3 de janeiro de 2019

RIR, A SÉRIO


     Lembro que uma estratégia frequente dos coxinhas era ridicularizar Dilma. Porém as falas dos "empoÇados" são muito mais propensas a revelar o ridículo que neles de fato habita. Nesse contexto, vejo com bons olhos uma postura crítica que alie lirismo (canalhas odeiam poesia) a bom humor (para sobrevivência da nossa oprimida alma). Além de tudo, soa como cobrança de coerência: riram antes, por que não agora? Por outro lado, se os ofendidos não entenderem, "tant mieux", que a prática  nos anime e aglutine e pronto.

     Percebo como real e grave o perigo da apatia da esquerda desacorçoada. Se o humor servir para acordar, já vale e muito.

     Tenho feito meus versinhos satíricos desde as primeiras horas do desgoverno. Ainda é cedo para avaliar a receptividade. Dizem que passarinho não esmorece de bicar cobra, mesmo sabendo-lhe venenosa. Sigo nas bicadinhas, ajudam inclusive a manter a forma.

P.R.Barja

27 de dezembro de 2018

BANHADO ORGÂNICO

A comunidade tem mais de oitenta anos de existência e mora em local curioso: é uma roça bem ao lado da região central da cidade. A mídia diz que há traficantes entre os moradores. O prefeito pede na justiça a saída imediata da comunidade – pretende fazer no local uma via expressa (apenas para carros) e um parque. Mas o próprio bairro já é um parque, com a vantagem da produção da agricultura familiar. A comunidade produz as melhores bananas da cidade.
Encontro pai e filho na rua, empurrando um carrinho onde vendem sua produção, quase em frente a um supermercado:
- É banana orgânica! Não tem aquele monte de produtos químicos, não.
Peço meia dúzia. O menino aponta para umas poucas bananas no canto do tabuleiro e pergunta:
- Pai, essas aqui estão meio verdes, feinhas. Vende?
- Com essas a gente faz doce, filho.
Pergunto se as bananas são do bairro ameaçado pela prefeitura. Eles confirmam:
- Sim, moramos lá.
Pelo sabor da solidariedade, acabo comprando uma dúzia.

13 de dezembro de 2018

“PARAHYBA RIO MULHER”: UMA FORÇA NECESSÁRIA


Lirismo e força: performance traz para a rua a "História além dos livros"

     “Vivemos tempos difíceis” é quase o novo “Bom dia” dos brasileiros, neste 2018 que é um agravamento de 2017, que foi, por sua vez, uma sequência dura de 2016... Mas cabe uma pergunta: desde quando estamos sendo golpeados? Não aprendemos isso na escola, mas a verdade é que a História do Brasil tem sido, desde sempre, a história de uma sequência de golpes. Ou alguém ainda acredita no mito de que os portugueses eram brancos civilizadíssimos que chegaram aqui tratando muito bem os índios, que foram auxiliados em trabalhos voluntários por negros bem dispostos vindos da África Mãe?

     Ainda hoje, a chibata é vista como recurso para uns - mas é pura dor para outros. Nesse contexto, e voltando a 2018, o mergulho (cultural, artístico) em episódios tristes da nossa história é importante para revelar caminhos de resistência. Porque, se temos uma longa história de golpes, também é verdade que temos uma longa história de resistência. Perguntem aos índios, por exemplo. Ou às mulheres fortes da Paraíba!

     Não acredito em acaso: todo encontro tem uma razão de ser. No meio da semana, no meio de tarde, no centro de São José dos Campos, eu e minha filha ficamos sabendo que haveria teatro de rua na Praça do Sapo. Como só a Arte salva (e à noite ainda haveria trabalho), resolvemos ir até a praça.

      Chegamos cedo: “Elas estão no calçadão!”

     Fomos ao encontro das moças. Percussão, voz e energia davam o toque: “tá com cara de que vai ser bom”, pensei. Foi mais: foi necessário. Sempre cantando, a trupe chega à praça, onde a própria demarcação de espaço marca o início da performance. O vermelho está presente: enquanto denunciam episódios de violência contra a mulher, as moças banham-se num rio que é de água e de sangue. E então começa uma aula ao mesmo tempo de Arte e de História – aquela que os livros não contam, ou seja, aquela que vai bem além das verdades oficiais.

