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27 de agosto de 2011

Diário de um processo (9) - Teatro-cordel

   (...)

   Na Mostra Urbana de Teatro do Espaço Cultural Flávio Craveiro, foram experimentadas diversas mudanças em relação à estreia:
i) As notícias/dados do IBGE passaram para o início da apresentação (antes ficavam no encerramento);
ii) Escrevi mais um trecho de narrativa em cordel para a parte final da apresentação, falando da viagem que muitos fizeram para "o Sul" (aí compreendidos todos os Estados que ficam "ao Sul do Nordeste");
iii) Para trabalhar a naturalidade da narrativa, sugerimos às moças a realização de atividades ligadas à vida no campo, durante a narração. Mari e Sílvia propuseram trabalhar com milho e mandioca (culturas muito significativas no sertão);

   A recepção foi boa, dizem (pena que não pude estar presente, por conta da cirurgia). Mas, claro: de lá pra cá, várias outras ideias vieram ganhando corpo...


   O grupo gostou da ideia de manter a performance "A Seca da Alma" no repertório, para apresentações curtas, enquanto continuamos os estudos para a criação de uma peça teatral mais longa, onde poderemos aprofundar a abordagem dos temas de interesse - história do Brasil (a que não aparece nos livros), migração e preconceito, entre outros.
   Na sequência dos estudos, bom deixar registrada a relevância dos papos com Antonio Carlos Guimarães, sociólogo e professor da Univap, abordando temas como as diferentes visões da História do Brasil. Um exemplo particularmente relevante para a gente é o da Revolução de 1932, que (falando muito simplificadamente aqui) em São Paulo é muitas vezes apresentada como uma revolução “libertária”, contra ditadura e coronelismos. Enquanto isso, a visão nordestina sobre o mesmo fato histórico é bastante diferente: o movimento paulista é visto como um movimento que visa a retomada dos privilégios da oligarquia paulista, sempre aferrada ao poder. Sobre esse tema específico, encontramos um pequeno tesouro no livro “História do Brasil em Cordel”, de Mark Currain (EDUSP, 2001). O livro é interessante por ter sido escrito por um historiador norte-americano, que por sua origem está naturalmente desvinculado de uma eventual visão “nortista” ou “sulista” do Brasil (escrevo assim lembrando que os próprios brasileiros adotaram por muito tempo essa divisão simplista Norte/Sul, incluindo todo o Nordeste no primeiro e todo o Sudeste no segundo).

(continua)

13 de setembro de 2010

Quando o Não-lugar vira Lugar

(ou "O combinado e o improvisado")


Acabo de chegar de uma apresentação-surpresa: nem eu sabia que aconteceria.
No encerramento do Festivale, esgotaram-se os ingressos para a peça "da Lucélia Santos", e muita gente ficou de fora.
Tanto artista pelejando pra juntar público, e tanto público ali sem poder ver o artista!
Não dava pra ficar daquele jeito, pensei.

Conversei com algumas pessoas que não tinham conseguido ingressos, pra saber se teriam interesse em ouvir cordéis. O pessoal topou - animadamente, pra minha alegria.
Esclareço que em nenhum momento houve a ideia de fazer um protesto. O que bateu forte foi a vontade de garantir que as pessoas que foram buscar arte na noite de domingo, naquele espaço, tivessem acesso à arte de alguma forma.

- Pessoal, já aviso que não tenho nada a ver com a Lucélia Santos, ok?
(risos).
Aí perguntei pro povo:
- Pessoal, vamos para a praça ou ficamos aqui mesmo, do lado de fora do Teatro Municipal?
(que fica no último piso de 1 shopping, pra quem não conhece São José dos Campos)
Como o pessoal estava na maioria com carro estacionado no shopping, e como estava frio pra ficar na praça, foi consenso geral ficar por ali.
Então espalhei os cordéis no chão e fui falando um pouco sobre cada um.

A ideia era fazer um self-service, com o próprio público escolhendo o que queria ouvir, mas eu queria tanto "estrear" o cordel mais recente que o pessoal -gentilmente- topou.
Foi uma estreia bem especial. Um público especial, generoso, que foi ver uma coisa mas estava ali, de coração aberto pra arte, pra outras artes.
A apresentação foi breve: parece que a vedação acústica do teatro não era perfeita e os aplausos do lado de fora atrapalharam a apresentação oficial, de dentro do teatro.
Breves momentos de tensão, logo contornados.
O segurança Souza (abraço, meu amigo!) foi muito gentil e tudo se acalmou.

Daí pra frente, continuou uma conversa em roda menor, de pessoas que acreditam no fazer artístico, gente séria, de diferentes idades, envolvida com literatura. Gente apaixonada - bom conversar com gente assim. É desses momentos de encontro apaixonado que nascem ideias, projetos, novos encontros.

Obrigado a todos vocês ali presentes.
Antes de artistas, somos cidadãos.
Antes de cidadãos, parceiros.
Antes de parceiros, irmãos no mundo.

Acho que o episódio de hoje traz uma conclusão muito importante:
ainda que uma grande parte do público seja realmente motivada a sair de casa para ver apresentações com "artistas famosos, globais", esse mesmo público é bastante receptivo para novidades, para apresentações de arte que para eles é nova, desconhecida.

Não se deve, em hipótese alguma, subestimar a cabeça das pessoas.
Temos, todos nós, muitas fomes. Fome de Arte, por exemplo. Artes.
E pra quem tem fome, o mais importante não é o local. É o alimento.
"A gente não quer só comida..." , como diz a canção dos Titãs.

Só pra finalizar a história, um adendo: depois de tudo isso, enquanto rolava a cerveja numa padaria de bairro (Santana), o atendente -que não nos conhecia- perguntou se a gente morava por ali.
Respondi que não: a padaria dele "aconteceu" pra gente, sem nada combinado. Ele então disse uma frase que me arrepiou na hora por resumir a noite, com aquela sabedoria popular genial:
"Ah, o improvisado é quase sempre sempre melhor que o combinado!"

Ah, esse povo sabe das coisas!