de São José dos Campos (SEMEA) e a UNIVAP, ministramos uma Oficina de Cordel para a formação de agentes de educação popular na área ambiental/agroecológica. Clique AQUI para ler matéria completa a respeito.

Finalização da Oficina de Cordel na Secretaria Municipal do Meio Ambiente
(foto: PMSJC, 2014)