     Anayde Beiriz foi uma escritora e poeta libertária, destinada a chocar a conservadora sociedade paraibana da primeira metade do século XX. Defensora ardorosa da participação feminina na política e nas artes, Anayde envolve-se amorosamente com João Dantas, líder da oposição ao então “presidente da Paraíba” (governador) João Pessoa. Em meio a um violento confronto político, Dantas se refugia no Recife, sem abandonar Anayde: o amor revolucionário é cantado em cartas, em verso e prosa. João Pessoa então manda a polícia revistar as casas dos revoltosos, buscando armas que comprovassem a preparação de uma revolta armada. Em vez de armas, a polícia encontra cartas e poemas de amor no cofre do escritório de João Dantas, na capital da Paraíba.

     Amor é crime? O material epistolar apreendido é fartamente divulgado por jornais alinhados ao governo, para atingir Dantas, que reage “na lata”: numa confeitaria recifense, mata João Pessoa com um tiro à queima roupa, sendo preso em flagrante. Anayde então vai morar num abrigo no Recife, onde visita Dantas até que este é encontrado morto em sua cela. A desculpa oficial é a de sempre: suicídio. Poucos dias depois, Anayde morre envenenada, em mais um “suicídio” assim, entre aspas.

     A violência pode assumir muitas formas.

     A força de Anayde me faz lembrar da santista Pagu, que viveu na mesma época. E em outras mulheres guerreiras, de todas as épocas. As atrizes falam de suas avós e convidam o público a falar também, para que se honre – coletivamente – a memória destas mulheres. Há espaço para lirismo e saudade. As falas finais do espetáculo retomam o caráter de resistência política ao defender publicamente a coragem de Dilma Rousseff, vítima de um processo de impeachment claramente carregado de machismo. Enquanto escrevo esse texto, multiplicam-se denúncias contra um certo eleito e seus filhos, envolvidos em atividades “pouco republicanas”. Como agirá a imprensa agora?

     A história brilhantemente contada por Cely Farias, Kassandra Brandão, Natália Sá e Jinarla Pereira fala da Paraíba, do Brasil e, em última análise, de todos nós. O grupo tem a melhor das qualidades quando se trata de teatro, principalmente na rua: as moças mostram um entrosamento perfeito. O espírito de equipe valoriza cada momento do espetáculo, visualmente belo, fortalecendo um trabalho que já é forte pelo tema abordado.

     Toda força a essas moças! Que façam mais e mais arte pelas ruas de nosso país, que anda precisando. E que a História – essa que mora além das verdades oficiais – seja sempre lembrada, para possamos resistir sempre às tentativas de silenciamento.

P.R.Barja

2 de novembro de 2018

INSÔNIA


Quem me faz perder o sono
Não são os meus inimigos.
São os meus amigos.

Passo a noite insone
Preocupado, atônito
Pelos meus amigos.

Saio pelas ruas
Buscando esperança
Para meus amigos.

Madrugada. Frio.
Na esquina, o fuzil.
Cadê meus amigos?

Recuso-me a ir
Para outro país
Sem os meus amigos.

Minha casa é bunker,
Trincheira, aparelho
Para os meus amigos.

Jamais tranco a porta.
Pode ser que cheguem
À noite, os amigos.

Faremos silêncio
Nesse tempo tenso
De poucos amigos.

O café amargo.
O abraço largo.
Abraço de amigos.

O lirismo existe
E sei que resiste
Pelos meus amigos.

Ao Deus que nos vê
Peço apenas isso:
Ampare-os. Proteja-os.

Se eu for preso, faça
Com que esqueça o nome
Desses meus amigos.

Eu nada direi.
Que meu sangue aqueça
O dos meus amigos.

Leiam Brecht por mim
E ouçam muito Chico,
Queridos amigos.

Pratiquem Boal,
exercitem Freire,
Orgulhem-me, amigos.

Canções de protesto
Mas de Amor também.
Viva meus amigos!

O amanhã virá.
Que os encontre bem.
São os meus amigos.

