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10 de setembro de 2010

REDESATANDO-NOS

(Refletindo Sobre Arte em Espaços Públicos)

Como cidadão apaixonado por cultura popular, tenho interesse em acompanhar discussões sobre a rua como espaço de atuação (não apenas no sentido artístico). O texto de Adalton Alves (1) recentemente publicado traz à mente questões pertinentes.
Sébastian Charles (2) tem observações bastante interessantes, que se aplicam como diagnóstico (“como as coisas estão”). Aliás, o conceito de modernidade como “racionalização técnica do mundo” a meu ver engloba perfeitamente o que se tem visto nas artes também (há um bom tempo), com o predomínio dos efeitos visuais, a espetacularização sobrepondo-se às idéias etc.
Há também a exacerbação da própria mídia em si, com o gosto pelos “making of”, os “erros de gravação”, as “cenas excluídas” e por aí afora.
Como conseqüência do hiper-individualismo, também é fato que, hoje, dentro e fora das artes, “os indivíduos ligam-se a diversos grupos, criando novas formas de pertencimento conforme seu interesse”.
No entanto, se a “racionalização técnica” (das artes, do mundo) e o hiper-individualismo são diagnósticos, resta responder à pergunta: o que fazer?
Aí é que entra Marc Augé (3), a meu ver. Desde a leitura do livro dele (“Não-lugares”), frequentemente me questiono sobre a transformação (pós-moderna?) de lugares em não-lugares.
Exemplifico: no corre-corre do mundo atual, a rua também é um “espaço do viajante”, certo? Assim, num certo sentido poderíamos incluir “a rua” na lista de “não lugares” propostos por Augé (até mesmo com taxas associadas, se pensarmos em IPTU e IPVA, por exemplo).
Por outro lado, não dá pra generalizar: basta andar em certos bairros de cidade grande ou em ruas/praças de cidades pequenas pra ver que aí a lógica é oposta, e muitas vezes a rua é sim um lugar (até privilegiado) de encontro.
Uma proposta: atuar como cidadão (mais que como artista) não apenas nos "lugares estabelecidos", mas também (e principalmente) nos não-lugares. Buscar aí as identidades coletivas, trabalhar a noção de pertencimento, o senso crítico – há muito trabalho pela frente, e me parece claro que esta deve ser uma tarefa de muitos, e não “apenas para indicados”!
Enfim, essa é uma discussão que acho que precisa ser levada à sociedade como um todo - como aliás muitas discussões importantes nos dias de hoje. Acho que é chegado o momento de tentar conversar de um modo mais global, misturando mesmo trabalhadores de todas as áreas ou, melhor dizendo, “de todas as artes” - cozinhar e fazer jardinagem, por exemplo, são artes, certo?
A conversa sobre uma definição inclusiva de Arte é uma necessidade urgente para todos nós, creio. Fica a ideia para um diálogo. Aliás, um não: muitos!
Paulo Barja - paulobarja@ig.com.br


REFERÊNCIAS
1) ALVES, Adailton. HIPER, SUPER, PÓS: metáforas da contemporaneidade. Disponível em: http://teatroderuaeacidade.blogspot.com/ (consulta em 09/set/2010)
2) CHARLES, Sébastien. Cartas sobre a hipermodernidade ou O hipermoderno explicado às crianças. Trad.: Xerxes Gusmão. São Paulo: Barcarolla, 2009.
3) AUGÉ, Marc. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Trad.: Maria Lúcia Pereira. 7ª ed. Campinas, SP: Papirus, 2008. (Coleção Travessia do Século) 

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