(Paulo Roxo Barja)

26 de outubro de 2018

Também a Academia Luta Por Democracia


Não vim da periferia
mas prezo a democracia,
por isso quero rimar
Liberdade e Igualdade,
mas também Diversidade
- isso é que vai nos salvar.

Mas não é só isso, claro:
há um sentimento caro
que nunca pode morrer.
Falo da Fraternidade,
que nos forma a Identidade
e a todos nós dá poder.

É nas festas da quebrada
que se organiza a moçada
e devemos respeitar.
Essa força não se acaba:
chega de Piracicaba
e aqui também tem lugar.

Economia criativa
mantém a galera ativa,
movimenta e empodera;
a moeda social
pra nós pode ser jornal
palestra e fala sincera.

Isso é patrimônio sim!
Nosso estudo não tem fim,
deve ser transformador
e gerar questionamento,
pro nosso enriquecimento.
Digo isso com amor.

Cada slam, cada sarau
é resistência vital
que vamos fortalecer,
pois também a Academia
luta por Democracia
- esse é o nosso dever.



23 de outubro de 2018

Artigo sobre os Cordéis Joseenses, ciência e cidadania

Acaba de ser publicado novo artigo, em parceria com a profa. Claudia Lemes, sobre a relação entre a produção cordelística, a ciência e a cidadania. O trabalho é fruto de nossa participação em evento realizado na UNICAMP e, para ler o texto na íntegra, basta acessar o link abaixo: 

Cordéis Joseenses - da Ciência à Resistência Cidadã

1 de outubro de 2018

III Seminário de Estética Social (IP - USP, 2018) - dois trabalhos apresentados

No final de setembro/2018, eu e Claudia Regina Lemes participamos do III Seminário de Estética Social, no Instituto de Psicologia da USP. Essa terceira edição do evento foi muito estimulante e gratificante para nós. A seguir, disponibilizamos os links para os 2 trabalhos que apresentamos no evento:

(DOI: 10.13140/RG.2.2.23160.49920)


(DOI: 10.13140/RG.2.2.23789.64485)

27 de agosto de 2018

A TV e o recorte da realidade (apenas mais um exemplo)

     Almoço num restaurante self service do centro da cidade. Como em quase todo estabelecimento do tipo, há uma TV que fica ligada e, na hora do almoço, transmite um noticiário local.
     Num certo momento do noticiário, surge o velho truque: a tradicional matéria emotiva sobre uma pessoa da comunidade (normalmente criança ou idoso) que conseguiu uma vitória pessoal, uma conquista importante. Nem é preciso ver toda a reportagem para entender a motivação: manter motivados, dóceis e "operantes" os oprimidos (que veem o jornal nos self services do centro da cidade).
     Na matéria de hoje, conta-se a história do "seu Durval", que se aposentou pela EMBRAER e virou, vejam que lindo, um artista: pinta quadros sobre a natureza, com flores e pássaros sempre bem coloridos. "Seu Durval" explica que somente depois da aposentadoria conseguiu se dedicar a esta sua paixão, e agora faz exposições de suas obras em cidades da região.
     Os quadros são bem bonitos. O tom da matéria é de felicidade serena.

     Mas...

     O que o jornal teria a obrigação de mostrar (e que, no entanto, ficou bem escondido):
     i) Com a Reforma da Previdência (que o governo insiste em impor e a mídia é bem paga para apoiar), não haverá mais aposentados podendo dedicar-se à pintura, pois as pessoas agora terão que "trabalhar até morrer" (literalmente, na maioria dos casos);
     ii) Com a privatização da companhia em questão, muito em breve não haverá nem mesmo novos "Durvais" trabalhando, pois tudo sinaliza para a internacionalização da produção, com desemprego em massa de brasileiros.

     Essas coisas não são ditas, pois turvariam a tela, estragando a felicidade serena imposta pela TV.

Paulo Barja

31 de julho de 2018

Falta consistência nas perguntas

(ou "a mídia não ajuda")

     Consistência não dá manchete. O que ferra é que esses agentes midiáticos (em programas como o Roda Viva) buscam tipos de inconsistência diferentes em diferentes candidatos, revelando aí sua ideologia:
     1) Pro Alckmin é tipo "mas vai ter dinheiro pra isso?";
     2) pro Bolsonaro, "mas e se você brigar com seu assessor econômico, como fica?";
     3) pra Manuela, é "como você vai explicar pra sua filha que você defende comunista comedor de criancinha?" - para piorar, interrompem as tentativas de resposta, investindo na confusão, em vez de trabalhar por esclarecimento.
     Mais capcioso, impossível.
P.R.Barja

28 de maio de 2018

Domingo de Cidadania

(Apesar de tudo...)

   Neste domingo, ao meio dia, fui à comunidade Santa Cruz para um evento de futebol - organizado pelos próprios moradores. No caminho, passei pela maior praça da região central da cidade, onde cerca de 15 pessoas vestidas de amarelo tinham esticado uma faixa pedindo intervenção militar. Alguns apitavam. Nenhum discurso.
   Não desviei meu trajeto. Seguindo no rumo do evento comunitário, cheguei à Santa Cruz. Alto astral: os meninos recebiam as camisas dos times - cinco times, cinco cores. Vestindo a camisa da seleção espanhola, fui logo chamado de "olheiro da Espanha". Brincando, disse aos meninos que tempos atrás já havia levado "um certo Neymar" embora pra Europa. Todos sorriram. Debatemos rapidamente lances da partida da véspera, Real Madri x Liverpool. Que golaço, o segundo! E que falhas do goleiro, os outros gols... Em minutos, éramos amigos.


Os times, uniformizados
Escolas participaram

Pose para foto oficial

Artistas e apoiadores, ao lado da mesa das premiações

   Em paralelo ao futebol, iniciava-se a organização para o almoço comunitário. Tudo colaborativo, todos se ajudando e se fortalecendo. Deixei kits de cordéis para a premiação dos meninos e, junto com amigos, também alguns livros.
   Na véspera, havia ocorrido um incêndio por lá, na casa da mãe de um líder comunitário, mas todos se uniram, ajudaram (procedimentos emergenciais efetuados, estragos avaliados, planos para reconstrução) e resolveram manter o evento. Atrasou um pouco. Alguns tinham ido à comunidade de Pinheirinho dos Palmares para o lançamento da candidatura de Lula à presidência.
   No evento, conheci um jovem escritor da comunidade, que lançava seu primeiro livro. O relato autobiográfico contava os muitos apuros de alguém que ainda tinha tanto a viver e que encontrara no rap uma forma de falar sobre e para a comunidade. Enquanto conversávamos, reparei que o som ambiente apresentava raps feitos provavelmente por ele e colegas dali. No início de cada gravação, trechos de notícias de rádios locais falavam sobre supostos crimes ocorridos no interior da comunidade. Entendi na hora a denúncia. Daquele jeito, os artistas locais mostravam a todos a forma como eram vistos pela cidade - e que destoava completamente da realidade que eu conheci ali, ao vivo.

Conversa de cantadores boleiros - de vermelho, fui por alguns minutos o "olheiro da Espanha", rs

Hora dos jogos!

Torcida presente, acompanhando e comentando
Premiação literária: cordéis e livros
A comunidade, em torno do futebol: um universo riquíssimo: quadra e parquinho comunitário, arte visual, literatura...

   Com os jogos ainda acontecendo, passeamos pelas ruas estreitas e visualmente riquíssimas da comunidade. Símbolos de futebol aqui e ali, comércio alternativo, paz e limpeza. Fomos almoçar na padaria e depois nos despedimos dos colegas.

A grande vitória é participar
   Na volta, às 14h45, sempre a pé, passando novamente pela praça na região central da cidade... Vimos agora cerca de 150 pessoas, a maioria usando roupa amarela e alguns "embrulhados" em bandeiras do Brasil. Uma viatura da polícia circulava dando segurança a eles. Havia megafone, mas o único e insistente discurso era:

"Liguem para qualquer rádio! Avisem que estamos aqui.
Serve qualquer rádio. Tentem a Jovem Pan..."

   Não pude deixar de pensar no tanto que aqueles "brasileiros de bem", uniformizados, teriam aprendido sobre cidadania se tivessem visitado a comunidade Santa Cruz.

* * *

   Poderia ter acabado por ali, mas, em seguida...
   Quase na esquina de casa, um rapaz negro, forte, pedia "pelo amor de Deus" que alguém ajudasse a comprar fralda para os filhos (gêmeos) dele... Disse que havia saído da cadeia há quatro dias (após 8 anos de reclusão por homicídio) e a polícia já tinha passado por ele há alguns minutos, fazendo marcação, perguntando o que ele estava fazendo ali... Ele estava tentando juntar dinheiro para as fraldas. Tinha menos de quatro reais, às 15h. A mulher estava sentada na calçada, a uma quadra, com os filhos, no frio, no sol... Ele confessou que conhecidos tinham falado para ele roubar fraldas, mas ele não queria se sujeitar a voltar para a cadeia depois de tudo... Paguei o pacote de fraldas. Com delicadeza, ele me pediu também a nota fiscal, para provar que as fraldas tinham sido compradas. Percebam a crueldade: a sociedade punitiva faz marcação cerrada... Aquele homem simples sabia que precisaria provar sua honestidade a cada instante, a cada gesto. Após guardar a nota, ele perguntou se eu era de alguma igreja; eu disse que não. Ele então me deu a bênção de Deus.
   E eu recebi.

(Paulo R. Barja, com Claudia R. Lemes e fotos de JB, Moacyr Pinto e P.R.Barja)

6 de abril de 2018

NÃO HÁ PRISÃO QUE NOS CALE


muitos falam de Jesus
- ele arrastou sua cruz.
os pregos vieram depois.
qual o crime cometido?

prenderam o nobre Gandhi:
não havia crime algum.
o tiro veio depois.
Mahatma vive em nós.

tentaram calar Mandela.
foi preso por tantos anos
que a luta se fortaleceu
- o apartheid foi acabando.

prenderam, sim, Luther King.
o tiro veio depois.
o rifle serviu apenas
para eternizar sua voz.

o governo americano
pediu a expulsão de Lennon.
o tiro veio depois.
mas quem canta? escute: é John...

há muita coisa que os une
além de morte e prisão:
justiça, amor, liberdade,
e a luta contra a opressão.

vivemos, neste momento,
tempos de grande injustiça.
saberemos revidar
com arte, mesmo sem rima.

"você pode até dizer
 que sou só um sonhador"
- eles sonharam também,
  buscando um mundo melhor.

medo? não. nunca. jamais!
os injustos é que t(r)emam
pois o amanhã nos acena.
a eternidade também.

(Paulo Roxo Barja)

1 de março de 2018

MÍDIA - PADRÕES DE MANIPULAÇÃO (3)

AULA RÁPIDA DE INTERPRETAÇÃO
DE NARRATIVA MIDIÁTICA PÓS-GOLPE
(a partir de apontamentos de Perseu Abramo)

Quando um jornalão afirma, em manchetes com letras garrafais, que 
"Recuperação chega a mais de 60% dos setores da indústria", está na verdade escondendo DUAS coisas:

1) A crise atual bateu forte em 38% dos setores industriais, que estão encolhendo.
Isso NÃO PODE (ou não deveria) ser motivo de comemoração, e sim de preocupação.

2) A tal "recuperação" não significa, no entanto, expansão nem contratação de funcionários (...). Durante a crise, a empresa [...] reduziu a equipe pela metade, para 40 pessoas.

Detalhe: este segundo trecho, eloquente, aparece isoladamente, "perdido" no meio da própria matéria do jornalão. Sim, aquela mesma que comemorava "recuperação".

Entenderam por que escrevemos entre aspas?

28 de fevereiro de 2018

Caro Demais

   Na triste manhã de sábado em que escrevo, um trabalhador está sendo velado em São José dos Campos; será sepultado à tarde. Foi assassinado durante o trabalho. Não falo de um empresário, industrial ou político; também não é diretor de empresa de ônibus nem Secretário de Transportes. Trata-se de um cobrador de ônibus, baleado durante um assalto na sexta-feira, 16 de fevereiro. Por conta disso, a paralisação dos cobradores e motoristas de ônibus no dia seguinte não é apenas justa: é necessária, para denunciar a absoluta fragilidade da vida de um cidadão trabalhador nesta cidade.

   Vejamos: São José dos Campos tem hoje uma das maiores tarifas de ônibus do Brasil (fica atrás de Brasília e Campinas). Mesmo assim, as empresas de ônibus solicitam aumento de quase 40% na tarifa – devem mirar o Livro dos Recordes. Surreal, já que nenhuma categoria de trabalhadores recebeu esse aumento – nem os secretários do prefeito, já contemplados com polpudos 19%. Pergunta-se: que segurança essas empresas – e, em última análise, a prefeitura – oferecem ao cidadão? A pontualidade é questionável; a disponibilidade de veículos em certas linhas beira o ridículo, com ônibus a cada hora e meia, provando que o sistema público de transporte visa o benefício apenas dos “de cima”, submetendo a população a duras condições de lotação – tentem espremer seis pessoas por metro quadrado, como as empresas aceitam nos ônibus.

   Atenta-se contra a vida a cada momento, aqui. Dizem que o barato sai caro. Aqui em São José, o caro é inaceitável.

Paulo R. Barja

27 de janeiro de 2018

MÍDIA - PADRÕES DE MANIPULAÇÃO (2)


PERSONALIZAR, QUANDO É PARA VALORIZAR;
ESCONDER, QUANDO É PARA EVITAR DESGASTE

Esse truque é manjado: personaliza-se a notícia para valorizar o sujeito (Carmen Lúcia) quando cumpre as medidas exigidas por essa mídia; no entanto, esconde-se o sujeito atrás de siglas quando se deseja preservar o mesmo de eventual desgaste com ação que mostre impunidade (ou qualquer outro gesto compreendido como "condenável pelo público")

3 de janeiro de 2018

MÍDIA - PADRÕES DE MANIPULAÇÃO (1)

Título de matéria publicada na primeira edição de 2018 do jornal "A Tribuna" (Santos, SP)



SE A AFIRMAÇÃO NÃO ENCONTRA RESPALDO NO PÚBLICO, A CULPA É DO LEITOR?

     A manchete do jornal santista sugere que a Economia melhorou, MAS as classes C e D não tiveram o bom senso de "perceber" ou "sentir" esta melhora. Ao longo do texto, arrisca-se até a hipótese criminosa: as pessoas estariam impressionadas por questões ligadas ao desemprego (e/ou subemprego) e isso estaria atrapalhando a compreensão do momento atual da economia.
     Ei! Desde quando se pode falar em melhora da economia com alta do desemprego? Para QUEM, afinal, a economia estaria melhorando, a não ser para os opressores de sempre? O erro não está na percepção das classes C e D, claro.

15 de dezembro de 2017

PensaCom 2017 - 2 trabalhos da Univap

   Nesta terça (12/12), estivemos em São Paulo para participar do PensaCom 2017. Reforcei a impressão que tive em 2016 do PensaCom: trata-se de um dos mais interessantes eventos nacionais na área de Comunicação. É particularmente interessante por ser um evento pequeno, concentrado; assim, não há aquela dispersão característica dos "grandes eventos". A sede (o Centro de Pesquisa e Formação do SESC - SP) é excelente, e o evento é gratuito, o que democratiza o acesso aos estudantes.
   Participamos do evento este ano com dois trabalhos:




Ana Leite, aluna - e pesquisadora


Apresentando um primeiro trabalho agregando Modelamento Matemático e Comunicação:
análise temporal da enquete promovida pela Veja sobre o ex-presidente Lula

Quem disse que não pode ter Matemática na pesquisa em Comunicação?
Aqui, mostramos que os simpatizantes de Lula são mais rápidos no voto do que seus opositores.

Com Claudia Lemes - parceria produtiva

   Versões completas destes 2 trabalhos serão enviadas para publicação nos anais do PensaCom. Até 2018!

14 de dezembro de 2017

5 em 1 - Cultura e Literatura na Univap Castejón


   Nesta segunda-feira, como parte da programação da Faculdade da Terceira Idade / Univap, participamos de um encontro sobre Cultura e Literatura na Univap Castejón. Participaram do encontro os escritores Claudia Regina Lemes, Ana Enedi Prince, Zenilda Lua, Charles Lima e Paulo Barja.

A partir da esquerda: Charles Lima, Zenilda Lua, Claudia Regina Lemes, Paulo Barja e Ana Enedi

    A partir do encontro, resolvi fazer um pequeno poema para apresentar cada um dos escritores participantes. "Do centro para as bordas", ficaram assim:



CRL

mãe
professora
mãe
diretora
mãe
escritora
mãe
artista
eu te vejo
amor
à vista


ZL

Lua
mesmo de
dia
veio da Paraíba
ao Vale do Paraíba
pra encontrar um Paraíba
Pura Poesia


AEP

Historiadora
e proseadora
corre com
paixão
pelos Campos
do José
e do Jordão

CL

Escritor
boxeador
prosa crua
lírica nua
soco no oco
firmeza
con fuoco


   A seguir, mais alguns registros do encontro:

Com essa turma,  é sempre festa: a festa do encontro

Claudia autografando o livro que acabamos de lançar em parceria



   Agradecemos à professora Débora Guedes e à Jaqueline, pela acolhida sempre generosa e sorridente. Até a próxima!

8 de dezembro de 2017

(Mais uma) Vitória da Liberdade


     Saímos da Câmara de São José dos Campos pouco depois das 20h. Vitória: entregamos manifestos, ocupamos a galeria e foi novamente adiado o projeto da "Escola Sem Partido". Mas foi chocante ver uma turminha (MBL) defender o tal projeto gritando que quer o Bolsonaro presidente...
Era só isso e usar buzinas. Zero argumento...
     O projeto deverá ser arquivado porque restringe a liberdade de expressão, cerceia a educação e usa o surrado e absurdo argumento de "proibir ideologia de gênero"...
     Ei, o que defendemos é o respeito a todos, o direito à diversidade, à cidadania!
    A autointitulada direita não quer que se fale de feminismo nem respeito às minorias. E o MBL levou bandeiras do século XIX! Brasil império! Estão 200 anos atrasados.
     Fui de rosa e fiquei com o povo LGBT, claro. Gente decente!

Sessão histórica na Câmara de SJC, 7/dez/17

5 de dezembro de 2017

Em Nome da Cidadania

(a propósito da apreciação de projeto referente à proposta de "escola sem partido" em São José dos Campos)

     Sou homem, branco, católico, classe média, heterossexual; nunca passei fome e sempre tive onde morar. Sou maioria? Não: combinadas, essas características formam um subgrupo da sociedade – o subgrupo dos privilegiados, ou seja, dos que acessam as melhores opções de trabalho, independentemente de mérito. Mas, nesse contexto de vantagem competitiva (na verdade, injustiça estrutural), por que tantos com perfil assim mostram tanta dificuldade em abrir espaço para os demais? Impor uma visão de mundo oriunda de privilégios seria uma injustiça flagrante.
     Sou homem – nessa condição, reconheço o machismo da sociedade atual; é um tipo de injustiça que deve envergonhar a todos e precisa ser superado, em nome de uma convivência mais harmoniosa.
     Sou branco – assim, preciso saber do ponto de vista dos negros, secularmente oprimidos no Brasil. Mais que falar, preciso ouvir, para que superemos as diferenças ainda existentes.
     Sou católico – por isso, é importante que minha filha tenha acesso à Umbanda, ao Espiritismo, ao Budismo e às outras religiões na escola, para aprender a respeitar a diversidade.
     Sou de classe média – preciso então estar atento às demandas sociais, para ajudar o país a superar a desigualdade.
     Sou heterossexual – mas seria um monstro se desrespeitasse o direito de todo e qualquer indivíduo para viver sua sexualidade da forma que lhe for mais conveniente.
    Ao condenar uma opção diferente das minhas, estaria violando a própria noção de humanidade. Como pai, devo respeitar a autoridade dos professores, que devem trabalhar com plena liberdade. Como professor, preciso garantir que alunos jamais reproduzam as injustiças de que estamos fartos. Como cidadão, exijo o direito à diversidade.
     Por isso, pela cidadania, sou contra a “escola sem partido”.

Paulo Roxo Barja

9 de outubro de 2017

Mais que nunca, é preciso sonhar

(“Os Gigantes da Montanha” e o Grupo Galpão)

Fui ao teatro (re)ver o Grupo Galpão e saio com a impressão de que a beleza na Arte, a partir de um certo ponto, ultrapassa o próprio limite das palavras. Paradoxo: ainda assim, sou impelido a escrever. E por razões objetivas: no Brasil de 2017, é preciso assistir “Os Gigantes da Montanha”, montagem do grupo para o texto de Luigi Pirandello.
Sim, vivemos num tempo em que a beleza chega a adquirir conotação subversiva - principalmente quando aliada à excelência da representação. Para dar um exemplo: a caracterização antológica do ator Paulo André como personagem feminina na peça é capaz de ofender certas “pessoas na sala de jantar” (como diriam os Mutantes). Pior para os que se ofendem. Nestes tempos difíceis, em que setores (ultra)conservadores chegam a pedir censura a exposições e apresentações artísticas (na verdade “exigem”, o que apenas explicita seu caráter autoritário), é reconfortante ouvir o Galpão emendar o final de uma das músicas com a exclamação: “Censura não!”
Pirandello morreu às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Certamente compreendia os graves tempos que estavam por vir. Poucos anos depois, Walter Benjamin passou a alertar sobre a mudança de percepção que se operava nas pessoas a partir da reprodutibilidade técnica nas obras de arte. Pois bem: o teatro nunca se curvou à mera reprodutibilidade. O acaso sempre está presente, e por isso mesmo a aura nunca se perde. Curioso: um seriado famoso na TV dos anos 1990 avisava que “a verdade está lá fora”. O Galpão viaja pelo Brasil confirmando que “sim, a verdade está AQUI fora” – e é tanto mais impactante quanto mais se revela através do registro de fábula.
A cada época, seus desafios. Temos os nossos, e não falo (só) de manter as contas em dia: trata-se de lutar inclusive pelos direitos mais fundamentais. Nos últimos tempos, a imprensa (!!) tem dado espaço a políticos que defendem abertamente a imposição de limites à liberdade de expressão, propondo inclusive sanções e multas aos libertários. Pois bem: no passarán, caros censores! Temos a fábula. E fábulas como a de Pirandello prestam-se a múltiplas interpretações e questionamentos; ler, ouvir, cantar e representar são atitudes que enriquecem a própria experiência humana.
Voltando à peça: logo no início, quando a brancaleônica trupe mambembe perambula em busca de um lugar para apresentar seu espetáculo, ficamos sabendo que fantasmas não assustam artistas. Na verdade,

a Arte faz ponte
entre o pleno Aqui-Agora
e o reino do Além.

A última cena, aquela que Pirandello contou mas não escreveu, trata do embate dos artistas com os Gigantes. Que não são propriamente gigantes, o texto explica: trata-se de pessoas que chegaram “no alto da Montanha” com muito esforço, mas que, na caminhada, embruteceram, tornaram-se de certo modo insensíveis – esquecerem-se, talvez, de sua própria humanidade. Culpa do Empreendedorismo ou da Meritocracia? A peça estimula fortemente a reflexão, neste momento em que artistas, buscando seu lugar na praça, são pressionados a se converterem em “empresas de um homem só” (as MEIs).
A peça, escrita na década de 1930 e montada pelo Galpão em 2013, torna-se ainda mais atual agora. Os artistas, armados de figurinos, vozes e sonhos, caminham para se apresentar diante dos Gigantes. Retroceder? Nunca. Temer? Jamais.
Ao fim da peça (na verdade, o fim ainda está por escrever), resta-nos agradecer ao Galpão pelo exemplo dado nestes primeiros 35 anos de sua trajetória: sem concessões, dando sempre coerência aos nossos sonhos. Até mesmo depois do espetáculo: nesta cidade que um dia abrigou o Pinheirinho (invadido e desocupado por Gigantes da Montanha fardados), passavam das dez da noite quando encontramos os atores saindo do teatro. Cansados, após mais uma jornada de belezas, eles nos mostram que, sim, sempre há tempo para um abraço. E que ninguém ouse censurar o afeto, que é e sempre será revolucionário.

É preciso que sonhemos,
principalmente acordados;
que encaremos os Gigantes
(na rua e até no Senado)
e saibamos exprimir
com Arte o nosso recado.

P.R.Barja